Interesse por moda cresce entre os novos 50

Em 2017, durante a edição 43 da SPFW, a estilista Raquel Davidowicz, da grife UMA, convidou a prima, Suzana Kertzer, uma ex-modelo, então com 67 anos, para desfilar um de seus modelos. Na época, Raquel declarou: “Hoje, a roupa não tem idade, então, não tem que só mostrar modelos tão jovens”. Ela também lembrou que entre as mulheres que usam suas roupas havia clientes de 70 anos, “bacanérrimas”, que eram as mais ousadas e se vestiam com muita personalidade.

UMA SUZANA
Suzana Kertzer desfilando para a prima

Em agosto do mesmo ano, na 44ª edição da SPFW, foi a vez da estilista Gloria Coelho, em parceria com a Natura, abordar o tema #velhapra questionando os padrões de beleza da moda. Na época, ela comentou que “a idade não pode restringir a carreira, a atitude, a forma de se vestir e as feições de ninguém”. Na passarela, mulheres de várias idades, como a cantora Marina Lima e a empresária Teresa Fittipaldi, entre outras, desfilavam.

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A cantora Marina Lima

Sim, ao que parece, a moda está caminhando para ser ageless (sem idade) e os novos 50 estão cada dia mais interessados nesse tema. Eles não apenas são consumidores atentos que sabem o que querem, como também têm mostrado interesse em aprender a fazer e a entender a moda.

Auge da carreira

“Entre meus clientes, 25% deles estão na faixa dos 50 anos. E tenho percebido o aumento do interesse desse público por moda”, afirma a consultora de imagem Raissa Starosta, que acrescenta: “Antigamente, uma mulher dessa idade era considerada uma senhora. Hoje, ela está no auge da carreira e tem filhos pequenos. Creio que isso de ser mãe mais tarde esteja ajudando a manter a mulher mais jovem”.

viola michael kors
A atriz Viola Davis

Raissa diz que a maior diferença entre as mulheres jovens e as maduras é que as segundas sabem o que querem. “As de 50 geralmente passaram por um divórcio ou estão se reinventando na carreira e me procuram querendo mudar o estilo, mas sabem o que querem usar”.

Na opinião da profissional, não existe mais roupa para jovem e roupa para senhora. “Se uma garota comprar uma camisa branca, pode ser que a use em uma entrevista de emprego e, depois, dará um nó e a vestirá com shorts. Já uma mulher de 50, irá usar com jeans ou calça social e cinto. A maneira como se usa é o que diferencia, não a idade”.

Nasce uma modelo

Maria Rosa Von Horn tinha o desejo, desde pequena, de ser modelo. Porém, como a maioria das mulheres, fez a trajetória clássica: formou-se em Direito, se casou e teve filhos. Em 2007, prestes a completar 50 anos resolveu concretizar o sonho. E lá foi ela fazer um curso de passarela com meninas de 13 anos: “Sou meio fora da curva: mais alta que a média, sempre estive bem fisicamente e de saúde, então, por que não?”, diz ela, hoje com 61 anos.

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Ela conta que não conseguiu nada, foi tachada de maluca e, decepcionada, resolveu escrever para uma revista mostrando o preconceito que sentiu. A matéria repercutiu tanto que ela acabou dando entrevistas para vários outros veículos de comunicação. Maria Rosa recebeu milhares de mensagens de mulheres que a apoiavam: “Elas se sentiam inexistentes, criticavam o mundo restrito da moda e beleza e também a visão preconceituosa da publicidade, que retratava mulheres de 50 anos em anúncios de remédio ou fralda geriátrica”, conta. Mesmo sem um tostão, ela teve o insight de criar sua própria agência virtual, algo que não era comum em 2007. Assim nasceu a FiftyModels, especializada apenas em modelos maduras e na qual Maria Rosa também atua.

Hoje, 12 anos depois, a agência tem clientes como Arthur Caliman, Globe, Natura, Casas Pernambucanas, entre outros. Para Maria Rosa, o segmento só tende a aumentar: “Mulheres de 50 anos, hoje, estão no auge da vida, são ativas, elegantes, antenadas com o mundo e experientes. Representam a melhor fatia consumidora do mercado, pois chegaram ao topo da realização pessoal e profissional”.

Usando e criando moda

mulher estudando wiseGEEK

Para o professor e coordenador da Pós-Graduação em Styling e Imagem de Moda das Faculdades Santa Marcelina, Marcio Banfi, os novos 50 estão, sim, mais interessados em moda: “Essas pessoas não querem mais se vestir como ‘velhas’, querem usar as mesmas roupas que pessoas mais jovens usam, sem distinção”.

O professor confirma que tem visto um aumento de alunos, nesta faixa etária, nos cursos de moda: “Sem dúvida, há muitos casos de pessoas com 50 anos procurando graduação, pós e cursos de moda. Sinto que aumentou e noto isso nas minhas proximidades”.

Porém, mesmo com essas mudanças, ele não acredita que se possa falar que a moda agora é ageless. “Ainda não chegamos lá, mas estamos caminhando para isso. Seria o ideal, uma roupa sem distinção de idade”. Quanto a quem faz a moda, Banfi é menos otimista: “Ainda são poucos os que pensam nesse público. Sei que, por exemplo, algumas marcas têm clientes maduros que acabam se identificando com parte da coleção. Porém, não posso dizer, exatamente, se existe o pensamento voltado especificamente para eles”.

Revista para mulheres reais

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A advogada e empresária Soraya Casseb Bahr de Miranda Barbosa estava folheando uma revista, com a filha, formada em publicidade e marketing, e as duas começaram a analisar o material: “Chegamos à conclusão que as publicações que existem retratam uma moda que não é para jovens nem para maduras. Fotos com moças muito magras usando roupas que não chamaríamos de ‘descoladas’. E o poder de compra dessa jovem não alcança os valores dos produtos oferecidos, como uma bolsa Chanel, por exemplo”, analisa.

E completa: “E os saltos altos? A maioria das jovens usa sapatilha, bota, tênis. Quem compra sapatos de saltos e vestidos de grifes costuma ser a mulher na faixa dos 50, que tem poder aquisitivo elevado, que pode se dar ao luxo de pagar R$ 5 mil por um sapato Louboutin”.

Foi aí que ela teve um insight e pensou em fazer uma revista diferente, para mulheres maduras e reais: “Criei a Senhora Atual para mulheres que estão trabalhando, produzindo, comprando e que só pensam em se aposentar depois dos 70 anos, e olhe lá. A revista mostra uma mulher vaidosa, que se cuida, paga suas contas, viaja, usa joias, troca de carro, investe em imóveis. Uma mulher que movimenta um mercado que a ignora e que, ao fazer uma propaganda, coloca uma garota que nem sabe o que está fazendo ali.”

No início, ela teve dificuldades em convencer anunciantes que teriam retorno. “Não tive problemas em colocar empresas brasileiras nos editoriais, não houve resistência. Agora, um ano depois, o retorno tem sido maior que o esperado. Não havia uma publicação como a nossa no Brasil”, finaliza a empresária, que tem 62 anos.

“Orgulho da pessoa que me tornei”

THEREZINHA 1

Therezinha Lima Fernandes, 51 anos, advogada e modelo, casada há 30 anos, tem 3 filhos e 4 netos. “Tornei-me modelo aos 50 anos. Consumidora e muito vaidosa, atenta ao mundo da moda e aos lançamentos de produtos de beleza, percebi que o mercado de propaganda estava começando a exibir modelos maduros, de vários perfis. em seus lançamentos. Eu me interessei e fui pesquisar agências que contratavam modelos acima dos 50 anos. Assim, conheci a FiftyModels. Mandei uma foto, fui agenciada e, para minha surpresa, logo no primeiro mês participei de um editorial de moda. Tenho uma autoestima elevada, estou de bem com a vida e me agrada a imagem que vejo diante do espelho. Hoje busco capacitação profissional, faço cinema no Studio Fátima Toledo e acabei de concluir curso de passarela e expressão corporal na Namie Wihby School. Confesso que pessoas que me cercavam levaram um susto quando optei por essa nova carreira, pois, por exercer o Direito, aparentava um perfil muito sisudo, e a minha nova escolha exigia carisma e alegria. Hoje, no local onde trabalho, ou quando estou com os meus filhos e netos, sinto que as pessoas exibem certo orgulho da pessoa que me tornei, estão sempre distribuindo a revista na qual fiz parte do editorial de moda. Em relação ao mercado de trabalho, existe um estereótipo das mulheres acima de 50 anos que não condiz com a nova realidade. A publicidade rejeita as mulheres que considero fashion. Nós almejamos além dos comerciais e propagandas de reuniões de família e produtos para terceira idade, queremos exibir os produtos de beleza, roupas e acessórios modernos do qual somos consumista. Enfim, estamos invadindo as redes sociais por meio dos nossos ensaios fotográficos e mostrando um padrão que já existe, embora não se divulgue”.

Mudando a autoestima

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Alice Yuka Okuda, 52 anos, empreendedora, divorciada, sem filhos: “Não era modelo. Comecei depois que fui desligada de uma multinacional em 2017, aos 50 anos. Trabalhei na área tributária durante 27 anos, tinha um cargo de gerente, com muitas responsabilidades. Um ritmo muito estressante, que afetava minha saúde e lado pessoal, ou seja, não tinha qualidade de vida. Então, decidi que não voltaria a trabalhar nessa área, apesar do salário ser bem atrativo. Pensei que não tinha muito tempo para aproveitar a vida e que o momento de trabalhar com algo que me desse prazer, ser feliz, mesmo ganhando menos, tinha chegado. Vi um anúncio sobre modelos com mais de 50 anos na internet, pesquisei sobre o assunto e encontrei a Maria Rosa da FiftyModels. Isso mudou minha autoestima. Percebi que depois que sai da zona de conforto e da rotina, consegui desenvolver outras habilidades que nem conhecia. No início, as pessoas desconfiaram, mas depois que os resultados foram aparecendo, todos me apoiaram e entenderam a importância do meu momento. O mercado é muito concorrido, ainda mais com atual situação do país. Tenho muita coisa para aprender, começar uma nova atividade leva algum tempo para decolar. De qualquer forma, acredito que hoje tenha mais chances para pessoas de 50 anos ou mais do que antes. A leitura que estou fazendo, é que esse mercado está pedindo pessoas reais, não somente aquela modelo jovem e que tem as medidas perfeitas. Começar uma nova atividade, seja como modelo ou qualquer outra coisa que você ame, exige coragem e determinação. As pessoas não podem deixar seus sonhos de lado, têm que acreditar e ir até o fim. Afinal de contas, estamos aqui para viver e ser felizes. Viver é muito mais que existir”.

“Não acho que haja algo proibido para uma mulher de 50 anos vestir”

laura e karl
Laura com o estilista Karl Lagerfeld

Laura Wie, 52 anos, casada, duas filhas, modelo, empresária, palestrante: Continuo envolvida com a moda, mas, claro, os convites para trabalhos, especialmente desfiles, diminuíram. Normalmente, a passarela é para mais jovens. Fiz as primeiras edições da SPFW, mas acho que houve uma mudança de perfil, hoje não há mais aquela supermodelo ou mesmo a mai conhecida. As meninas fazem parte de um grupo. Aquela fase passou. Como sempre trabalhei e gostei de moda, mesmo não sendo mais uma modelo tradicional, continuo envolvida. Fiz uma personagem no teatro, na peça Mademoiselle Chanel, entre 2004 e 2007. Marília Pêra era a Gabrielle Chanel e eu uma modelo da maison. Naquela época, já era apresentadora de televisão, e as matérias diziam: a modelo Laura Wie volta às passarelas pelo teatro. Fiquei receosa de ser chamada de modelo. E ela me disse: ‘Sempre fui bailarina e sempre serei. E estou com quase 70 anos. E você, pelo seu perfil e histórico, sempre será uma modelo. Aceite”. E eu aceito. O fato de manter a mesma forma de me vestir fez com que as pessoas continuem a me ver assim. Sobre mulheres maduras continuarem a trabalhar como modelo, isso sempre foi decisivo tanto na Europa quanto nos EUA. Quando trabalhei na Ford Models em Nova York , há cerca de 25 anos, havia um setor de mulheres maduras. O Brasil demorou para dar espaço para as plus size e negras, mas agora as vemos, o que é positivo, e acho que isso vai englobar as mais velhas também. Minha sogra, por exemplo, tem 75 anos, e se veste de forma bem moderna. Já minha mãe é mais classuda, então, tem aquele ar mais de senhora, enquanto minha sogra passa algo atemporal, alguém cuja idade você não sabe. Antes, uma mulher de 75 era uma senhorinha, hoje pode ser um mulherão. Não acho que haja algo proibido para uma mulher de 50 anos vestir. Sempre usei minissaia, mas outro dia vesti uma e me senti insegura, perguntei às minhas filhas, de 20 e 16 anos, se estava ridícula. Elas disseram que não, que tenho pernas bonitas e que era para eu não me trocar. Vale lembrar que meu campo de atuação me permite essa liberdade no vestir. Acho que o importante é ser mais elegante que moderna, não passar por uma mulher madura querendo ser uma garota. Se uma mãe, uma avó for a uma loja, tipo fast fashion, e quiser algo mais moderno, encontrará peças bacanas. Mais importante que ter roupa para essa ou aquela idade é ter numeração, havia um tempo em que ia até o 44 apenas. Creio que as pessoas maduras acham que não são representadas porque vemos campanhas de moda com jovens. Um exemplo bacana vem da Dolce & Gabbana, que sempre usou senhorinhas nas campanhas, aquela matriarca italiana e modelos mais novas, juntas. Outra grife que faz isso é a Missoni, também italiana. Tudo que sai da Itália vai para o mundo e incentiva a fazer parecido. Talvez, por aqui não tenhamos chegado a isso, mas estamos perto, pois estamos abarcando todos os tipos físicos e logo todas as idade entrarão nas campanhas também.

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