Setembro Verde: comunicar à família o desejo de doação de órgãos é fundamental

Apesar do Brasil ser o segundo país com maior número de transplantes, cerca de 40% dos familiares não autorizam a doação – por isso, autodeclaração da intenção de doar é essencial;

Hoje é o Dia Nacional da Doação de Órgãos, data, instituída pela Lei nº 11.584/2.007, visa conscientizar a sociedade sobre a importância da doação e, ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas conversem com seus familiares e amigos sobre o assunto.

Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mesmo o Brasil sendo o segundo país do mundo em número de transplantes, cerca de 40% do total de potenciais doações não têm autorização da família, e outros 10% são perdidos por falhas no manejo clínico do paciente em morte cerebral. Agravando ainda mais o cenário, de acordo com dados do Ministério da Saúde, a pandemia de Covid-19 reduziu em 20% o número de transplantes em 2020, o que afetou diretamente pacientes que estão na fila aguardando um doador – de acordo com a ABTO, em dezembro de 2020, eram 43.643 pessoas em espera.

Tendo em vista esse cenário, a Campanha Setembro Verde é realizada ao longo deste mês com o objetivo de sensibilizar a população para que mais pessoas se declarem doadores de órgãos e tecidos. A ideia é conscientizá-las sobre a importância de comunicar à família o desejo de doação, já que de acordo com o pneumologista José Eduardo Afonso Jr., “a falta de conhecimento sobre o desejo do parente em doar pode motivar os familiares a recusarem a ideia”.

O médico destaca também os desafios enfrentados durante o período de pandemia. “Até 2019, a quantidade de doações vinha em curva ascendente, não só em números absolutos, mas também em relação a doador por população. Naquele ano, tínhamos 18 doadores por milhão de habitantes, e estimava-se que chegaríamos a 20. Porém, tivemos uma queda de 12,7%, voltando ao patamar equivalente a 2017, e não tendo doadores, o número de transplantes é impactado diretamente”.

Houve uma variabilidade entre as regiões do Brasil: Sudeste e Centro-Oeste tiveram 5% de redução; Sul teve 13%; Nordeste, 28%; e Norte do país, 43%. Apesar da situação crítica, ao longo de 2020 o cenário foi sendo controlado, e “mesmo em épocas de maior disseminação da Covid-19, as entidades brasileiras de transplantes conseguiram se organizar para que a doação e as cirurgias ocorressem da forma mais segura possível. Contamos com instituições e profissionais extremamente engajados para que todo o processo fosse o mais eficiente possível”, afirma o médico.

Existem, atualmente, diversos projetos de incentivo e apoio às doações, inclusive no sistema público de saúde – um exemplo é o Programa de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein, que faz parte dos mais de 100 projetos realizados pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) e é coordenado pelo Afonso Jr.. A iniciativa é responsável por capacitar médicos da rede pública de saúde para a realização de transplantes de órgãos e tecidos, bem como as equipes multiprofissionais na aplicação das melhores práticas de assistência, além de realizar o procedimento gratuitamente a pacientes atendidos pelo SUS em todo o país.

“A iniciativa visa o atendimento a pacientes mais complexos para a realização de transplantes de intestino, multivisceral e hipersensibilizados, à espera de transplante renal, assim como pacientes na fase pré ou pós-transplante que apresentam outras patologias, como o hepatopata, o cardiopata e o pneumopata”, segundo o pneumologista.

Só este ano, o projeto já garantiu o procedimento a 96 pacientes – em 2020, foram 150 pessoas atendidas. De janeiro a junho de 2021, foram 52 transplantes de fígado; 1 multivisceral; 19 de rim; 13 de coração; e 11 de pulmão. Em 2020, 84 de fígado; 41 de rim; 14 de coração; e 11 de pulmão.

Doações que salvam vidas

Ilustração: rightasrain.uwmedicine.org

A vida do mineiro Luiz Augusto Nogueira Borges, de 30 anos, mudou drasticamente ao ser diagnosticado com fibrose pulmonar, doença que faz com que os pulmões percam a capacidade de absorver e transferir oxigênio para a corrente sanguínea. O diagnóstico ocorreu em 2016, após o paciente perceber que se cansava rapidamente durante atividades que já faziam parte do seu dia a dia. “Meu mundo desabou com a notícia, porque tudo o que eu mais gostava de fazer, como jogar bola, nadar, correr ou andar de bicicleta, me parecia impossível a partir daquele momento”, relata o policial penal.

Borges conta que seu quadro clínico piorou consideravelmente em setembro de 2019, após ficar três meses sem o medicamento que estabilizava sua condição pulmonar, tornando necessário um transplante de pulmão. Ele, que já vinha sendo atendido em São Paulo, foi encaminhado ao Einstein, para o Programa de Transplantes do hospital por meio do Proadi-SUS, em parceria com o Ministério da Saúde.

O paciente entrou para a fila de transplantes em março de 2020, e passou pela cirurgia um ano depois. “Minha vida deslanchou depois daquele momento. É até difícil de acreditar, porque há seis meses eu estava preso a uma cama, respirando por oxigênio, sem perspectiva de nada. E hoje, até andar na rua parece algo extraordinário. Falo para todo mundo que o que eu vivi nesses seis meses pós-cirurgia não vivi nem antes do diagnóstico. Ainda não retomei minha rotina como antigamente, mas já corro um pouco e busco fazer de tudo, com os cuidados necessários por conta da pandemia”, afirma.

O rapaz, que viveu na pele a ansiedade da espera por um doador, deixa seu apelo à população: “o pulmão que recebi apareceu no momento certo, pois meu quadro já estava muito grave e sem possibilidade de reversão. Só eu, minha família e as pessoas que acompanharam a situação de perto entendem o valor desse momento para mim, e como isso salvou, literalmente, a minha vida. Por isso, eu digo: sejam doadores de órgãos! A vida de milhares de pessoas depende disso”.

Sobre o Proadi-SUS

O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, Proadi-SUS, foi criado em 2009 com o propósito de apoiar e aprimorar o SUS por meio de projetos de capacitação de recursos humanos, pesquisa, avaliação e incorporação de tecnologias, gestão e assistência especializada demandados pelo Ministério da Saúde. Hoje, o programa reúne seis hospitais sem fins lucrativos que são referência em qualidade médico-assistencial e gestão: Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, HCor, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Moinhos de Vento e Hospital Sírio-Libanês. Os recursos do Proadi-SUS advém da imunidade fiscal dos hospitais participantes. Os projetos levam à população a expertise dos hospitais em iniciativas que atendem necessidades do SUS. Entre os principais benefícios do Proadi-SUS, destacam-se a redução de filas de espera; qualificação de profissionais; pesquisas do interesse da saúde pública para necessidades atuais da população brasileira; gestão do cuidado apoiada por inteligência artificial e melhoria da gestão de hospitais públicos e filantrópicos em todo o Brasil.

Para mais informações sobre o Programa e projetos vigentes no atual triênio, clique aqui.

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