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Pensamentos suicidas: como evitá-los?

No Setembro Amarelo, psicólogo explica como funciona a mente de uma pessoa que pensa em tirar a própria vida e faz alerta

Setembro é o mês destinado à prevenção ao suícidio, com disseminação de mensagens e informações públicas com objetivo de conscientizar as pessoas sobre como agir e lidar com o assunto. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 12.895 pessoas cometeram suícidio no Brasil em 2020, evidenciando uma tendência de alta durante a última década, visto que o número de casos em 2012 era de 6.905.

A prevenção ao suicídio requer o esforço da sociedade, alinhando estratégias que englobem o trabalho em nível individual e coletivo. Felipe Laccelva, psicólogo e CEO da plataforma de atendimentos Fepo, explica que o suícidio é apenas o último ato de uma pessoa que já passou por diversas situações.

“O suicídio é o desfecho de eventos anteriores e nunca um fato isolado da vida individual. Envolve questões psicológicas, biológicas, culturais e ambientais. Uma pessoa que pensa em suicídio está pedindo ajuda, e já chegou em um ponto que o sofrimento se tornou impossível de suportar, sendo a única saída que consegue encontrar”, declara Laccelva.

Iniciativas, mesmo que simples, podem ser fundamentais para ajudar a prevenir um ato de suicídio, como o ambiente familiar agradável e passar um tempo de qualidade com os amigos, promovendo momentos de aproximação e meios de se reunir e conversar.

Uma pessoa que está pensando em suícidio pode se sentir sozinha. Assim, um ambiente acolhedor é fundamental para ajudar na recuperação e dar suporte, além de, todos ao redor, permanecerem abertos para escutar, sem realizar julgamentos, para trazer a segurança necessária para compartilhar as angústias e sentimentos.

O papel da saúde mental na prevenção ao suícidio

Gerd Altmann/Pixabay

Assim como a física, a saúde mental é parte integrante e complementar da manutenção das funções do corpo. Por isso, a promoção da saúde mental é essencial para que o indivíduo tenha a capacidade necessária de executar bem as habilidades pessoais e profissionais no dia a dia.

Pesquisas da Assossiação Brasileira de Psiquiatria mostram que, em torno de 96% dos casos de suicídio, possuem relações com transtornos mentais. Quem deseja tirar a própria vida, possivelmente está passando por um quadro de doença mental, e isso influencia a forma como percebe o mundo e como avalia os próprios pensamentos, as relações e, até mesmo, o livre arbítrio.

Quando um indivíduo não está bem, e não tem nenhum tipo de suporte, é provável que as escolhas que faça para própria vida não sejam as mais adequadas. Essas sucessíveis escolhas ruins podem levar para um caminho que, aos poucos, prejudique a saúde mental.

Laccelva lista cinco dicas que podem colaborar, no curto prazo, para manter a saúde mental saudável:

-Converse sobre os seus sentimentos;
-Aproveite a companhia dos amigos e familiares;
-Cuide do seu corpo;
-Tenha momentos de lazer;
-Tenha uma boa noite de sono.

Quais os sinais transmitidos por uma pessoa de que a saúde mental não está bem?

Ilustração: Serena Wong/Pixabay

“A maioria das pessoas que tenta o suicídio fala a respeito disso, comentam sua percepção sobre a morte. Isso acontece dias ou semanas antes da tentativa, porque é algo que é construído dentro da pessoa”, comenta o psicólogo Laccelva.

Mudanças bruscas de apetite e comportamento, isolamento de pessoas que antes era próxima, problemas com o sono, são todos pequenos sinais emitidos pelo corpo de que o estado mental por não estar nas melhores condições.

Uma consulta com psicólogo é pouco para determinar toda a situação clínica de um paciente. No entanto, os sinais são fornecidos o tempo todo, e quem está em volta poderá perceber. O cuidado e atenção são fundamentais, pois a prevenção ao suícidio se faz individualmente e coletivamente.

“Ainda que uma pessoa possa ter parado de expressar as ideias de tirar a própria vida em algum momento, não quer dizer que ela esteja bem. O acompanhamento deve permanecer, já que existe a possibilidade de estar atravessando apenas um momento mais calmo, porém as questões permanecem dentro dela”, finaliza.

Sobre a Fepo

Fundada em 2018 pelo psicólogo Felipe Laccelva, a Fepo é uma startup digital especializada em atendimentos psicológicos, com terapias a partir de R$38,00 e mais de 60 profissionais disponíveis. Desde o início da pandemia, já realizou mais de 27 mil sessões, resultando em um crescimento de 1870%.

Mulheres negras e periféricas recebem apoio psicológico com projeto idealizado pelo Instituto Cactus e Casa de Marias

A iniciativa, que inicia os atendimentos em agosto, visa oferecer assistência de saúde mental a grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade

Buscando oferecer acolhimento psicológico emergencial para mulheres negras, indígenas e/ou periféricas em situação de vulnerabilidade, chamar a atenção para a demanda urgente de se olhar a saúde mental de mulheres e possibilitar novas práticas de cuidado em saúde mental o Instituto Cactus em parceria com Casa de Marias desenvolveu um projeto social de acolhimento e assistência durante a pandemia. Realizado de forma remota no país inteiro, o projeto promove um espaço de escuta e acolhimento, com uma equipe qualificada de psicoterapeutas para receber mulheres que precisam de cuidados psicológicos.

A iniciativa dedica atenção especial às questões que envolvem classe, gênero, raça e território. Para isso, oferece atendimentos psicológicos individuais e em grupo.

“Nosso espaço nasceu para ser mesmo uma casa, para criar raízes, para ser oásis em tempos difíceis. A Casa de Marias é, acima de tudo, um espaço de resistência. E, por isso, a nossa missão é cuidar, escutar e acolher. Promover processos terapêuticos e curativos não só dentro dos nossos consultórios, mas fora deles também”, reforça Ana Carolina Barros Silva, Coordenadora Geral da Casa de Marias.

Falar sobre saúde mental, promover ações e prevenção é uma necessidade pública, que deve envolver o engajamento de diversos setores, em especial do governo, academia e da própria sociedade civil. Nesse sentido, o objetivo do Instituto Cactus e da Casa de Marias com esse projeto é chamar a atenção para a necessidade de se pensar em projetos de saúde mental segmentadas, realizar o acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade e, ainda, gerar insumos para validar o quanto este tipo de escuta emergencial, principalmente a feita em grupos de apoio em um formato inovador, como uma modalidade que pode ser institucionalizada e replicada em contextos de urgência.

Mas por que focar em mulheres?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a determinação do gênero na diferença que mulheres e homens têm sobre o poder e o controle dos determinantes socioeconômicos em suas vidas, posição social e forma de tratamento na sociedade. Além disso, enfatiza que o gênero determina diferentes suscetibilidades e exposições a riscos específicos para a saúde mental.

Para além de fatores sociais, de empregabilidade, de recursos e disponibilidade financeira, agendas dos filhos, da casa e falta de perspectivas, as mulheres podem vivenciar diversos transtornos mentais associados ao esgotamento emocional. A crise provocada pela pandemia de Covid-19 agravou muito esse cenário. Com a perda da renda e o aumento da desigualdade, os efeitos da crise socioeconômica na saúde mental são ainda piores para as pessoas em situação de vulnerabilidade.

Com o isolamento social, a disparidade de gênero, a violência doméstica e a sobrecarga das mulheres aumentaram ao mesmo tempo em que as redes de suporte diminuíram, uma vez que muitas vítimas ficaram confinadas com seus agressores sem possibilidade de ajuda externa. Todos esses fatores favorecem a prevalência de doenças mentais nas mulheres, por isso precisamos cuidar desse público com ainda mais urgência.

“Enquanto houver preconceitos e vieses subjetivos não combatidos e desmistificados, o atendimento à saúde mental feminina, especialmente de mulheres negras e periféricas, sempre será insuficiente e enviesado. Por isso, é necessário termos políticas mais focadas nos problemas de saúde mental da mulher, tanto individual quanto estruturalmente, assim como o fortalecimento de outras instituições e projetos de acolhimento que possam reforçar o olhar intersetorial da saúde mental”, afirma Maria Fernanda Resende Quartiero, Diretora Presidente do Instituto Cactus.

Sobre o Instituto Cactus e a Casa de Marias

O Instituto Cactus é uma organização sem fins lucrativos que trabalha para a prevenção e a promoção da saúde mental no Brasil, através da geração de conhecimento e evidências, identificação e multiplicação de boas práticas, incidência em políticas públicas, articulação de ecossistemas e conscientização da sociedade sobre o tema.

A Casa de Marias é um espaço de acolhimento e apoio psicológico para mulheres em sofrimento mental ou que necessitam de cuidados específicos, composta por um corpo clínico de mulheres, em sua maioria, negras e periféricas.

Sobre o projeto

Gerd Altamann/Pixabay

Coordenado por quatro psicólogas, o grupo de acolhimento emergencial será liderado pela psicóloga Camila Generoso. Psicóloga e psicopedagoga, possui especialização em Desenvolvimento Infantil e aprimoramento em Psicanálise da Criança pela PUC-SP; e pela psicóloga Deisy Pessoa, graduada em Psicologia com ênfase Clínica e Saúde Pública, com atuação na Atenção Psicossocial, trabalhando com a comunidade local do Capão Redondo em ações de inclusão de diversidades nas atividades artísticas terapêuticas oferecidas pelo Cecco.

O plantão psicológico é liderado pela psicóloga Eneida de Paula, psicóloga formada pela FMU, com especialização em Psicologia e Relações Raciais – Instituto AMMA Psique e Negritude e em Técnica de Estresse Pós-Traumático segundo Modelo Francine Shapiro – EMDR; e pela psicóloga Lucila Xavier, psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência de cinco anos como Acompanhante Terapêutica de crianças e adolescentes com TEA e estágios nas áreas de psicologia jurídica e clínica. Atualmente em formação no curso teórico vivencial de Psicologia e Relações Raciais do Instituto AMMA.

Como fica a saúde mental após mais de um ano de isolamento social?

A estimativa de instituições brasileiras é de que até metade da população exposta a uma epidemia pode vir a sofrer de alguma doença psicopatológica

Quem ao longo desses 15 meses de pandemia não procurou em sites de busca algo sobre os sintomas do novo coronavírus diante de qualquer reação que julgasse estranha do próprio corpo? Quem não ouviu falar de alguém que sentiu uma sensação de angústia, um aperto no peito? Ou que trabalhou horas em home office e nem viu o dia passar? Após mais de um ano da pandemia da Covid-19, com variantes do vírus ainda se espalhando e provocando aumento no número de casos e mortes, questões como a saúde mental acendem a luz vermelha para especialistas da área da saúde.

Por isso, sociedades médicas, sociedades da psicologia, e organizações da Saúde, como OMS (Organização Mundial da Saúde) e FioCruz, no Brasil, têm divulgado constantemente informações e diretrizes de conduta na atenção psicossocial e saúde mental.

Já temos alguns estudos que trazem a preocupação do cuidado em saúde mental e, baseados na literatura produzida a partir de epidemias anteriores, podemos considerar a gravidade em termos de sofrimento psíquico e elevação dos transtornos mentais. É certo que daqui alguns anos vamos ter uma literatura robusta apontando um provável crescimento desses casos e consequente comprometimento nas esferas familiares, sociais e laborais. Não é à toa que a saúde mental é a quarta maior preocupação e prioridade da OMS durante a pandemia”, diz Natalia Pavani, psicóloga do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Uma pesquisa Datasus, divulgada em novembro de 2020, apontou que a ansiedade foi o transtorno presente em 86,5% dos 17.491 indivíduos adultos ouvidos pelo Ministério da Saúde, seguido de estresse pós-traumático (45,5%) e depressão grave (16%), no primeiro ano de pandemia.

A especialista do Hospital alerta que para atender de forma adequada esses pacientes é necessário que haja investimentos na capacitação da assistência e na definição de diretrizes de intervenções na atenção primária que estejam voltadas para a prevenção de doenças psicossociais. Com esse foco, a FioCruz preparou uma cartilha com recomendações para profissionais da saúde e agentes comunitários, e também para a população em geral, para que possam reconhecer os sinais de que algo não vai bem com a mente. O material indica, ainda, que por conta do estado de alerta, preocupação, confusão de informações, estresse e falta de controle, estima-se que entre um terço e metade da população exposta a uma epidemia pode sofrer alguma manifestação psicopatológica.

De acordo com a psicóloga, nem sempre essas manifestações serão classificadas como doenças mentais. Muitos problemas psicológicos podem ser considerados normais e momentâneos diante do atual cenário. “O impacto vai depender da vulnerabilidade da pessoa no momento. Cada problema psíquico se manifesta de uma forma em cada indivíduo”, explica Pavani. “A maior ferramenta para essas questões é o autoconhecimento, reconhecer o que faz bem e o que não faz”, complementa.

O sono que já não é como antes, a capacidade de concentração nos estudos e/ou no trabalho também não é a mesma, o cansaço parece que ‘bate’ com mais facilidade, o sentimento de incerteza, inquietação diante de situações rotineiras, sensação que a cabeça não opera no mesmo ritmo do corpo, são sinais de que algo não vai bem. “É importante ficar atento e analisar bem a intensidade e a duração desses episódios, e se tem gerado alguma dificuldade para a vida rotineira, seja nos relacionamentos interpessoais, nas atividades e no trabalho”, explica a psicóloga do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Como amenizar?

Se a pessoa está passando por um momento de sofrimento prolongado, o primeiro passo é procurar um clínico geral, que realizará exames e poderá encaminhá-la para consulta com psicólogo e/ou psiquiatra. Para evitar risco de contaminação pela Covid-19, diversas instituições de saúde estão realizando consultas on-line.

Uma dica importante da especialista é procurar o que faz bem. “A OMS define que ter saúde não corresponde somente ao corpo físico, mas também ao bem-estar psíquico, social e espiritual. E muitas vezes nos esquecemos disso, acreditando que saúde é somente ausência de doença. “.

Se conectar com a natureza, ter mais plantas em casa para cuidar, adquirir novos hobbies, consumir mais arte e cultura mesmo que virtualmente. Além disso, organizar a rotina, separar os espaços de trabalho dos de descanso, limitar o uso de redes sociais e estabelecer limites para si mesmo, tirar 30 minutos a uma hora por dia para alguma ação de autocuidado, e praticar exercícios, são atividades que podem ajudar a aliviar a solidão, a angústia, a tristeza, a apatia ou a inquietação. Fazer um plano de atividades do dia, mas um plano consciente, que não vá potencializar mais o estado aflitivo caso não consiga cumpri-lo.

“Não é preciso mudar tudo de uma só vez. Estabeleça algumas prioridades e procure reconhecer as pequenas conquistas do cotidiano. E caso e esteja em sofrimento psíquico, procure por ajuda profissional, afinal, os tratamentos de saúde mental existem para isso”, pontua a psicóloga, que ainda lembra que o desafio é coletivo, portanto ao aderir ao isolamento social e ficar em casa, a pessoa está se protegendo e ajudando toda a população.

“Se o desafio é coletivo, o único caminho para superarmos essa crise é por meio da união e do exercícios com responsabilidade das recomendações das autoridades em saúde pública”, declara.

Fonte: Hospital Alemão Oswaldo Cruz

“Coronofobia”: a nova vilã da saúde mental

Psiquiatra alerta para medo excessivo relacionado à Covid-19

O coronavírus continua trazendo muitos problemas nesses 17 meses de pandemia – o número de mortes por conta do vírus, juntamente com o medo da população mundial, continua crescendo. Essa aflição, quando excessiva, ganha um novo nome: coronofobia.

Sintomas de ansiedade e medo de contrair o vírus da Covid-19 têm feito com que pessoas se sintam inseguras em todo e qualquer lugar. Um estudo feito pela National Library of Medicine analisou 500 casos de ansiedade e depressão e certificou que todos estavam ligados à crise da Covid-19. O termo “coronofobia” foi criado no final de 2020 e traduz uma ansiedade grave diante do vírus e da pandemia, tanto em contraí-lo, quanto em disseminá-lo.

Freepik

Segundo a psiquiatra e professora de Saúde Mental no curso de Medicina da Universidade Positivo, Raquel Heep, quem tem essa fobia não percebe e acredita que o seu comportamento está correto e os outros é que estão errados, causando um sofrimento muito grande para a pessoa.

“É importante ressaltar que esse tipo de ansiedade não é saudável, fugindo dos padrões de incertezas que todos nós temos. É normal ter um certo grau de ansiedade, mas essa preocupação excessiva traz prejuízos físicos e funcionais. É claro que lavar as mãos, usar álcool em gel, máscara e manter o distanciamento social são atitudes necessárias, mas quem sofre com a coronofobia possui comportamentos como lavar as mãos a ponto de machucá-las e usar máscara dentro de casa, ou até mesmo para dormir. São pessoas que não saem de casa mesmo quando necessário”, aponta.

Pessoas com coronofobia também dão muita importância a sintomas que não são preocupantes e acabam até mesmo se automedicando, podendo gerar crises de pânico e problemas físicos. A professora recomenda que, quem identificar sinais de medo excessivo deve agendar uma avaliação com um profissional especializado em saúde mental, principalmente psicólogo ou psiquiatra, que vai avaliar a necessidade, ou não, de medicação para o controle da ansiedade.

“Esse segundo ciclo da pandemia trouxe mais inseguranças a todos nós, mas temos que nos manter esperançosos e não deixar que toda essa situação nos traga ainda mais prejuízos”, salienta.

Fonte: Universidade Positivo

Saiba mais sobre o processo de luto e entenda como lidar com ele

O luto é um conjunto de reações humanas relacionadas a uma morte simbólica ou real que causa impacto significativo na vida de alguém. Cada um se enluta à sua maneira e todos que enfrentam a dor do luto vivem cada um desses processos de maneira singular.

Saiba mais neste artigo escrito pela psicóloga e psicopedagoga, Karina Okajima Fukumitsu.

Luto Coletivo

O luto coletivo é outro conceito importante e que vem sendo observado nos momentos atuais, em razão do aumento no número de vítimas da Covid-19, só no Brasil, ultrapassamos o número de 300 mil mortes, até o momento. Não é por acaso que observamos um aumento expressivo do sofrimento existencial. Neste artigo, falaremos sobre o processo de luto, as principais dificuldades e maneiras para preservar sua saúde existencial. Acompanhe e entenda.

Em meu livro “Suicídio e luto: histórias de filhos sobreviventes” (Lobo Editora, 2020) discorro sobre um novo paradigma tanto para a compreensão quanto para a intervenção do processo de luto, o modelo de processo dual do luto ou Dual Process Model of Grief, DPM (Stroebe; Schut, 1999, tradução nossa), proposto por Margaret Stroebe, por seu marido Wolfgang Stroebe e pelo assistente Henk Schut, apresentado em 1994, em uma conferência na Grã-Bretanha, e com a primeira publicação em 1999, por meio do artigo “The Dual Process Model of Coping with Bereavement: Rationale and Description”.

O modelo, que coloca em questão as fases do processo de luto descritas em estudos anteriores, traz reflexões acerca do redimensionamento dos papéis e tarefas sociais e considera o luto um processo que envolve a constante oscilação entre dois estressores ambivalentes – a “orientação para perda” e a “orientação para a restauração”. Dessa maneira, oferece possibilidades para a compreensão do luto como um processo dinâmico e regulador de enfrentamento e conciliação com novos papéis (Parkes, 1998; Cândido, 2011).

Além de lidar com a morte da pessoa, o enlutado se vê diante do impacto da ausência e, por isso, situações que se referem à elaboração da perda de per si e o imenso desejo de restaurar a vinculação com o morto serão vivenciados na “orientação para a perda”. Posteriormente, a busca da restauração da vida começa a emergir. Nesse sentido, o redimensionamento e a descoberta de papéis, a busca de reorganização prevalecem. É importante salientar que a oscilação entre “voltar-se para a perda” e “voltar-se para a restauração” permite que o enlutado encontre significados e que possa, dialeticamente, compreender seu processo de luto (Fukumitsu, 2020, p. 51).

Na pandemia, temos notado um número crescente de pessoas afetadas. Nesse caso, não só quem teve de passar pela experiência da morte de seus familiares e amigos, mas também pessoas que apresentam dificuldade para lidar com esse momento tão difícil. Estamos em crise e, como supramencionado, reagimos de maneiras diferentes. Maya Angelou tem uma frase que acredito ser pungente para este momento de nossas vidas: “Você não pode controlar todos os eventos que acontecem com você, mas você pode decidir a não ser reduzido por estes eventos” (You may not control all the events that happen to you, but you can decide not to be reduced by them).

Não podemos nos autorizar a sucumbir nesta crise pandêmica e o processo de luto é a possibilidade de respondermos a toda situação que vai na contramão de nossas expectativas e desejos.

Elizabeth Kübler-Ross, uma das autoras que faz parte do acervo de minhas diretrizes nos estudos sobre luto, foi uma profissional que se dedicava ao acompanhamento de pacientes na proximidade da morte. Kübler- Ross (1997) propõe fases do lidar com o luto: choque, negação, revolta e raiva, luto e dor, barganha com Deus, tristeza, aceitação (p.161). Mas, como percebo o luto como processo de crise existencial, explicarei a compreensão sobre este processo.

No luto não usamos maquiagem

“No luto não usamos maquiagem” -, é a frase recorrente que menciono em meus cursos. Digo isso, pois acredito que o luto é o momento mais puro que a pessoa pode se apresentar. A dor do luto não nos permite mascarar o que sentimos. Cada um enfrentará sua travessia de sofrimento. Para tanto, é preciso considerar alguns sentimentos que fazem com que a gente sinta que está no primeiro carinho de uma montanha russa.

Em virtude de a morte de alguém que amamos trazer impactos que não temos dimensão de suas consequências, não é raro ouvir que ao receberem a notícia de morte, alguns relatam o momento do choque. Nesta fase, o enlutado vive um período de estado de ameaça constante no qual existe uma confusão acerca da realidade e descrença de que aquilo está realmente acontecendo. Podemos dizer que, nesse momento, ocorre uma sensação semelhante a uma anestesia, uma proteção do próprio organismo para ajudar o enlutado a dar os primeiros passos nessa nova realidade. Nesse sentido, também não devemos julgar quem nega, pois “o sentido pertence ao ‘sentidor’, aquele que sente a dor” (Fukumitsu, 2014, p. 59).

Lidar com situações que nos fazem sentir impotentes provoca raiva. Nessa direção, é comum que pessoas em processo de luto se dê conta de sua indignação em relação ao que foi impactado. O organismo produz uma substância chamada novocaína, que é responsável por eliminar aquele amortecimento temporário inicial. Desaparecendo a sensação de anestesia, a pessoa começa a ter de lidar com a sensação de agonia física e mental. Dessa forma, a fadiga e dificuldade de executar tarefas simples são expressivas neste momento. Sendo assim, a pessoa em luto tenta resguardar as poucas energias que lhe parecem restar. Quando a pessoa não consegue mais executar as tarefas comuns do seu dia a dia, se sente prostrada e sem motivação para continuar, é um sinal de alerta para buscar ajuda profissional.

Quais são as principais dificuldades no processo de luto?

Certo dia, ouvi Teresa Vera Gouvêa dizendo que atualmente não se fala mais sobre “aceitação do luto”, mas sim, em “adaptação à situação adversa”.

No caso específico da pandemia que estamos vivendo, a sensação de incerteza e incapacidade toma conta de muitas pessoas. Uma mudança brusca na realidade conhecida pode ser relacionada com o luto, pois houve a perda do mundo presumido. Isso quer dizer que o luto se aplica não só ao falecimento de um ente querido, mas também acontece em situações de mortes simbólicas, tais como, a mudança de estilo de vida como a que estamos vivenciando com a pandemia.

Aceitar o que aconteceu não significa concordar com o evento. A pessoa enlutada busca forças para lhe dar impulso para a nova configuração da vida que se instala. A mudança nas atitudes é lenta e gradual, e a reapropriação de atitudes e a restauração de nossa existência vêm aos poucos.

A passagem da transformação da dor em amor ou processo de extrair flor de pedra se inicia.

Extrair flor de pedra é, portanto, a possibilidade de a pessoa exercitar sua capacidade de transcendência. Ou seja, quando a pessoa extrai o conhecimento que não aprendeu com ninguém e apresenta uma ação criativa para oferecer algo generoso e amoroso para a humanidade, por exemplo, quando uma pessoa oferece cuidados que nunca recebeu aos outros, encontrando assim, um sentido para sua vida (Fukumitsu, 2019, p. 189).

Nesse sentido, extrair flor de pedra significa perdoar a si mesmo por ter de lidar com a situação e aceitar que a perda de fato aconteceu representa esforço hercúleo e que nos auxilia a resgatar os bons momentos que a morte não é capaz de furtar.

O luto envolve um longo caminho a ser trilhado e a passagem por vários momentos áridos. Não existe um prazo para superar o luto, tampouco uma fórmula para se viver a experiência do luto, porque isso varia significativamente de uma pessoa para outra. A dor une e muitas vezes, buscar um profissional da área de saúde mental pode ajudar.

Parkes (1998, p.22-3) ensina que a dor do luto é tanto parte da vida quanto a alegria de viver; é, talvez, o preço que pagamos pelo amor, o preço do compromisso. Ignorar este fato ou fingir que não é bem assim é cegar-se emocionalmente, de maneira a ficar despreparado para as perdas que irão inevitavelmente ocorrer em nossa vida, e também para ajudar os outros a enfrentar suas próprias perdas.

O processo de luto faz com que a pessoa perceba que existem enfrentamentos diversos e que novas possibilidades devem ser estabelecidas para que a vida continue. Nunca somos os mesmos após uma perda, seja ela real ou simbólica. A vida é arte que leva tempo para continuar a viver, construindo novos laços e guardando na memória os bons momentos e a experiência que a pessoa falecida proporcionou. Repito. Nenhuma morte deve furtar as histórias e as experiências que tivemos com quem partiu.

Se você está passando por um processo de luto ou conhece alguém nessa situação, busque orientação profissional.

Karina Okajima Fukumitsu é psicóloga, psicopedagoga e Pós-doutorado e doutorado em Psicologia pelo Instituto de Psicologia (USP). Mestre em Psicologia Clínica pela Michigan School of Professional Psychology. Coordenadora da Pós-graduação em “Suicidologia: Prevenção e Posvenção, Processos Autodestrutivos e Luto” da Universidade Municipal São Caetano do Sul. Coordenadora, em parceria, da Pós-graduação “Morte e psicologia: promoção da saúde e clínica ampliada”; coordenadora, em parceria, da Pós-graduação “Abordagem Clínica e Institucional em Gestalt-terapia” da Universidade Cruzeiro do Sul. Membro-efetivo do Departamento de Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae e co-editora da Revista de Gestalt do Departamento de Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae. Podcaster “Se tem vida, tem jeito”. Consultora ad hoc do hospital Santa Mônica.

Os estigmas da mulher separada – por Daniel Lacerda*

Estamos na segunda década do Século XXI, mas percebo que ainda existem muitos tabus em relação ao divórcio, principalmente associados à uma visão de derrota, de uma relação que não deu certo. São preconceitos que persistem, especialmente no caso das mulheres; lembrando que a lei do divórcio foi promulgada em 1977.

É óbvio que quando as pessoas se casam, o intuito é manter a relação até o fim da vida. Mas entre o casamento e o fim de uma vida há muitas situações que podem mudar o rumo da história. E isso não pode ser entendido como um erro. Talvez, algumas relações se acertem exatamente quando o casal se separa; do contrário, a caminhada poderia ser, de fato, muito ruim, muito triste para ambos. É importante entender isso para não ficarmos na busca de explicar o inexplicável.

No passado – e ainda uma realidade em muitos núcleos sociais -, havia a ideia de que mulher saía de casa para o altar já com a sentença de “produto sem devolução”. As preocupações por trás dessa sentença talvez estejam relacionadas ao aspecto financeiro. O marido assumia o papel de provedor da casa. Significava dizer que a mulher, caso o casamento terminasse, é que deveria assumir as responsabilidades pelo seu próprio sustento.

Outro estigma social que ainda persiste é a ideia de que a mulher solteira, a mãe solteira, separada ou divorciada, é alguém que “não segurou o casamento”. Historicamente, a mulher separada não era bem vista, era sinônimo de leviana e, até mesmo, representava um risco para outros casamentos. Não era bem-vinda socialmente. E todos esses estigmas e preconceitos tomavam – e tomam ainda, em muitos casos – uma proporção maior quando a mulher tem filho.

É óbvio que atualmente todos esses preconceitos são bem menores ou praticamente desapareceram, dependendo do meio social que essa mulher frequenta; mas o fato é que, no geral, ainda existem e também estão por trás do sofrimento de quem se separa e não quer passar a ser vista dessa forma, como alguém que não deu certo.

Existe ainda a dificuldade da mãe solteira de seguir sua vida, mantendo suas amizades e o direito a cultivar seus hobbies e diversão. É fato que quando muitas pessoas encontram ainda hoje uma mãe se divertindo ou viajando sem o filho, a pergunta logo é: onde seu filho está? Isso porque o papel do cuidado com a criança está intrinsecamente ligado à mãe, o que certamente não acontece com o pai. A percepção ainda é de que esse papel é totalmente atribuído à mãe.

Apesar desses preconceitos estarem diminuindo com o tempo, com as conquistas femininas de autonomia e liderança no trabalho e em sociedade, esses estigmas ainda são evidentes. E são também um peso a mais em um momento tão crítico e conflitante que é o do rompimento da relação conjugal.

É importante que a mulher se liberte das amarras sociais e entenda que ser separada não significa que algo tenha dado errado em sua vida. A mulher separada, a mãe solteira, todas têm o direito de usufruir de momentos de lazer, independente de terem filho ou não; e devem seguir suas vidas sem o peso desses preconceitos. São conquistas que, certamente, farão o processo da separação e do divórcio ser encarado de forma bem mais salutar.

*Daniel Lacerda é Psicólogo Clínico, colaborador do site Idivorciei, especialista em Saúde Mental.

Positividade tóxica: efeitos colaterais da felicidade exposta nas redes sociais

Especialistas explicam que, além do bloqueio das emoções negativas, é comum que a ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos mentais e comportamentais sejam desenvolvidos

Em meio a um bilhão de usuários ativos por mês, é difícil encontrar uma pessoa que não tenha perfil no Instagram. A plataforma possui 500 milhões de acessos diários e se tornou, além de uma rede social, uma rede comercial. Com a popularização dos influencers, basicamente tudo passa a ser monetizado, inclusive a felicidade. Através da tela do celular, a vida do outro aparenta ser perfeita: o corpo dos sonhos, bens materiais, viagens e felicidade em tempo integral. Mas não é bem assim.

Há materiais que circulam em blogs e portais que alegam que não é possível ser feliz sempre. Isso pode ser verdade ou não, depende do que está sendo chamado de felicidade. No âmbito da Psicologia Positiva, é usual se adotar o conceito construído pela professora Sonja Lyubormisrky: “Felicidade é a experiência de contentamento e bem-estar combinada à sensação de que a própria vida possui sentido e vale a pena”.

Em outras palavras, felicidade é um estado no qual se vivencia um pouco mais de emoções positivas que negativas em uma vida que, apesar das circunstâncias, vale a pena ser vivida. E sim, pode ser uma experiência de longa duração.

A problemática surge com a busca incessante por essa felicidade, que gera efeitos colaterais em quem consome diariamente essa “vida “perfeita” do outro. Nesse cenário, se populariza o conceito de positividade tóxica. A expressão tem sido usada para abordar uma espécie de pressão pela adoção de um discurso positivo aliada a uma vida editada para as redes sociais.

Carla Furtado

“É aqui que mora um elemento pouco mencionado acerca da felicidade legítima: ela é uma experiência intrínseca, dispensa o reconhecimento de terceiros. Sorrisos pasteurizados em fotos sob filtros, vozes cuidadosamente moduladas e falas que se assemelham a pregações são apenas artifícios, esses sim, tóxicos, daquilo que surgiu bem antes da internet: a vida de fachada e a venda de receitas mágicas”, alerta Carla Furtado, mestre em psicologia e fundadora do Instituto Feliciência.

Bloqueio de emoções negativas

Como consequência dessa busca pela felicidade, as emoções negativas são bloqueadas. Nessa realidade mascarada pelas redes sociais, não é permitido se sentir triste ou ter dias ruins. “É importante observar que a psicologia positiva não orienta que se bloqueie ou evite emoções negativas. Do ponto de vista humano isso sequer é possível e não seria recomendável”, aponta Carla.

“Emoções são comportamentos autônomos em resposta a estímulos. Tome-se o medo, por exemplo: diante de um risco real essa emoção é primordial para a preservação da vida e, embora seja de valência negativa seu desfecho pode ser bastante positivo. É sempre importante ressaltar que felicidade não é uma emoção, mas costuma ser confundida com a alegria”, complementa a especialista.

Renata Nayara Figueiredo

É justamente assim que surgem problemas como ansiedade, depressão, transtorno de imagem, anorexia, bulimia, entre outros. “No Instagram as pessoas conseguem praticar atividade física, ser a mãe perfeita, o pai perfeito, trabalhar, ser bem-sucedido, ter hora para tudo, então as pessoas acham que são obrigadas a fazer isso o tempo inteiro e acabam frustradas porque não conseguem ou se sentem cansadas”, explica a médica psiquiatra Renata Nayara Figueiredo, presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília, a APBr.

Ela explica que com a sensação de não ter todo esse tempo a pessoa fica frustrada, acha que a produtividade está baixa, que alguma coisa está errada. “É aquilo do eu não consigo ser a mãe perfeita, não consigo ser uma profissional maravilhosa, enquanto o outro consegue tudo isso. Então começa o sentimento de ansiedade, de menos valia, de baixa autoestima, e isso pode gerar depressão, e outros transtornos psiquiátricos”, acrescenta.

Para a especialista é importante que o usuário entenda que o conteúdo das redes sociais é um recorte e não expressa a realidade, ou como é a vida da pessoa por completo. “Um exemplo é a foto de comida, as pessoas não postam a refeição do dia a dia. E é preciso compreender que aquilo ali é um cenário, é um palco, as pessoas fazem aquela foto, aquilo ali não é uma foto espontânea. Ela está naquela rede social para chamar a atenção”, pontua.

Outro lado

Segundo a psiquiatra, os influenciadores também sofrem. “Eles buscam mais seguidores, mais curtidas, e os que seguem querem ter uma vida daquelas, sendo que às vezes a pessoa só vive disso, de postar coisas, enquanto as outras vão postar coisas, vão seguir, vão trabalhar e vão fazer outras coisas também”, afirma. “Então isso tudo é um cenário. Cada um vai postando o que acha mais interessante e as pessoas têm que entender que aquilo ali não é a vida real”, complementa.

Outro ponto abordado por ela são pessoas que já têm algum distúrbio ou tendência a transtornos psiquiátricos. “Uma pessoa com esse tipo de problema, principalmente em relação ao corpo, vê essas fotos e se sente mal. Elas vomitam, param de comer ou deixam de sair de casa para não furar a dieta”, explica. “Então esse tipo de ‘influência’ pode ser um gatilho para pacientes com transtornos alimentares, pela questão de estar sempre postando o corpo perfeito, a dieta perfeita, a refeição dos sonhos, e entre outros pontos”, conclui.

Mitomania: necessidade de mentir compulsivamente, por Andréa Ladislau*

A mania de mentir pode ser muito mais grave do que parece: é o que chamamos de mitomania. É comum ter um amigo, parente ou conhecido que sempre inventa uma mentira, uma viagem que não fez ou uma história que nunca aconteceu. Um transtorno caracterizado pela compulsão de mentir, onde o indivíduo, inconscientemente, mente com grande frequência. Existe um prazer enraizado na criação de suas próprias histórias.

E qual seria a razão para esse tipo de comportamento? Existem dois possíveis motivos para que alguém recorra às mentiras, um deles é o medo. Na grande maioria das vezes, o indivíduo mente porque tem medo de enfrentar a sua própria realidade. Ou medo de perder alguém, além do perder afeto e reconhecimento. Uma outra razão possível é a ambição.

O transtorno da mitomania pode ser desencadeado por transtornos de personalidade, doenças neurológicas ou psiquiátricas – mas nem sempre está ligado a alguma doença. E o que vai diferenciar este transtorno de uma simples mentira é a intensidade e a frequência. Quando mais se mente, mas sente a necessidade de mentir. Fazendo elos entre as histórias inventadas.

As consequências da mitomania na vida de uma pessoa podem ser muito sérias, como o fim de relacionamentos amorosos e até a perda de emprego. Ao perder o controle sobre as histórias fantasiosas que inventa, a pessoa acaba se complicando nos relacionamentos pessoais e profissionais por não ter sustentação para suas mentiras. Além disso, quando são descobertas as mentiras é comum que o afastamento do mitomaníaco ocorra por pessoas próximas, fazendo com que este sinta-se rejeitado, agravando ainda mais seu quadro psíquico.

O transtorno pode ser tratado, mas os métodos utilizados no tratamento dependem da gravidade do quadro do paciente. Antes de se controlar a mitomania, o indivíduo deve passar por uma investigação terapêutica que irá identificar as doenças psiquiátricas que possam estar associadas a este transtorno, motivo pelo qual a terapia é fundamental para tratar a mitomania. Em alguns casos onde os níveis estão elevados, também é indicado o uso de intervenção medicamentosa. Os antidepressivos entram com a função de reforçar a confiança e autoestima desse indivíduo, bloqueando a necessidade de aceitação e eliminando as angústias oriundas pelo sentimento de rejeição.

É de suma importância estar atento às crianças. É normal que elas mintam. Esse comportamento fantasioso faz parte do universo infantil quando o amadurecimento pessoal começa a ser formado. Porém, o que parece uma atitude ingênua pode tornar-se um problema sério na juventude, quando este jovem começa a se assumir como indivíduo e passa a sustentar relacionamentos sociais adultos.

Também chamada de “síndrome de Pinóquio”, percebemos que existe consciência sobre aquilo que está sendo feito, porém, o mentiroso encara o hábito como uma “mentira boa ou inofensiva”. Fato é que essa doença surge como sintomas de outras questões psicológicas, a exemplo da depressão e outros problemas emocionais como: a necessidade de atenção e o medo da rejeição. Os mentirosos, em geral, são tidos como contadores de histórias. Precisam sentir-se superiores aos demais e, para isso, contam histórias de sua bravura, popularidade e grandes feitos. Ou mesmo mentem para esconder erros e falhas. No entanto, não existe neste comportamento qualquer indício de culpa ou responsabilidade.

Para manter sua “vida grandiosa” aos olhos dos outros, adotam o plágio como uma parte integrante de suas ações. Ao contar uma mentira após a outra, podem não perceber que disseram a mesma mentira para a mesma pessoa mais de uma vez. Cada vez que se conta a mesma mentira, o conceito básico irá permanecer, sendo apenas os personagens, local e data da ocorrência modificados.

Ficam evidentes razões como a baixa autoestima, o déficit de atenção, a hiperatividade e o transtorno bipolar como umas das principais razões que podem transformar um indivíduo em um mitomaníaco ou portador da “Síndrome de Pinóquio”. Uma das molas presentes nesta alteração comportamental é o complexo de inferioridade que impulsiona a pessoa a inventar histórias, fazendo-a acreditar que desta maneira poderá se tornar mais importante e apreciada pelo outro. Indivíduos com alterações severas de humor, oscilando entre a depressão e a agitação (típico comportamento maníaco), bem como os dependentes e viciados em drogas ou jogos, são fortes candidatos a se tornarem mitomaníacos. Os dependentes, por exemplo, precisam mentir – na grande maioria dos casos – para fugir de situações difíceis, como problemas financeiros.

Portanto, a incapacidade de enfrentamento da realidade desencadeia neste ser humano a sentimentos de negação, contribuindo para que a mentira seja uma muleta em sua vida, construída a partir das fantasias criadas. A medida que percebem os “falsos ganhos” com este comportamento, passam a alimentar suas mentiras compulsivamente. Seu maior objetivo é levar a atenção do outro para longe da realidade em que vivem. Por isso, dizemos que o mitomaníaco acredita em sua própria mentira. Por mentir tanto, passa a confundir o que é real do que é fantasioso. Mas tenhamos muita cautela, pois o diagnóstico dessa patologia deve ser minucioso e realizado por profissional de saúde mental adequado.

Quem sofre com a mitomania, a mentira patológica, apresenta transtornos de personalidade narcisista e antissocial. Quando tratadas prematuramente, essas características, notadas a partir de observações criteriosas, diminuem o risco de evolução da doença – visto que é extremamente importante o desenvolvimento da elevação da autoestima, a potencialização de valores e forças, além do enfraquecimento do medo da rejeição e do abandono. Para conseguir uma melhor qualidade de vida, se faz necessária a promoção de sentimentos positivos e um melhor gerenciamento das emoções, assim a mentira compulsiva deixa de fazer parte da realidade do indivíduo – libertando-o da Síndrome de Pinóquio.

*Andrea Ladislau é psicanalista; doutora em Psicanálise, Membro da Academia Fluminense de Letras. Pós Graduada em Psicopedagogia e Inclusão Social. Professora na Graduação em Psicanálise, Embaixadora e Diplomata In The World Academy of Human Sciences US Ambassador In Niterói. Professora Associada no Instituto Universitário de Pesquisa em Psicanálise da Universidade Católica de Sanctae Mariae do Congo. Professora Associada do Departamento de Psicanálise du Saint Peter and Saint Paul Lutheran Institute au Canada.

A mania de controlar tudo que afeta severamente o equilíbrio emocional do ser humano*

Já parou para pensar se você está sofrendo por alimentar uma mania de controle? Por que desejamos controlar tudo? Na verdade, existe uma linha muito tênue em promover ou não uma justificativa para a mania de controle. A grande questão é que a necessidade em ter o controle das situações nas mãos é um sentimento intrínseco de nossa espécie. Tudo o que é externo, e nos foge ao controle, gera insegurança e medo – e nos faz sentir vulneráveis.

Essa sensação pode desencadear uma falsa ilusão de segurança, além de colaborar para que acreditemos que nossas ações e pensamentos são sempre superiores aos do outro, quando, na verdade, nossa necessidade por controle só reflete nossas próprias inseguranças e a falta de confiança que, inconscientemente, depositamos no outro e em nós.

Não podemos dizer que essa mania é justificável, pois tudo o que causa dor e sofrimento perde sua capacidade de aceitação. Estudos comprovam que a busca pelo controle pode refletir uma neurose por felicidade constante – uma vez que o ser humano tem a ilusão de que, quando o outro e todas as coisas estão dominadas ou sob o seu controle, não haverá possibilidades de riscos de resultados negativos. O grande problema é que não existem garantias de que a todo momento poderemos ter o controle total sobre o universo a nossa volta. Só podemos controlar nossas ações, não controlamos o tempo e nem os sentimentos e atitudes do outro. E é por isso que, por vezes, nos frustramos e experimentamos o sentimento de angústia.

As pessoas que quererem ter o controle de todas as situações vivem um dilema interno consigo mesmas, pois estão sempre frustradas por não terem suas expectativas atendidas. Podem, psiquicamente, apresentar distúrbios de alteração de humor, irritabilidade excessiva, estresse elevado e até desenvolvem transtornos depressivos. Apresentam grande dificuldade para lidar com críticas e podem ser totalmente inflexíveis, por estarem sempre tentando interferir no livre-arbítrio do próximo. São indivíduos capazes de oprimir a identidade do outro em função de sua característica dominadora, além de tentarem a todo custo centralizar tudo. Ou seja, por todo o exposto, quem possui este perfil e a mania de querer controlar tudo acaba sofrendo muito porque está sempre em estado de tensão. Sempre desesperado para saber se tudo sairá conforme suas expectativas. E quando isso não acontece, é invadido pelo amargo gosto da frustração e da decepção.

As palavras de ordem aqui são: equilíbrio e controle emocional. O autoconhecimento te faz entender que, na realidade, é impossível controlar tudo. Se faz necessário um melhor gerenciamento de seus sentimentos, pensamentos, emoções e ações. Desta maneira, fica mais claro perceber o que está fora do seu alcance e, assim, não correr o risco de empregar energia em algo que não irá trazer resultado. Saber separar, por meio de atitudes conscientes, o que eu posso controlar e o que não faz parte do meu autocontrole. O desapego a esta necessidade de controle é o que irá propiciar uma vida mais equilibrada, mais leve e sem pressões internas e, principalmente, sem o elemento culpa. Culpa porque quando o indivíduo percebe que algo deu errado e que perde o controle da situação, ele se enche de frustração e de culpa. Começa a povoar a mente com cobranças excessivas que aumentam ainda mais seu estresse e a sua ansiedade.

Ilustração: Kabaldesch0/Pixabay

Existem muitas situações as quais tentamos controlar em vão, pois tudo o que é externo a nós é incontrolável e imprevisível. Não controlamos, por exemplo, as palavras do outro, os sentimentos alheios, as decisões, ações e esforços das pessoas a nossa volta (sejam elas íntimas ou não). Nem o tempo é controlado por nós. No fundo, o que precisamos desapegar e abandonar é o orgulho e o delírio que alimentamos de acreditar que tudo vai ser como queremos, como planejamos em nosso inconsciente.

Aprender a não sofrer pela falta de controle, tolerando a sensação de incerteza que é intrínseca ao ser humano, sem dúvida é um de nossos maiores desafios. Faz parte do curso natural da vida não conseguir conduzir ou controlar tudo. Não somos seres onipresentes, onipotentes ou oniscientes. É necessário que tenhamos e possamos aceitar nossa infinita necessidade de autoconhecimento e aperfeiçoamento pessoal que nos garanta ordenação da vida, de forma a crescermos com as oportunidades e adversidades apresentadas à partir de um enfrentamento consciente. No entanto, o gerenciamento das emoções pode contribuir de maneira positiva na tarefa contínua de domínio dessa sensação de insegurança causada pela percepção de que não podemos controlar tudo.

Algumas ações individuais garantem o equilíbrio de sua saúde mental e um maior controle emocional em busca de uma vida saudável, como por exemplo: tentar não abraçar tudo para si; evitar centralizar tudo a ponto de se sufocar e aumentar sua ansiedade; aprender a delegar; não ser imprudente a ponto de se colocar acima dos desafios; ter humildade para reconhecer que não se sabe e não se pode tudo; não sucumbir à histeria e neurose coletiva de que é necessário ser perfeito e não se pode errar nunca; aceitar suas deficiências e fortalecer suas qualidades; aprender a exprimir novos significados para seus próprios resultados; permitir-se ousar e experimentar a sensação do descontrole ( por mais desconfortável que possa parecer). Sem medo de errar, se esses pontos forem observados e trabalhados, o indivíduo poderá aprender muito e se conhecer muito mais – entrando até em um processo adaptativo que promova gatilhos para que consiga se sentir mais feliz e menos vulnerável às adversidades.

Portanto, ao abrir mão do controle, relaxar e administrar apenas o que está ao seu alcance de ser administrado e controlado, o ser humano consegue ter mais domínio sobre si mesmo. Isso porque instala-se um equilíbrio emocional, reflexo da ausência de tensão interna que, naturalmente, torna-o mais leve e menos pressionado. Fato é que o primeiro passo deve ser dado: parar de pressionar a si mesmo. Em seguida, eliminar crenças enraizadas que valorizam os seus “tem que” e os “devo”.

Além de parar de se cobrar e de querer controlar com sua mente tudo o que acontece ao redor. Perceba que sua responsabilidade é cuidar de si mesmo. Se sua cabeça anda mal, certamente ficará difícil administrar sua casa, seus filhos ou seus negócios. Melhore seus pensamentos e emoções e se deixe um pouco mais à vontade, sem a rigidez que você mesmo se impõe. Permita-se! Seu corpo vai agradecer, sua saúde mental e sua vida podem se equilibrar e o resultado, acredite, será um maior controle emocional – sem culpas e sem cobranças.

Foto: Pedro Costa

*Andrea Ladislau é psicanalista; doutora em Psicanálise, Membro da Academia Fluminense de Letras. Pós Graduada em Psicopedagogia e Inclusão Social. Professora na Graduação em Psicanálise, Embaixadora e Diplomata In The World Academy of Human Sciences US Ambassador In Niterói. Professora Associada no Instituto Universitário de Pesquisa em Psicanálise da Universidade Católica de Sanctae Mariae do Congo. Professora Associada do Departamento de Psicanálise du Saint Peter and Saint Paul Lutheran Institute au Canada.

Dez passos para alcançar metas

Quer conquistar os seus objetivos? Especialista em psicologia positiva ensina dicas que ajudam na mudança de comportamento

A chegada desse período de fim de ano nos inspira a refletir sobre o que desejamos conquistar em 2021. Mas somente pensar a respeito não basta. Apenas ter intenções nem sempre é o suficiente. “É preciso, também, se planejar e estar disposto a agir. Afinal, definir metas significa uma mudança de comportamento”, diz Flora Victoria, mestre em psicologia positiva aplicada pela Universidade da Pensilvânia

Para ajudá-lo nessa empreitada, ela separou 10 etapas fáceis de serem colocadas em prática. “São passos para quem almeja transformar desejos em realizações de sucesso. E o melhor: todas as dicas são baseadas em evidências científicas”, reforça a especialista, que também é Embaixadora da Felicidade no Brasil pela World Happiness Summit.

Acompanhe a seguir:

Primeiro, estabeleça o grande objetivo

O que você gostaria de realizar no próximo ano? Por exemplo: ter uma rotina de tividade física. Esse objetivo pode incluir um pouco de alongamento, treinamento de força e exercícios aeróbicos em cerca de 20 minutos, durante 5 dias por semana.

Em seguida, divida essa ideia mais ampla em metas de longo prazo
Elas levam até três meses para serem cumpridas. Ainda utilizando o exemplo que mencionei, uma meta de longo prazo é fazer 12 semanas de exercícios físicos.

Agora, divida o objetivo novamente em metas de curto prazo
São as que levam de uma a três semanas para serem realizadas. Algumas metas de curto prazo podem ser:
• Procurar um personal para preparar os treinos.
• Memorizar os circuitos e aprender a fazê-los corretamente.
• Cumprir duas semanas de atividade física.

Depois, divida o seu objetivo em passos muito específicos e fáceis


O que você pode fazer hoje? E amanhã? O primeiro passo é ligar para o personal, que montará os exercícios para você? Ou aprender os alongamentos de aquecimento assistindo a vídeos no YouTube? Siga esses passos até que eles fiquem tão fáceis que você sinta pouca ou nenhuma resistência.

Ajuste seu ambiente para tornar as coisas mais fáceis
Somos muito influenciados pelas pessoas, lugares e tudo aquilo que está perto de nós. Então, vale a pena acertar o ambiente para facilitar as coisas. Na prática, remova as tentações. Se o objetivo é parar de verificar o celular enquanto dirige, mantenha o telefone longe. Outra dica é ter certeza de que aquilo que precisamos é fácil e conveniente. Quer comer mais frutas? Deixe-as em lugares visíveis na cozinha.

Envolva outras pessoas, mesmo se você for introvertido
Muitas vezes, nós podemos nos forçar a realizar algo se isso nos faz sentir mais parte de um grupo. Essa atitude aprofunda e aumenta nossas conexões sociais de alguma forma. Converse com outras pessoas a respeito do seu objetivo. Se a ideia é fazer exercícios, fale com quem já pratica.

Identifique por que seu objetivo é importante para você

Pense menos no que você quer alcançar e concentre-se em como deseja se sentir. Identifique o “porquê”. Nessa hora, as emoções são muito mais motivadoras do que as metas por si só. Talvez você queira mais felicidade, confiança ou calma. Então, diga: “vou estabelecer essa rotina de exercícios porque sei que ela vai aumentar a minha energia. Estar cheio de disposição é muito importante para mim”.

Faça seu objetivo estar na sua identidade
Mude o seu comportamento também com as palavras. Passe a dizer: “eu sou uma pessoa que faz exercícios”. A cada novo dia de atividade física, você mesmo notará que cumpre o que se propõe a fazer.

Deixe o comportamento mais atraente
Quando o cérebro identifica uma recompensa potencial, ele libera dopamina, um mensageiro químico do bem-estar. Essa substância nos motiva e cria um sentimento real de desejo. As recompensas precisam ser imediatas ou, melhor ainda, incorporadas à rotina, quando possível. Faça os exercícios ouvindo suas músicas preferidas, por exemplo. Isso deixa a atividade mais atraente.

Torne o comportamento um hábito

Foto: 123RF

Uma vez que um comportamento está no piloto automático, tudo fica mais fácil. Não precisamos de muita força de vontade para realizar aquilo que é habitual. Encaixe seu objetivo a sua rotina ou a uma programação. Por exemplo: “todos os dias, às 7 horas, após tomar café da manhã, vou me exercitar”.