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Especialistas dão dicas de saúde bucal para o público 50+

Com o passar dos anos, problemas bucais podem se agravar, porém, hoje em dia, por exemplo, repor um dente perdido não é mais tão caro ou complicado

Com certeza você já ouviu falar que a pele que terá quando mais velho irá refletir os cuidados que teve quando jovem, como não tomar muito sol ou fumar. Pois com a saúde bucal é a mesmíssima coisa. Seu sorriso aos 50 anos é o resultado dos cuidados que você teve com a higiene dental, e com as visitas frequentes ao dentista, na infância e na juventude. Afinal, algumas coisas não têm idade, e cuidar da saúde é uma delas.

No entanto, questões que foram negligenciadas ou ignoradas podem piorar, e muito, com o passar dos anos. As mais comuns são as cáries e os problemas gengivais, além do aumento da sensibilidade, como explica Luciana Aparecida de Sousa Iwamoto, Presidente da Câmara Técnica de Ortodontia do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de SP): “A sensibilidade pode se agravar com a idade, pois, com o passar do tempo, é normal haver retração gengival, que expõe áreas do dente que não estão protegidas pelo esmalte dental, e que podem ser particularmente doloridas quando atingidas por alimentos e bebidas quentes ou frias”.

Luciana Aparecida de Sousa Iwamoto

Ela também explica que pessoas acima dos 50 anos podem se queixar de boca seca (xerostomia). Isso surge em decorrência do uso de medicamentos ou algum problema de saúde não tratado. “Enfermidades preexistentes (diabete, problemas cardíacos, câncer) também podem afetar a saúde da boca. Qualquer doença existente deve ser informada ao dentista para que ele possa ter uma visão completa da situação e poder ajudar de forma mais específica”, acrescenta. 

“A doença periodontal – doença inflamatória causada pelas bactérias bucais acumuladas na superfície do dente ao longo do dia que causa sangramento gengival e destruição do osso que sustenta o dente, e pode levar à perda dental se não tratada – começa a predominar depois dos 40, 45 anos. Portanto, o problema bucal mais comum depois dos 50 anos é a perda de dentes por falta de prevenção e do não tratamento desta doença”, aponta Marcelo Cavenague, especialista em Periodontia e em Prótese Dentária.

A boa notícia é que a grande maioria dos problemas tem solução. Mas e o paciente nesta faixa etária? É mais disciplinado e se cuida melhor que os jovens? Cavenague afirma que não: “A esmagadora maioria dos pacientes cuida mal dos próprios dentes, independente de idade. Nem sempre este cuidado deficiente é culpa apenas dele. A higiene bucal exige um aprendizado que é de responsabilidade dos profissionais da área. Além disso, o paciente tem que querer aprender e mudar seus velhos hábitos para atingir um nível ideal de higiene. Só a combinação de orientação profissional e dedicação do paciente leva a um bom resultado”.

E quais os erros mais comuns? Segundo Cavenague são fazer a escovação rapidamente, sem dar atenção aos contornos e reentrâncias e sem alcançar corretamente o espaço entre a gengiva e os dentes; não usar fio dental, na maioria das vezes porque acha que machuca, pois sempre que usa, sangra; utilizar bastante pasta de dente achando que isso compensa a escovação rápida; confiar que o bochecho com antisséptico substitui uma boa higiene; achar que se não comeu nada não precisa escovar; não prestar atenção naquilo que se está fazendo, agindo de forma automática.

Fábio Sato, especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, conta que os cuidados básicos envolvendo a saúde bucal, com o passar da idade, devem ser aprimorados. Isso porque as defesas do organismo acabam se enfraquecendo, bem como a própria habilidade manual na higiene bucal. Dessa forma, o cuidado rigoroso com a escovação dentária, uso de fio dental e a atenção com próteses dentárias devem ser aumentados. “Além disso, a visita regular ao profissional cirurgião-dentista deve ter uma frequência maior, com intervalos ideais de seis meses. E, dependendo das condições de saúde bucal, até mesmo com menor espaçamento”, avisa.

Dentes alinhados

Se antes, apenas crianças e adolescentes usavam aparelhos ortodônticos, agora vemos pessoas de todas as idades com aquele sorriso metálico. Sem contar aqueles que usam os alinhadores invisíveis e nem percebemos. Isso seria sinal de conscientização ou influência da Internet e das redes sociais?

Para Luciana, um sorriso bonito e saudável tem a mesma importância seja na adolescência ou na terceira idade: “Nunca é tarde para sorrir, felizmente, culturalmente, tudo melhorou. Idade não é empecilho para a colocação de aparelho. Creio que devemos envelhecer com as funções preservadas e otimizadas”.

Ela frisa que não existe uma idade limite para o uso do aparelho dentário, porém, lembra que o ideal é realizar uma avaliação ainda na fase de crescimento, pois quanto antes for detectado o problema, melhor o prognóstico. “Porém, como falei, nunca é tarde demais para corrigir o que incomoda. Contrariamente do que se pensa, não existe limite de idade para o uso do aparelho. Claro que uma avaliação criteriosa da saúde bucal e dentária deve ser realizada antes do procedimento”.

Também devemos levar em conta que, alguns anos atrás, os aparelhos ortodônticos eram mais limitados esteticamente. Mas hoje há mais opções. Por exemplo, os aparelhos ortodônticos fixos podem ser metálicos, de porcelana, de safira ou autoligado. “Há uma outra filosofia de tratamento ortodôntico fixo que é por meio do aparelho lingual que, como o próprio nome diz, é instalado por trás (ao lado da língua) e não aparece no sorriso. E, por último, o sistema dos alinhadores invisíveis, no qual o tratamento funciona por meio de uma sequência de placas removíveis e transparentes, facilitando, assim, as escolhas do paciente”, explica a profissional.

Fábio Sato

Sato acrescenta que, atualmente, muitos tratamentos odontológicos que, anos atrás eram restritos a uma pequena parcela da população, estão muito mais acessíveis, pela maior disponibilidade, inclusive no setor público. Há também a questão custo-benefício que, apesar de ainda parecer elevado, diminuiu em relação ao que era. “A Internet também tem um peso [na divulgação], pois torna a informação mais acessível ao público em geral em relação aos problemas de saúde bucal e formas de tratamento. Somando tudo isso, pessoas que no passado não tiveram a possibilidade de conseguir, por exemplo, um tratamento ortodôntico, hoje estão realizando o sonho de corrigir a oclusão e melhorar a qualidade de vida”.

Luciana menciona uma outra questão trazida pela Internet, e que vale para todas as idades: “Claro que as redes sociais fazem uma pressão por perfeição, o que tem afetado a qualidade de vida das pessoas, e termina por proporcionar maior desejo das pessoas em possuir um corpo e um sorriso perfeitos, mas é preciso cuidado para não se desenvolver transtornos psicológicos”.

E os pacientes? Se cuidam ou são relapsos?

Depositphotos

Para Sato, apesar de termos no Brasil o maior número de profissionais cirurgiões-dentistas do mundo, nossos números em relação à saúde bucal não são dos melhores: “Claro que isso é causado principalmente em decorrência da desigualdade de acesso ao tratamento odontológico, mas, de modo geral, observamos que o brasileiro não valoriza a questão da saúde bucal, não tem uma cultura de prevenção e vai atrás do tratamento somente quando a situação se agrava, necessitando de procedimentos mais invasivos e, consequentemente, de maior custo, e acaba não tendo condições de realizá-los de forma adequada”.

“Dificilmente se encontra uma pessoa que não cuide de seus dentes por opção. O que é comum é cuidar mal, achando que está cuidando bem, como, por exemplo, achar que não precisa de fio dental porque os dentes são um pouco separados”, conta Cavenague, acrescentando: “Na maioria das vezes, esta má higiene ocorre por falta de orientação profissional ou pela pessoa não ter dado muita atenção quando recebeu orientação do dentista”. 

Marcelo Cavenague

Para Luciana, o tema é mais profundo e engloba questões educacionais, culturais e socioeconômicas. Ela cita a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo IBGE, em 2019, e divulgada em setembro de 2020, que constatou que apenas 12,9% dos brasileiros têm plano odontológico.

O mesmo levantamento apontou que, dos 162 milhões de brasileiros acima de 18 anos, 34 milhões perderam 13 dentes ou mais. Pior: 14 milhões perderam todos os dentes. “Além disso, menos da metade dos brasileiros consultou um dentista nos 12 meses anteriores à data da entrevista. Desse universo, apenas 36% das pessoas com renda menor que um quarto do salário mínimo foram ao dentista. Os dados são alarmantes em razão das consequências, que vão da perda dental até o acometimento de problemas de saúde mais graves”, lamenta.

Porém, nem sempre é uma questão financeira, pois há aqueles que mesmo tendo boa condição social, reclamam dos custos de um tratamento. “De fato, é muito comum ver pessoas de carro importado, telefone celular novinho, smartwatch, reclamando do preço de uma restauração. Mas esta situação tem a ver com o valor que se dá às coisas. Existem muitos pacientes que valorizam muito nosso trabalho também. Costumo dizer que não existe tratamento mais barato que a prevenção. Frequentar o dentista, mesmo sem nenhum sintoma, ajuda a diagnosticar problemas no início. Porém, se a pessoa passa anos sem ir a um consultório, é bem provável que a conta seja alta pelo acúmulo de problemas não diagnosticados precocemente”, afirma Cavenague. 

Perda dental

Freepik

Perder um dente, como a pesquisa do IBGE apontou, é algo muito comum para a população brasileira. Porém, não tomar providências para repô-lo é algo ruim em qualquer idade, pois a posição dos dentes não é fixa. E quanto mais os anos passam, pior a situação geral se torna.

“Com o tempo, os dentes vizinhos ao espaço que ficou, vão ‘tombando’ em direção àquele espaço. Quanto mais demora se leva para repor um dente perdido, mais essas mudanças são notadas, portanto, em uma idade mais avançada, a chance de ter maior acúmulo de alterações de posição aumenta”, alerta Cavenague.

Vale lembrar que a perda dentária não é exclusividade dos mais velhos. E ela causa transtornos em várias esferas, por exemplo, a funcional, com redução óssea, diminuição da capacidade de mastigação e de absorção de nutrientes, problemas de oclusão (mordida) e inúmeros outros danos dentários, musculares e articulares.

“Esteticamente, a perda dos dentes deixa a aparência do rosto mais envelhecida, a boca vai ficando murcha, o queixo vai perdendo a forma ideal. E todos esses efeitos causam um impacto emocional muito negativo, diminuindo a autoestima. A pessoa passa a ter dificuldade de sorrir, de socializar e até de conseguir um novo emprego”, afirma Luciana.

Ela gosta de lembrar que o tratamento devolve a função e a estética dentária, propiciando melhora na qualidade de vida do paciente. Esta reposição pode ser realizada por meio de tratamento ortodôntico, com fechamento de espaços, com próteses fixas e removíveis ou, até mesmo, com próteses sobre implante. 

Prevenção é o segredo

Foto: Zahnreinigung/Pixabay

Como foi dito no início da matéria, se uma pessoa cuidar bem dos dentes e se consultar periodicamente com um dentista de confiança, a dentição pode durar a vida inteira. “Independentemente de idade, essa pessoa pode ter dentes e gengivas saudáveis, mas, para isso, precisa fazer a escovação pelo menos três vezes ao dia e usar fio dental. Além de regularmente consultar o dentista para exames completos e limpeza periódica”, enfatiza Luciana.

Reforçando o conselho da colega, Cavenague comenta: “Tenha um bom relacionamento com um profissional de confiança e frequente o consultório, mesmo que não tenha nenhum sintoma. A doença periodontal, por exemplo, apresenta poucos sinais em seus estágios iniciais. No máximo, o paciente percebe um ligeiro sangramento gengival e acha normal. O diagnóstico precoce é de responsabilidade do cirurgião dentista. Quando for à consulta, questione sobre sua saúde gengival. Mesmo que ele não seja especialista na área, estará capacitado a orientá-lo e encaminhá-lo a um especialista, se for necessário.”. 

Divulgação

Sato finaliza, enfatizando que os tratamentos odontológicos evoluíram muito ao longo do tempo: “Por exemplo, os implantes dentários são excelentes opções de reabilitação para os pacientes que perderam os dentes, com tratamentos sem dor e com excelentes resultados. E a correção ortodôntica, como foi dito, é possível de ser realizada atualmente com uso de alinhadores sem a necessidade de uso de braquetes e fios metálicos, como no passado. Enfim, a idade hoje não é empecilho para o cuidado odontológico”.

Cuidados gerais para manter a saúde bucal

=Evite o consumo exagerado de açúcar (atenção especial para aquele “escondido”, como em pães, salgadinhos e biscoitos)
=Fuja de bebidas açucaradas ou muito ácidas
=Não fume
=Mantenha uma alimentação saudável no dia a dia

=Utilize fio dental e escova interdental
=Escove os dentes sempre após as refeições e antes de dormir
=Consulte um dentista regularmente (a periodicidade é individualizada e deve ser determinada pelo profissional para cada paciente)

Fontes:
Fábio Sato é formado em Odontologia pela Universidade de São Paulo, mestre e doutor em Cirurgia Bucomaxilofacial. Inscrito no CROSP na especialidade de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial; Coordenador do Capítulo do Estado de São Paulo do Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial; Membro da Internacional Association of Oral and Maxillofacial Surgeons.
Luciana Aparecida de Sousa Iwamoto, formada em Odontologia pela Universidade Guarulhos, habilitação em Prótese Dentária, especialização em Ortodontia e Ortopedia Funcional dos Maxilares ( ABO SP), Implantodontia (UnG) e Prótese Dentária ( UCLA), mestrado e doutorado em ciências da saúde pelo programa de cirurgia transacional, nota 6 CAPES, na Universidade Federal de São Paulo. Presidente da Câmara Técnica de Ortodontia do CROSP.
Marcelo Cavenague formado em Odontologia pela FZL, é Secretário da Câmara Técnica de Periodontia do CROSP; Especialista em Periodontia e em Prótese Dentária; Mestre em Anatomia.