“O principal componente da SII é a alteração do eixo cérebro-intestino”

Cristine Lengler, gastroenterologista do Fleury Medicina e Saúde, nesta entrevista, explica que a síndrome do intestino irritável é uma doença funcional em que o principal componente é a alteração do eixo cérebro-intestino. Sim, muitos podem achar que os alimentos são os vilões, mas, na verdade, é o cérebro o principal ator neste drama.

Cristine afirma que muitos pacientes chegam ao consultório após uma via crucis de atendimentos anteriores. E que algo muito comum, e preocupante, é que muitos desistem do tratamento, pois querem resultados rápidos. Ela avisa que é preciso ter paciência, pois não existem curas milagrosas, muito menos imediatas.

Confira abaixo a entrevista exclusiva:

Pergunta-Como define a síndrome do intestino irritável – SII?

Resposta-A síndrome do intestino irritável acomete o intestino e é uma condição comum na população mundial, sendo parte do grupo de distúrbios funcionais associados a alterações do eixo cérebro-intestino. É definida pela presença de dor abdominal associada à alteração do hábito intestinal (diarreia, constipação ou ambos). Na ausência de doença orgânica associada.

P-A SII parece ser algo difícil de diagnosticar, concorda? Por quê?

R-O diagnóstico da síndrome não é difícil, mas requer a exclusão de algumas situações que podem causar sintomas semelhantes, uma vez que não temos um exame específico que a diagnostique. Uma vez excluídas causas orgânicas importantes, na ausência de alterações laboratoriais e com quadro clínico compatível, faz-se o diagnóstico da síndrome. Se uma pessoa tem diarreia com frequência, a motilidade está alterada e um teste que confirme isso não me dará um diagnóstico. É preciso fazer alguns exames, como a colonoscopia ou calprotectina fecal, por exemplo. Porém é preciso analisar caso a caso, depende do sintoma, da história e do exame físico individual.

P-Há uma impressão que o número de pessoas com a SII e/ou com a Intolerância à Lactose está aumentando. É fato ou impressão mesmo? Tem algum número atual?

R-Os trabalhos mostram que a prevalência da doença tem sido estável. Os sintomas de síndrome do intestino irritável acometem aproximadamente 10% a 15% da população mundial.

P-Sempre ouvimos que humanos são os únicos mamíferos que continuam a tomar leite depois de crescerem. Leite não seria natural ou necessário fora da fase da amamentação?

R-Isso não procede. O leite e seus derivados são a principal fonte de cálcio na infância e também são importantes fontes de cálcio na idade adulta. Apenas intolerantes à lactose e portadores de algumas condições gastroenterológicas específicas não devem consumir leite e derivados.

P-Pessoas com a SII comentam que os profissionais não as levam a sério nas consultas. Há uma falta de conhecimento sobre o problema?

R-Como médica gastroenterologista, vejo muitos pacientes com síndrome do intestino irritável no meu dia a dia. Pessoalmente, não posso dizer que seja uma realidade de mau atendimento médico, no sentido de menosprezar a queixa do paciente, mas acho que muitos pacientes podem assim interpretar ao ouvirem do médico que se trata “apenas” da síndrome do intestino irritável, quando, na verdade, estão tentando tranquilizar o paciente no sentido de que não é uma condição grave que possa colocar a vida em risco.

Para atendermos bem um paciente com síndrome do intestino irritável é necessário um tempo maior de consulta, o que muitas vezes não é possível. Além disso, há a necessidade de entendermos melhor a realidade do paciente e contextualizar os sintomas. Os aspectos emocionais são realmente muito importantes. Para isso é necessário que se estabeleça uma boa relação médico-paciente. E o paciente também precisa entender que muitas vezes leva-se certo tempo até conseguir melhorar os sintomas, não é incomum precisarmos de mais de uma tentativa medicamentosa, além da abordagem dos aspectos emocionais.

P-O lado emocional pesa, mas a alimentação parece ser o gatilho mais importante. Ou não?

R-Não, a alimentação não é o gatilho mais importante. O alimento dispara o sintoma, mas não causa o problema. A SII é uma doença funcional em que o principal componente é a alteração do eixo cérebro-intestino. O fator essencial na síndrome são as alterações de motilidade e de hipersensibilidade visceral mediados pelo sistema nervoso central. Pessoas com SII têm o intestino com uma sensibilidade maior. Por exemplo, uma quantidade de gases que para uma pessoa sem o problema seria normal, para quem tem a síndrome dá a sensação de estufamento.

Ou seja, o paciente tem uma sensibilidade exacerbada, o que chamamos de hipersensibilidade visceral. Nessas pessoas, a movimentação do intestino fica alterada, seguindo o comando que vem do cérebro. O cérebro de quem tem SII, quando associado a fatores estressores, dá uma resposta alterada, liberando substâncias que, no intestino, vão provocar hipersensibilidade e sensação de motilidade. E essas alterações realimentam o cérebro com estímulos, aumentando a sensação de dor. Ou seja, é um caminho de duas vias.

olhos ansiedade geralt pixabay

P-Algumas pessoas não concordam quando se fala que o mais importante é o lado emocional, dizendo que não têm problemas.

R-Muitas vezes não há um diagnóstico psiquiátrico. Pessoas com SII têm respostas exacerbadas ao estresse, como falei antes. Não é porque uma pessoa é mega-ansiosa, megaestressada que vai passar mal. O cérebro de quem tem SII dá respostas inadequadas a qualquer coisa, não precisa ser um evento importante, como uma discussão com o chefe, basta que o cérebro libere substâncias que disparem estímulos nervosos. Isso é inconsciente, a pessoa não percebe.

P-Dizem que não morremos por causa da SII, mas morreremos com ela. Não há mesmo cura?

R-Não existe cura. A pessoa com síndrome do intestino irritável, ao longo da vida, costuma ter períodos sem sintomas alternados com períodos mais sintomáticos. Mas a síndrome é tratável.

P-Há estudos novos que trazem alguma esperança em tratamento ou descoberta mais rápida do problema? Novos exames?

R-Não, por enquanto.

mulher meditação pixabay 33

P-Quais as dicas para se viver com a SII e IL da melhor forma possível?

R-Inicialmente, procurar atendimento médico logo e não deixar de comunicar seu médico quando ocorrerem intensificação dos sintomas. O tratamento da síndrome do intestino irritável tem dois focos: alívio dos sintomas com medicação e alimentação adequada; e modificação da resposta ao estresse. A parte emocional é muito importante. Abordagens que modifiquem a resposta ao estresse ajudam muito, como psicoterapia, exercícios de relaxamento, atividade física regular e mindfullness. No caso desta última, não foi que um pessoal “paz e amor” que falou que funciona, há trabalhos científicos demostrando bons resultados.

A dieta pode auxiliar e é orientada conforme os sintomas (se diarreia, se constipação, se distensão). Se houver constipação, o consumo de mais líquidos e de alimentos ricos em fibras auxiliam; quando predomina distensão, orientamos uma dieta com alimentos pouco fermentativos. Em geral, a orientação alimentar depende dos sintomas apresentados. Quando essas medidas não são suficientes pode-se optar por adotar uma dieta com restrição de FODMAPs.

FODMAP é o conjunto de alimentos fermentáveis que são mal absorvidos pelo nosso organismo e que podem causar desconforto intestinal. Eles são classificados como oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis. Os alimentos fermentáveis referidos são os carboidratos não digeridos pelo trato digestivo humano. Assim, esta alta osmolaridade e a formação de gases pela microbiota intestinal acabam por desencadear os referidos sintomas.

Quando adotamos uma dieta com baixo teor de FODMAPS a ideia é identificarmos os alimentos desencadeadores de sintomas. Não é o objetivo manter a restrição de todo o grupo para sempre. O ideal é que, após a pessoa se sentir melhor, vá reintroduzindo os alimentos gradativamente até identificar os específicos de modo que, posteriormente, sejam evitados apenas os alimentos desencadeadores, e que a dieta não fique muito restrita por muito tempo. Manutenção de dieta com pouco FODMAPs por longo prazo pode levar a várias deficiências nutricionais. Não é recomendada a adoção desse tipo de dieta sem acompanhamento profissional.

TIPOS DE FODMAP   ONDE ENCONTRAR?*
Monossacarídeos (frutose) Xarope de milho, mel, néctar de agave, maçã, pera, manga, aspargos, cereja, melancia, sucos de fruta, ervilha.
Dissacarídeos (lactose) Leite de vaca, leite de cabra, leite de ovelha, sorvete, iogurte, nata, creme, queijo ricota e cottage.
Oligossacarídeos (fructans) Cebola, alho, alho-poró, trigo, cuscuz, farinha, massa, centeio, caqui, melancia, chicória, dente-de-leão, alcachofra, beterraba, aspargos, cenoura vermelha, quiabo, chicória com folhas vermelhas, couve
Oligossacarídeos (GOS Lentilhas que não foram enlatadas, grãos de bico que não foram enlatados, grãos enlatados, feijão, ervilha, grãos integrais de soja.
Polióis Xilitol, manitol, sorbitol, glicerina, maçã, damasco, pêssego, nectarina, pera, ameixa, cereja, abacate, amora, lichia, couve-flor, cogumelos.

frutas vermelhas e roxas pixabay

P-Como substituir os alimentos que na teoria fazem mal?

R-A substituição vai depender de qual alimento será retirado da dieta, portanto isso é analisado caso a caso.

P-Li que alguns profissionais recomendam a criação de um diário com a lista do que se comeu.

R-Fazemos isso quando a pessoa está em tratamento, mas não melhora. Tentamos identificar alimentos que fazem mal para ela. Ou seja, é caso a caso, não há uma fórmula que vale para todos. É individual, conforme sintomas e evolução. Como falei antes, a alimentação faz parte do tratamento. Há casos nos quais conseguimos identificar um alimento e o tirarmos, mas varia de um paciente para outro.

medico-consulta

P-Quais dicas são importantes para quem tem SII?

R-A primeira coisa é ter cuidado com blogs que trazem informações erradas. Dão fórmula disso, receitas daquilo, chás que curam… As pessoas querem algo milagroso, e isso não existe! Outro problema muito comum, a pessoa não tem paciência de persistir no tratamento. Ela chega no meu consultório, por exemplo, depois de passar com vários médicos antes e já quer resultado. Não há um remédio superbom para a SII. Prescrevemos um medicamento e não dá certo, voltamos ao zero. Às vezes, na terceira ou quarta tentativa funciona, mas o paciente não tem paciência e isso acaba atrapalhando um pouco.

A vida agitada, como, por exemplo, a que levamos aqui em são Paulo, não ajuda. É uma cidade complicada, muito trabalho, muito trânsito, muitos problemas e a SII é uma doença na qual o estresse piora muito os sintomas. Por isso, técnicas de relaxamento e mindfulness ajudam muito. E, claro, procurar ajuda médica. Isso porque os sintomas da síndrome podem esconder inúmeras doenças, até graves, e a pessoa pode achar que não é nada. Ou o contrário, ela achar que tem algum problema de saúde sério e é mesmo a SII.

Cristine Lengler é Formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Especialista em Gastroenterologia Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, atua como médica gastroenterologista do Fleury Medicina e Saúde. É membro fundador do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil (GEDIIB)

*Tabela cedida pela médica

 

 

 

 

 

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