Estresse, depressão e ansiedade são gatilhos das crises da SII, afirma médica

Marcella Garcez é médica nutróloga, mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR e diretora da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia). Nesta entrevista, ela fala um pouco sobre a síndrome do intestino irritável e dá algumas dicas de alimentação e como ter uma vida mais saudável, mesmo tendo o distúrbio.

Ela começa explicando que síndrome do cólon irritável (outro nome dado à SII) é um distúrbio na motilidade intestinal, sem associação com alterações de estruturais do trato digestório, nem disfunções bioquímicas. Geralmente, se caracteriza por episódios de desconforto, dor e distensão abdominal, podendo estar acompanhados de diarreia e constipação.

Para Marcela, identificar a SII pode ser um pouco mais trabalhoso: “O diagnóstico não é fácil, pois ela pode ser confundida com algumas doenças mais graves, mas também não é tão difícil. O diagnóstico é essencialmente clínico, geralmente baseado nos sintomas, na ausência de sinais relevantes verificados no exame físico e, eventualmente, na visualização direta do intestino por meio de colonoscopia, para descartar diagnósticos diferenciais”.

Para ela, os casos têm se tornado mais comum em consultórios porque o estresse é um fator desencadeante importante e, claro, esse sintoma tem aumentado muito atualmente. “Doenças psiquiátricas como depressão e ansiedade também são gatilhos das crises”, admite a médica. “Assim como hábitos alimentares, como o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados e pró-inflamatórios aliados a um estilo de vida inadequado, com má qualidade de sono e sedentarismo”, completa.

Sabemos que muitas pessoas com a síndrome acreditam que ela seja causada apenas pela alimentação, mas há estudos que comprovam que o cérebro e as emoções são as origens. Marcella explica que no aparelho digestivo são sintetizadas a maior parte das substâncias chamadas neurotransmissores, como a serotonina, que atuam levando sinais e estímulos ao sistema nervoso e este manda sinais ao organismo para sintetizar mais ou menos deles.

“Essa comunicação entre o cérebro e o intestino deve ocorrer de forma adequada e depende de vários fatores, como dieta, equilíbrio da microbiota intestinal, prática moderada de atividade física, uma boa qualidade de sono e um controle adequado do estresse”, aconselha a médica.

E, como em outros problemas de saúde, as mulheres são as mais atingidas pela SII. Marcella admite que nesse caso, o problema pode estar ligado a outros, como a endometriose ou a piora dos sintomas durante o período menstrual: “A endometriose, por exemplo, é uma doença inflamatória que, por si só, pode ter sintomas parecidos com os do cólon irritável. Porém, se as duas disfunções estiverem presentes, os sintomas das duas situações serão exacerbados”, alerta.

Dieta FODMAP

Marcella explica o que é esta dieta: FODMAP é uma sigla para designar carboidratos osmóticos, geralmente fibras, que podem ser de difícil digestão para algumas pessoas: fermentable oligosaccharides, disaccharides, monosaccharides and polyols. São alimentos carboidratos fermentáveis não digeridos pelo trato digestivo humano, entre os principais estão os oligossacarídeos, fruto-oligossacarídeos (FOS) e galacto-oligossacarídeos (GOS), dissacarídeos como a lactose e monossacarídeos como a frutose. No grupo dos polióis estão principalmente o sorbitol e o manitol.

“A dieta de baixo FODMAP é prescrita temporariamente, até que os alimentos gatilhos sejam identificados, pois, como o aporte de prebióticos da dieta é baixo, se for mantida por muito tempo pode levar a quadros de constipação e disbiose (desequilíbrio da flora bacteriana intestinal que reduz a capacidade de absorção dos nutrientes e causa carência de vitaminas). Por ser uma dieta que oferece riscos, deve obrigatoriamente ter orientação profissional”, frisa a médica.

Entre os alimentos ricos em FODMAPs, ela lista o xarope de milho, mel, maçã, pera, manga, aspargos, cereja, melancia, sucos de frutas, leite de vaca, de cabra e de ovelha, iogurte, nata, creme, queijo ricota e cottage, cebola, alho, alho-poró, trigo, cuscuz, farinha, massa, centeio, caqui, chicória, alcachofra, beterraba, cenoura, quiabo, chicória, couve, lentilhas, grão-de-bico, feijão, ervilha, soja, damasco, pêssego, ameixa, lichia, couve-flor, cogumelos.

Para quem sofre com a SII, ela aconselha tratamento clínico com reeducação alimentar e mudanças de estilo de vida e o uso de medicamentos sintomáticos. Os tratamentos com probióticos suplementares específicos e individualizados também podem ajudar. “Porém, se os sintomas forem muito prevalentes, a pessoa deve procurar atendimento médico, para descartar outras patologias, identificar os gatilhos, reorganizar a dieta e o estilo de vida”, diz Marcella.

Ela enfatiza que a dieta é o ponto central tanto para desencadear os sintomas, se estiver desequilibrada, quanto para o tratamento por meio das mudanças de hábito alimentares.

Porém, não há nada mágico que possa ajudar: “Não há uma receita para o público em geral, porque os alimentos que são causadores de desconforto digestivo para alguns portadores de SII, não são para outros. Porém, uma dieta equilibrada, variada e o mais natural possível, aliada à boa ingestão de água e estilo de vida saudável são boas dicas para todos”, finaliza Marcella.

Marcella Garcez é médica nutróloga, mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, diretora da Abran e docente do Curso Nacional de Nutrologia da entidade. Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo.

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