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Uma doença contemporânea, a Brasilíase*

Popularmente conhecida como deadlock ou a angústia do Dia da Marmota

Este artigo reproduz um diagnóstico de um médico. Munido de várias informações o médico emite o parecer sobre a doença do paciente. Meu paciente é um continente de 8,5 milhões de quilômetros quadrados; 210 milhões de habitantes; com larga miscigenação biológica e dissimulada segregação racial e social; com uma burocrasília alienada das necessidades nacionais. Paciente amigo e fraterno no convívio diário, indisciplinado e procrastinador das exigências republicanas e cidadãs.

O prontuário do paciente mostra muitas escolhas históricas e seus encadeamentos nefastos, muitas trocas e intercâmbios excludentes das elites, inúmeras sutilezas culturais e comportamentais pouco producentes. Com esse quadro, o paciente foi acometido de um profundo deadlock, e da comorbidade do Dia da Marmota, doença conhecida como Brasilíase.

A palavra deadlock, entendida em pedaços, chega a ser autoexplicativa: dead – morto, lock – trava, fechadura. Indica o momento em que um processo, para continuar a funcionar, precisa de outro processo para avançar, mas este, por sua vez, depende do anterior. Inércia histórica.

No Dia da Marmota, no filme Feitiço do Tempo, a repetição é eterna. Muitas marielles assassinadas, sergios moros virando suco, balas perdidas, número de assassinatos de país em guerra, anões do orçamento/mensalões/lavas jatos, sergios cabrais, prefeitos falando “não roubei tanto quanto o outro aí”.

Os sintomas são claros: as instituições se agridem e fazem debates vazios; os sofrimentos se repetem, a revolta é permanente; ódios, gritos e agressões no trânsito, na Internet, nas relações pessoais.

Angel Glen/Pixabay

Todos estão exaustos de viver no eterno Dia da Marmota. O paciente não aguenta mais. Essa angústia é clara. O paciente está aturdido, tonto, sem rumo. Só ouve quando alguém grita frases bombásticas sem sentido. A racionalidade do paciente está dopada.

Mas o paciente fará uma tomografia logo. Haverá eleição municipal. Após essa tomografia saberemos se o paciente quer um tratamento sério ou se quer placebo sem nenhum esforço. Saberemos se ele escolherá novas lideranças que tenham bagagem técnica, ética e política para gerir o tratamento.

O candidato que deixar claro que o tratamento será longo e exigirá muito esforço de todos será eleito? Ou os clássicos enroladores serão eleitos? O paciente escolherá competência e comprometimento e muito esforço próprio ou propostas mágicas e falsas? Ele realmente quer se curar da Brasilíase ou escolherá mais alguns anos de candidatos falastrões, prometedores de nada? Bons de papo e com zero de resultado.

Paciente que quer se curar tem que participar ativamente do tratamento, que exigirá muito esforço, tempo e sacrifícios para sair da letargia. Os remédios não serão doces e saborosos. Nosso deadlock histórico está preso à nossa procrastinação em assumir os próprios erros e fraquezas. Brasilíase tem cura? Precisamos esperar a tomografia.

*Luiz Jurandir Simões de Araújo é professor de Atuária na FEA/USP e na Unifesp; e Diretor Administrativo FapUnifesp (Fundação de Apoio à Unifesp)

O bajulador e a política, por Gerson Leite de Moraes*

Nero Cláudio César, imperador romano, foi um crápula. Ele nasceu de uma família complicada, assim que veio ao mundo, seu pai biológico sentenciou aos amigos que lhe felicitavam, dizendo, que “dele e sua esposa Agripina, não poderia nascer nada que não fosse detestável e funesto ao bem público”.

De fato, assim a vida de Nero se desenvolveu. Após a morte de seu pai chamado Domício, foi adotado pelo imperador Cláudio, quando tinha doze anos. Aos dezessete, participou do envenenamento daquele que o acolheu e tomou-lhe o trono, tornando-se o novo imperador. Casou-se três vezes, matou as três esposas, bem como matou seu meio-irmão e sua mãe.

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Wikipedia

Megalomaníaco, chamou ao mês de abril, “o mês de Nero” e projetou também substituir “Roma” por “Nerópolis”. Inicialmente adotou uma política populista, incentivava jogos, distribuía presentes e vales para aquisição de trigo, roupas, ouro, prata, pérolas e escravos, mas depois de quatorze anos de governo tudo começou a mudar.

Demonstrando descontentamento com a feiura dos antigos edifícios, com a estreiteza e tortuosidade das ruas, mandou incendiar Roma, que ardeu por seis dias e noites seguidos. Também teve de enfrentar uma peste que, num único outono, matou mais de trinta mil romanos, com tudo isso, sua popularidade se esvaiu. Após uma revolta no exército, ficou isolado, teve que fugir, mas antes procurou seus “amigos bajuladores”, mas ninguém o atendeu.

Ele, então, desejou a morte, e como seus inimigos ainda estivessem longe, lamentou dizendo que naquele momento não tinha “nem amigo e nem inimigo” para auxiliá-lo em seu projeto de pôr cabo à vida. Veio a falecer pouco tempo depois, com trinta e dois anos, e o povo de Roma, ostentando o gosto da liberdade, corria de um lado para o outro da cidade, festejando a morte do lunático tirano.

O fim de Nero é exemplar e lapidar, pois as trajetórias dos tiranos parecem seguir sempre um roteiro muito semelhante, inicialmente amados e, no final de seus governos, odiados.

Além do desequilíbrio mental, típico dos ditadores populistas, outra coisa chama a atenção e parece ser comum entre eles, a saber, o fato de que amam se cercarem de bajuladores. Eles têm um prazer enorme em serem incensados à categoria de estrategistas políticos, de líderes essenciais e brilhantes que precisam lutar em nome da pátria e do bem comum, contra os inimigos reais ou imaginários.

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Imagem: 3CRCommunityRadio

Não há adversários políticos ou ideológicos, mas sim, inimigos que precisam ser eliminados a qualquer custo. A claque de bajuladores infla seus egos, alimenta seus sonhos mais macabros e os estimula a serem cada vez mais descolados da realidade. Eles vivem numa bolha, num mundo paralelo, onde todos, líder e liderados, alimentados pela cultura da lisonja e do peleguismo, são programados para dizer “sim” a todas as sandices do líder da caterva.

Plutarco diz que “a varejeira agarra-se às orelhas dos touros, e o carrapato às dos cachorros. Assim, o bajulador, ao deleitar com elogios as orelhas daqueles que amam a glória, fica-lhes de tal maneira ligado, que eles não podem mais separar-se”. Os tiranos e os maus políticos, que são projetos de ditadores, no fundo, são seres fracos moralmente, por isso, precisam tanto da presença dos bajuladores.

Apesar de fracos, são perpetradores do mal e é por isso que em qualquer regime que se preze, e que se qualifique como democrático, é fundamental o sistema de freios e contrapesos, que tem por finalidade corrigir os impulsos devassos dos tiranos e da súcia de bajuladores que o cerca. É fato que o poder embriaga, mas causa danos maiores ao sujeito de personalidade fraca, por isso, caro leitor, todo aquele que almeja entrar na política precisa seguir o conselho do velho Plutarco, já citado anteriormente.

Ele diz: “É preciso arrancar do coração o amor-próprio e a boa opinião sobre nós próprios, pois estes são os nossos primeiros aduladores que, abrindo a porta aos bajuladores estranhos, tornam-nos presas fáceis de seduzir. Se observarmos nossas palavras e nossos afetos, estaremos protegidos das armadilhas dos bajuladores”.

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Caro leitor, quando você for avaliar um político, analise também quem o cerca, se forem bajuladores tenazes, evite o político em questão e seu bando, pois eles farão muito mal à nação.

*Gerson Leite de Moraes é doutor em Filosofia e professor do curso de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

N.R.: Não sou de publicar notas sobre política, mas acredito que o momento pelo qual o Brasil está passando pede a participação de todos. Afinal, somos nós que vivemos aqui e estamos sofrendo.

Do PT das lutas sociais ao PT do poder

O sociólogo José de Souza Martins explica, no novo livro lançado pela editora Contexto,como aconteceu a transformação radical do PT no exercício do poder

Há dias estou para postar esta nota, e acredito que hoje seja uma data importante para fazer isso, afinal, amanhã promete ser uma dia de mudanças no país. Espero. Para entender meu desejo, leia a nota:

O PT se apresentava como um partido que lutava nas ruas e nas portas de fábrica, nas igrejas e nas universidades pregando ética e justiça social. No que ele se transformou, após mais de uma década de exercício contínuo de poder? Em Do PT das lutas sociais ao PT do poder, lançamento da editora Contexto, José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros, enfrenta esta questão com coragem e objetividade.

O PT adotou uma pedagogia política maniqueísta que, ideologicamente, dividiu o Brasil em dois grandes países antagônicos e inconciliáveis. A crise que vem afastando do povo o Partido dos Trabalhadores, no entanto, pode ser explicada pela própria trajetória do PT, quando, aos poucos, o poder estruturalmente vicioso se apoderou do partido que pensava dele se apoderar.

Flagrado recebendo subornos, surgiu a figura da “corrupção altruísta” daqueles que entenderam que a propina para levar ao poder e nele manter um partido de esquerda não é condenável porque, em última instância, trata-se de “corrupção cívica” para favorecer os pobres, os que foram lesados ao longo dos séculos. Mas a suposta amoralidade do poder e do lucro não esperava defrontar-se com a moralidade da nova geração: manifestantes de rua e altos funcionários da Justiça.

Neste livro ousado e analítico, José de Souza Martins nos mostra como chegamos a este ponto.

Sobre o autor

José de Souza Martins é um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil. Intelectual público, é professor titular aposentado de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP. Sua obra vem sendo publicada pela Editora Contexto. (entre outros, O cativeiro da terra, Uma sociologia da vida cotidiana e Linchamentos).

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Serviço
Livro: Do PT das lutas sociais ao PT do poder
Autor: José de Souza Martins
Páginas: 256 páginas
Preço: R$ 39,90
Editora Contexto

Livro Dilmês: o idioma da mulher sapiens será lançado amanhã

Amanhã, um amigo e antigo chefe de redação, da época da Bloch Editores, Celso Arnaldo Araujo, lança seu mais recente livro: “Dilmês: O idioma da mulher sapiens” na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, a partir das 19 horas.

Celso Arnaldo é o jornalista mais talentoso e inteligente com quem tive o prazer de trabalhar. Ganhou dois prêmios Esso, quando eu acredito que o prêmio tinha mais significado… Sempre foi uma inspiração. Acredito que seu livro seja muito bom, especialmente para conseguirmos rir um pouco do momento tão ruim pelo qual o país passa. Recomendo!

Sobre o livro:

Ao esmiuçar os mais estapafúrdios conceitos e raciocínios já formulados por uma figura pública brasileira, esta sátira política honra a melhor tradição do gênero com uma viagem ao centro do saara cerebral de Dilma Rousseff. Já em meados de 2009, no exato instante em que a funcionária pública mineira de origem búlgara começou a se apresentar aos brasileiros como presidenciável, era possível notar que havia algo de errado naquele discurso no qual palavras eram despejadas a esmo, sem dar liga a uma única ideia à altura do cargo que postulava.

A partir dos discursos presidenciais transcritos na íntegra pelo Portal do Planalto, Celso Arnaldo Araujo, pioneiro na análise sintática e política da língua falada pela presidente da República, destrincha e documenta os verdadeiros espetáculos de comédia bufa protagonizados pela dramática inaptidão da oratória de Dilma.

convite

Dilmês: O idioma da mulher sapiens
Autor: Celso Arnaldo Araujo
Páginas: 210
Editora: Record
Preço: R$ 35,00