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“A melhor vacina é a que está disponível mais rápido e que pode vacinar mais gente”

Afirmação é do médico e pesquisador da USP Marcio Bittencourt. Nos testes, a Coronavac reduziu em 78% casos que precisariam de assistência médica e 50,4% da doença em geral, com qualquer nível de gravidade

por Luiza Caires – Jornal da USP

“A melhor vacina é a que está disponível mais rápido e que pode vacinar mais gente, e a melhor saída da pandemia é ter alguma vacina razoavelmente eficaz e segura.” A frase do médico e pesquisador da USP Marcio Sommer Bittencourt refletiu o tom que parte da comunidade científica tenta transmitir à população em relação à Coronavac. Cinco dias após a divulgação ao público de parte das informações e quatro dias após a submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do pedido para seu registro emergencial, o Instituto Butantan apresentou, nesta terça-feira (12), mais números e a metodologia da vacina contra a covid que desenvolveu com o laboratório Sinovac.

Coletiva do Instituto Butantan nesta terça-feira (11) reuniu pesquisadores para detalhes sobre o estudo da Coronavac. Eficácia global da vacina na pesquisa com profissionais de saúde na linha de frente da pandemia foi de 50,4% – Foto: reprodução

Na quinta-feira (7) uma coletiva de imprensa informou que a vacina apresentou eficácia de 78% para prevenir casos relativamente leves, mas que precisam de algum tipo de assistência médica, e 100% para prevenir casos graves, que demandam internação, assim como óbitos. Faltava a porcentagem global de eficácia, que incluía casos da doença, em qualquer nível de gravidade. É o que, no estudo, os especialistas chamam de “desfecho primário”. Levando isso em conta, a eficácia da vacina é de 50,4%. Ou seja, a chance de desenvolver a doença tomando a vacina, por este estudo, é cerca de 50% menor para quem foi vacinado quando comparado a quem não foi. E a chance de, mesmo infectado, não desenvolver sintomas graves com necessidade de assistência nem ir a óbito é 78% menor entre quem tomou a vacina. Este último número é o que os especialistas chamam de “desfecho secundário” ou desfecho clínico.

Como ponto favorável à vacina, o diretor do estudo Ricardo Palácios ressaltou que o estudo foi desenhado para ser o mais rigoroso possível, sugerindo que a eficácia global pode ter caído por isso. Ela foi testada em profissionais de saúde em contato direto com pacientes com coronavírus – o número de casos em trabalhadores que atuam na linha de frente contra a covid é maior. “Se quisermos comparar os diferentes estudos, é como comparar uma pessoa que faz uma corrida num terreno plano com outra que corre num terreno íngreme e cheio de obstáculos. Isso foi o que fizemos: colocar obstáculos”, disse. Participaram 12.476 pessoas em 16 centros clínicos localizados em oito Estados brasileiros.

Natalia Pasternak – Foto: Arquivo Pessoal

Presente no evento, a presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC) Natalia Pasternak chamou a atenção para a efetividade da vacina no “mundo real”. De acordo com a microbiologista, não adiantaria termos uma vacina com 90% de eficácia e poucas pessoas imunizadas porque a vacina não chegou até elas. Por exemplo, porque não temos freezers adequados para armazená-las. Natalia ressaltou que a Coronavac tem potencial de prevenir casos graves e mortes e agora é preciso investir o quanto antes numa campanha publicitária e de vacinação.

Para ela, essa vacina é só o começo do fim da pandemia, e as medidas de prevenção devem continuar. Podem surgir outras melhores, inclusive essa mesma continua sendo pesquisada, aprimorada. “Se essa vacina é o começo, vamos começar!”, concluiu.

Marcio Bittencourt – Foto: arquivo pessoal

Marcio Bittencourt, que integra Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica Hospital Universitário (HU) da USP, também defende os benefícios da Coronavac. “Para uma vacina desenvolvida em um ano, que pode ser produzida em larga escala localmente, distribuída facilmente sem problemas, acho um espetáculo. Sim, tem outras que nas pesquisas foram melhores, mas se você não consegue distribuir não adianta nada”, diz. E ilustra:

“Sendo simplista, ao vacinar 1 milhão com vacina que reduz 95%, o máximo que você protegeu foram 950 mil pessoas. Mas ao vacinar 200 milhões com uma vacina que reduz 50%, você protege até 100 milhões de pessoas. E entre os que pegam, a maioria nem de médico precisa.”

Segurança

Nas etapas anteriores, os cientistas já haviam concluído que a Coronavac era segura e eficaz em produzir imunidade. A fase 3 foi realizada principalmente com o objetivo de saber se o imunizante, de fato, impedia que uma pessoa ficasse doente. Mesmo assim, continuam sendo acompanhados quaisquer reações e eventos adversos com os participantes.

Como mais um ponto a favor da segurança do produto, André Siqueira, pesquisador da Fiocruz que atuou como pesquisador principal do estudo da Coronavac no Rio de Janeiro, ressalta que a taxa de eventos adversos nos grupos placebo e vacinados foram similares, e menores em ambos os grupos após a segunda dose. Entre as reações foram relatadas dor no local da aplicação, dor de cabeça e fadiga.

A Anvisa tem dez dias para responder ao pedido de uso emergencial, após a entrega de todos os dados. O pedido de registro definitivo no Brasil, segundo o diretor do Butantan, deve ser feito pela Sinovac, assim como o pedido de registro em outros países, conforme os dados todos forem consolidados. “A Sinovac recolhe os dados dos estudos e é ela que submete o pedido de registro, inicialmente à MNPA, que é a ‘Anvisa chinesa’, e também à Anvisa ”, disse Dimas Covas.

Detalhando os dados

Durante o evento desta terça, foram apresentados os principais números do estudo. No grupo placebo, 3,6% dos participantes tiveram covid-19 (167 em um total de 4.599). No grupo vacinado, 1,8% pegaram a doença (85 em um total de 4.653).

No grupo placebo, 0,7% (31 participantes entre os 4.653) precisou de assistência médica por covid-19. No grupo vacinado, somente 0,15% (7 de 4.599 participantes) precisou de assistência médica. Ao comparar 0,15%, com 0,7%, chegamos a taxa de 78% pessoas a menos desenvolvendo sintomas graves.

Para André Siqueira, os resultados são positivos na prevenção de infecções que sobrecarregam os serviços de saúde, em especial infecções graves, de modo que podem ter um impacto relevante para a saúde pública. “O quão impactante vai depender do número de doses disponibilizadas, da cobertura populacional nos diferentes Estados e da rapidez desta administração”, fatores que, destaca ele, não estão claros no plano de imunização divulgado pelo Ministério da Saúde.

André Siqueira – Foto: INI/Fiocruz

Ele explica que a taxa de eficácia de 78% apresentada pelo Instituto Butantan foi calculada utilizando como desfecho principal um índice da OMS (ver tabela abaixo), mas considerando somente a pontuação maior ou igual a 3, comparando-se o grupo vacinado e o não vacinado. “Este score vai de 0, que é o assintomático, a 10, que é óbito; 2 é o paciente sintomático, mas independente; 3 é quando a pessoa é confirmada para infecção pelo coronavírus, sintomática, e tem necessidade de intervenção, mas perdeu de certa forma a independência do 2, que é paciente com sintoma leve.”

Já a taxa de 100% foi atingida considerando as formas graves, acima de 4, que precisam de internação. Ou seja, o que não entrou na conta dos 78%, e que não havia sido apresentado ainda pelo governo, era o grupo 2, que é a infecção sintomática, mas que não demanda cuidados médicos, e os assintomáticos.

Coronavac

A vacina da Sinovac é produzida com vírus inativado, incapaz de causar a doença. Quando introduzida no organismo, ativa o sistema imunológico para que ele reconheça aquele corpo estranho e produza anticorpos para se defender.

Os testes mostraram que serão necessárias duas doses da Coronavac – aplicadas em intervalos de 21 dias para garantir imunidade. Segundo o secretário de Estado da Saúde Jean Gorinchteyn, São Paulo já tem disponíveis 10,8 milhões de doses da vacina, e até a primeira quinzena de fevereiro chegarão mais 35 milhões. Dimas Covas anunciou que o Instituto Butantan tem capacidade para produzir 1 milhão de vacinas por dia.

O governador João Doria afirmou que a primeira fase da campanha de vacinação deve ser iniciada em 25 de janeiro deste ano. Profissionais de saúde, indígenas e quilombolas vão receber as primeiras doses.

Eficácia tira foco de outras discussões

O médico e pesquisador do Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP José Galucci Neto acredita que estamos voltando muita atenção à questão da eficácia, quando este não é um problema. “A nossa maior chance de fracassar será na hora de transformar a vacina em um programa efetivo de vacinação que atinja a população, capilarize.”

Para ele, considerando que essa será uma campanha de vacinação imensa, talvez a maior da história do País, o Ministério da Saúde teria que ter mobilizado de maneira coesa sociedade civil, profissionais de saúde e a classe política, os governos federal e estaduais. “Mas não houve até o momento nenhum tipo de campanha nem de esclarecimento nem de mobilização. Pelo contrário, as mensagens são sempre ambivalentes, ambíguas.” Para Galucci Neto, tudo indica que o governo federal assumiu o risco de não se preparar acreditando que a pandemia de alguma maneira estivesse menos impactante agora ou já controlada. Haja vista que não adquiriu insumos como seringas e está dependendo de estoques que podem ser usados, mas teriam como endereço outras campanhas vacinais, como sarampo, BCG que vão ter que acontecer em paralelo.

“Não sabemos como está o PNI [Programa Nacional de Imunização], o quanto foi desestruturado, e se vai ter a mesma potência que tinha antes. Na época do H1N1, o PNI vacinou 80 milhões de pessoas em três meses. Mas eles já tinham, antes de começar a campanha, 100 milhões de doses da vacina estocadas e insumos preparados”, recorda. “Acho improvável, da maneira como as coisas estão sendo feitas, que o Ministério da Saúde consiga dar conta das duas coisas de maneira organizada.” Com tudo isso, o pesquisador acha que discutir neste momento se a eficácia é 50% ou 60% acaba sendo “picuinha”, ainda que ele tenha críticas sobre a maneira como foi feita a comunicação do governo estadual sobre a Coronavac. “Passando dos 50%, o Ministério teria que estar preparado para começar a vacinação assim que a Anvisa aprovar, mas não está. Honestamente, estou muito preocupado.”

Fonte: Jornal da USP

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Como reorganizar a rotina pode ajudar sua saúde psíquica na quarentena

Quebra da rotina pode trazer impactos psicológicos diversos para pessoas diferentes; conheça algumas estratégias para manter a saúde mental diante da pandemia

Por Valéria Dias – Jornal da USP

Você acorda, toma café, vive normalmente sua rotina diária. Um dia, um vírus que até pouco tempo estava longe, em outro continente, e você conhecia vagamente apenas pelos noticiários, entra na sua casa sem bater na porta e interrompe, não apenas a sua, mas a rotina de toda uma sociedade. Mas qual o impacto psicológico dessa quebra abrupta que a quarentena e a pandemia trouxeram? E o mais importante: como amenizar o problema?

Para o professor e psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, do Instituto de Psicologia da USP, o momento exige que todos reorganizem suas rotinas. “Um dos primeiros efeitos da quarentena é a desorientação atencional. A pessoa se sente mais confusa, menos concentrada, muito mais cansada. Ela pensa que vai trabalhar em casa e vai conseguir descansar, mas não é isso que acontece. Porque uma série de apaziguadores que nós temos no trabalho, como a pausa para o cafezinho ou a conversa com o colega, são suspensos”, aponta o psicanalista.

É uma crise geral, mas é muito importante a gente ter em mente que isso tudo vai passar. Pode demorar muito tempo, pode demorar mais tempo do que a gente gostaria, mas vai passar”, ressalta. É como uma guerra: uma hora termina. Dunker lembra que é uma situação que vai ter várias fases e agora estamos apenas começando. “Ter consciência disso é muito importante para fazer a travessia deste momento”, aponta.

Dunker destaca os possíveis efeitos da quarentena em dois grupos de pessoas. O primeiro é de quem nunca foi ansioso, mas passa a ter ansiedade; nunca teve insônia, mas fica com dificuldade de dormir, apresenta reações muito agressivas ou irritadas; ou então começa a se sentir confuso ou desorientado.

Do outro lado, estão aquelas pessoas cujos efeitos da quarentena irão intensificar as dificuldades e fragilidades que já estavam presentes antes. Por exemplo, para um paciente com uma orientação paranoide (um tipo de transtorno de personalidade), é possível que a quarentena ou incremente o sofrimento ou traga um efeito relativamente apaziguador. Outro exemplo são as pessoas com fobia social e que diariamente lutam para ir ao trabalho. Em casa, elas podem se ver em um ambiente mais protegido, mais favorável.

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Christian Ingo Lenz Dunker – Foto: Reprodução via Facebook

Dunker conta que vários de seus pacientes com algum tipo de depressão disseram a ele que agora as coisas estavam melhores, pois antes da quarentena era muito difícil sair da cama ou de casa e agora não precisavam mais se preocupar com isso, podiam passar o dia de pijama, demorar mais para sair da cama etc. O professor alerta que, no caso dessas pessoas, o que agora está sendo sentido como um relativo alívio, pode se tornar potencialmente mais grave com o passar do tempo.

Uma atitude preditiva para um mal percurso, de acordo com o psicanalista, são aqueles que negam a gravidade da epidemia. “Esse tipo de negação é muito ruim porque, no fundo, a gente sabe que é uma espécie de autoengano, às vezes, de autoengano coletivo. E tende a produzir uma espécie de ruptura, de violação, de sentimento de traição, de instabilidade psíquica derivada da ruptura das nossas referências simbólicas”, diz.

Dunker também chama a atenção para a forma como algumas pessoas lidam com o medo, emoção esperada diante da situação: com excessivo compartilhamento de informações. Ele destaca que os dados confiáveis são muito importantes, agem até como medidas protetivas. Mas há quem, em vez de se acalmar, se aquietar e se conter, age com muita compulsividade, seja na obtenção ou na disseminação de informações, sem uma reflexão ou contextualização.

Tarefas a cumprir

Quem está na quarentena tem algumas tarefas a cumprir, de acordo com o psicanalista. A primeira é a reorganização cotidiana, pensar em horários para fazer cada coisa. A segunda tarefa é cuidar da higiene e manter a salubridade corporal, pois vamos entrar em um período de baixa atividade física e isso nos fragiliza. Dunker diz que o Youtube para encontrar a técnica mais adequada para cada pessoa. Mas é preciso selecionar bem as fontes de informação, também neste caso.

Ele também recomenda a prática da meditação e lembra que o Conselho Regional de Psicologia autorizou o tratamento psicológico online. Se os sintomas de ansiedade e depressão passarem da conta, o psicanalista sugere procurar ajuda de um profissional da área e pensar em um tratamento via internet.

Para o equilíbrio mental, o psicanalista sugere fazer pausas ao longo do dia e encontrar atividades que não sejam exatamente produtivas, mas sim restaurativas: pode ser uma leitura, a jardinagem, o cuidado com os animais, ou a arrumação de armários e da casa, mudar os móveis de lugar, etc. “Eu acho a leitura uma boa prática para isso, diferente das telas [televisão, celular, computador], porque a leitura convoca uma reestruturação da atenção da pessoa. Você precisa entrar no livro, seguir o personagem.”

Outra coisa muito importante é a recuperação dos laços afetivos e sociais. Aquele avô ou avó talvez precise de alguns empurrões para, finalmente, entrar no mundo digital, e conversar, por exemplo, via Skype (um comunicador de voz e imagem via internet).

Dunker lembra que há lugares onde o Skype fica ligado durante o dia, continuamente, e não apenas durante as ligações, assim podem ouvir e partilhar a rotina diária com pessoas que estão em outra residência. São usos diferentes para recursos que já estamos acostumados.

Sobre as crianças, elas demandam, segundo o professor, uma atenção especial, pois terão mais dificuldades em substituir os laços físicos pelos digitais. É um momento para acompanhar o filho mais de perto, contar histórias, participar das brincadeiras, interações que foram perdidas ao longo do tempo.

“Para os pais que vivem dizendo ‘eu não tenho tempo pra isso’, agora chegou o momento de fazer esses ajustes. Também é necessário observá-las, se pararam de brincar, se se isolaram demais, se estão comendo e dormindo direito, porque a quarentena é uma situação muito adversa e elas são muito sensíveis para captar a preocupação dos adultos”, informa o psicanalista.

Os pais precisam falar a verdade sobre a quarentena porque, em geral, mentir nesse momento aumenta a problemática. A criança vai ter de lidar com pensamentos como “por que será que os meus pais estão me escondendo alguma coisa?”, além de todas as outras pressões que atingem a todos neste momento. Os idosos também demandam muita atenção pois geralmente mantêm uma relação muito específica com o cotidiano e são muito sensíveis às reformulações mais radicais

Para Dunker, é um momento para cultivarmos a solidariedade, o altruísmo e também a humildade, pois estamos diante de algo maior e mais poderoso que nós. É preciso fazer essa travessia em conjunto e não viver esse momento de forma excessivamente individualizada.

O pior e o melhor de cada um

É uma situação limite, inédita, que está trazendo o melhor e o pior do ser humano. De um lado, o aumento abusivo do preço do álcool em gel e as pessoas estocando comida e papel higiênico. Do outro, exemplos de solidariedade, amizade e empatia, como os daqueles que se oferecem para fazer as compras dos vizinhos idosos. Para Dunker, isso traz respostas criativas, mas também respostas egoístas e destrutivas. Um bom conselho é ficarmos mais tolerantes com nós mesmos e com os outros. Ao mesmo tempo, poderão surgir oportunistas, que se aproveitarão desse momento delicado e da fragilidade alheia para enganar pessoas.

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De um lado, há quem nunca foi ansioso, mas passe a ter ansiedade, insônia, reações agressivas ou se sinta desorientado; de outro, existem pessoas cujos efeitos da quarentena irão intensificar dificuldades que já estavam presentes antes – Arte sobre silhueta Flaticon e Pixabay

A tendência é os preconceitos aumentarem

“Na história da humanidade, as pestes sempre foram associadas com o estrangeiro. Isso às vezes se entranha nos delírios de perseguição que já estão aí funcionando no nosso lado social. Acho que o Brasil está em uma situação muito desvantajosa em relação a outros lugares pela situação de polarização”, opina

Segundo o professor, outra coisa bastante complexa, mas necessária de ser trazida à discussão, é que todos nós vamos ficar mais pobres. Temos menos produção e as pessoas que vivem na informalidade viverão um perigo maior, inclusive de sofrer efeitos secundários da quarentena, como dificuldades de se alimentar, e isso pode levar a um aumento da violência. “Esse é o lado pior. Mas, no aspecto positivo, quero crer que essa situação possa nos ajudar a reformular completamente nossos pactos de trabalho e financeiros”, sugere.

Dunker diz que estamos vivendo em uma anomia (suspensão da ordem normal) e isso deve afetar e deve valorizar as novas formas de contratos que podemos estabelecer com funcionários, patrões, ciclo produtivos etc. E isso não se resume a trabalhar ou dar aulas de casa. Vai muito além, pois é uma situação que vai durar muito tempo e vamos ter de nos preparar para isso, inclusive, reduzindo nossas expectativas de gastos e de ganhos, e entender isso como um processo comum a todos.

Para o professor, vamos ter a oportunidade de ver a civilidade e a incivilidade da barbárie que já estava aí no país. Ele lembra que os esforços civilizatórios ainda podem ser tomados e as guerras – uma boa metáfora para o enfrentamento ao coronavírus – sempre trouxeram grandes avanços tecnológicos, inicialmente, na área da defesa, mas que depois foram integrados à sociedade.

Dunker destaca que, atualmente, há um esforço para disciplinar a população, de fazer ela obedecer as orientações das autoridades de saúde e incorporar a ideia de que a quarentena está sendo feita para o bem coletivo e não individual. Para ele, estamos em uma circunstância que pode ser educativa para o nosso país.

Como diz Freud, [Sigmund Freud (1856-1939), médico psiquiatra austríaco criador da psicanálise] é uma situação que pode convocar os nossos fantasmas para a gente bater um papo com eles e resolver assuntos pendentes.”

Ebola, SARS e quarentena

No dia 14 de março, a revista científica The Lancet publicou a revisão The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Dentre 3166 artigos das bases Medline, PsycINFO e Web of Science analisados por pesquisadores do King’s College (Reino Unido), foram selecionados 24 estudos realizados em dez países sobre pessoas que passaram por quarentena em função da SARS, ebola, influenza H1N1, síndrome respiratória do Oriente Médio, e de influenza equina.

A revisão mostrou que a quarentena pode trazer impactos psicológicos negativos, como estresse pós-traumático, confusão e raiva, entre outros. Dentre os fatores que levam ao estresse, os artigos destacam uma maior duração da quarentena, medos de infecção, frustração, tédio, suprimentos inadequados, perdas financeiras e estigmas. O texto destaca a importância de uma comunicação rápida e eficaz, de as pessoas em quarentena entenderem o porquê da situação, e os benefícios do isolamento, entre outras considerações.

Dunker ressalta a qualidade dos artigos, mas aponta algumas diferenças em relação ao que está ocorrendo na sociedade brasileira, pois estamos enfrentando algo completamente distinto. Uma delas é o tempo de duração da quarentena. Um ou outro artigo da revisão citava períodos de 20 ou 30 dias. Aqui no Brasil, há estimativas de que a quarentena deve ultrapassar esse período.

Outro ponto são as doenças analisadas, entre elas SARS e ebola, muito diferentes da covid-19. No caso da ebola, cuja letalidade é muito alta, Dunker lembra da variável cultural, pois os casos ocorreram em países africanos, onde a sociabilidade é diferente, e o agrupamento, a presença e o convívio com a família são bem distintos do restante do mundo.

Fonte: Jornal da USP

Tecnologias do Futuro #05 – Futuro do diagnóstico de doenças intestinais é uma pílula

Para a professora Carla Taddei de Castro Neves, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, sonda gastrointestinal representa avanço por ser um exame não invasivo que elimina biópsias e intervenções mais agressivas

Por Denis Pacheco – Editorias: – URL Curta: jornal.usp.br/?p=268256

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Em 2015, o patologista e engenheiro Guillermo Tearney lançou, na Universidade Harvard, uma sonda pequena o suficiente para ser engolida, capaz de captar imagens detalhadas do intestino sem exigir anestesia. O dispositivo, em formato de pílula, tem o potencial de facilitar o rastreamento e o estudo de doenças intestinais.

Para a professora Carla Taddei de Castro Neves, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, que estava presente no lançamento da sonda, a invenção representa um “tremendo ganho diagnóstico” por ser um exame não invasivo que elimina biópsias e intervenções mais agressivas em pacientes. De acordo com ela, a cápsula tem a tecnologia para analisar em tempo real todo o tecido gastrointestinal, permitindo aos médicos não apenas a redução do tempo de diagnóstico, mas uma maior capacidade de precisão e especificidade na identificação da doença.

No futuro, afirma a docente, a cápsula poderá ser o ponto de partida para uma série de descobertas. “A gente sabe que a microbiota intestinal, por exemplo, tem uma relação muito grande com doenças como a obesidade, diabete e com o câncer. Talvez, no futuro, a gente possa desenvolver metodologias que possam analisar alguns grupos bacterianos em tempo real”, teoriza ela.

Para a especialista, “a ciência está caminhando muito rapidamente para que a gente consiga desenvolver técnicas cada vez mais sensíveis e específicas para melhorar o diagnóstico de várias doenças”.

Ouça a matéria completa acima.

Fonte: Jornal da USP

 

 

Para um mundo mais sustentável, é preciso diminuir o consumo de carne

Grupo da Faculdade de Saúde Pública da USP traz dados e dicas sobre como assumir uma alimentação sustentável e acessível

Por Yasmin Oliveira – Editorias: Universidade – Jornal da USP

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O ideal é substituir a carne por leguminosas, ovos e comer mais cereais integrais no dia a dia – Foto: Reprodução Sustentarea

Pelo bem do meio ambiente, você deveria reduzir seu consumo de carne. Pelo menos, é o que recomenda o Manifesto Sustentarea, documento produzido pelo Núcleo de Apoio às Atividades de Cultura e Extensão da USP (Nace) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em São Paulo.

O manifesto traz recomendações de hábitos saudáveis e sustentáveis, além de informações sobre o assunto. O grupo é formado por alunos de graduação, pós-graduação e profissionais da saúde que são responsáveis pela disseminação do conteúdo.

O documento é direto: o maior problema é um alimento comum à mesa. Estudos do grupo revelam que o brasileiro come mais carne vermelha e processada do que deveria – muito mais do que a média recomendada. Também deixa de lado verduras e legumes.

O problema é que a produção de carne bovina tem impactos significativos para o meio ambiente. “Gera gases de efeito estufa, devastação de florestas e consome grande quantidade de água”, comenta a nutricionista Aline Carvalho, coordenadora do grupo. “É o ponto principal, porque representa 50% do impacto ambiental da dieta.”

Cópia de Manifesto
Capa do Manifesto Sustentarea – Foto: Reprodução

Na saúde, o consumo exagerado aumenta o risco de câncer, como diz estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS). O ideal é substituir por leguminosas, ovos e comer mais cereais integrais no dia a dia, como pão ou arroz. Para quem não quer abandonar a carne vermelha, o Sustentarea aconselha o consumo de até 500 gramas por semana.

Entretanto, o problema não é apenas a carne processada, mas a maneira que a produzimos e consumimos como um todo. “Se continuarmos consumindo do jeito que fazemos hoje, não haverá recursos suficientes para todos em 2050”, explica Aline, baseada em um artigo produzido em Harvard e publicado na revista The Lancet.equipe-sustentarea

Equipe do projeto de extensão Sustentarea coordenando pela nutricionista Aline Martins de Carvalho – Fotos: Cedidas pela Equipe Sustentarea

Como mudar o hábito e a alimentação?

O grupo reconhece que convencer as pessoas a mudar seus hábitos é um processo lento e difícil. Por isso, o manifesto traz o capítulo “O que você pode fazer?” para aproximar o leitor de uma rotina mais sustentável. As recomendações são simples, como evitar desperdícios ou prestar atenção nos rótulos de alimentos.

O Sustentarea também procura outras medidas práticas, como lançamento de revistas on-line de receitas sazonais, que priorizam pratos sem carne e com motivos para sua recomendação. Para Aline, essa é uma forma prática de disseminar informação de qualidade na mesa do brasileiro.

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Livros de receita e revista ajudam público a mudar hábitos – Foto: Reprodução

Apesar de ser difícil abandonar todos os alimentos industrializados em rotinas cansativas, é possível avaliar o que se compra de uma forma mais crítica, avaliando como foi produzido e o número de químicos na composição. Quanto mais natural, melhor. A nutricionista também recomenda que se cozinhe mais – uma forma de se conectar com o alimento.

“Quando a população se empodera desse conhecimento, tece o caminho para um futuro sustentável”, finaliza.

Cópia de Manifesto

Mais informações: FSP – USP

Você gosta de ouvir Bach? Os porcos também

Música diminuiu brigas entre os suínos em experimento; animais também consumiram menos ração mantendo ganho de peso normal
Por Ane Cristina – Editorias: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas

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A música foi escolhida com base em referencial teórico, o que era necessário por ser validação de um novo método – Foto:Heribert Duling via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 de

Suínos tiveram uma melhoria em seu bem-estar, algumas mudanças de comportamento e até apresentaram alterações alimentares ao ouvir música clássica. Esses foram os resultados da tese de doutorado Enriquecimento sensorial do ambiente buscando o bem-estar de suínos, realizada por Érica Harue Ito, com orientação de Késia Oliveira da Silva Miranda, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

Segundo a zootecnista, houve uma diminuição dos comportamentos agonísticos (brigas e perseguições) e um aumento nos comportamentos lúdicos (brincadeiras e interações entre eles) nos animais que ouviram o prelúdio da Suíte nº1 em Sol Maior para Violoncelo (BWV 1007), composta pelo alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Você pode ouvir a versão tocada para os porquinhos clicando aqui.

Outro fator observado pela pesquisadora foi o consumo de ração e ganho de peso. Érica diz que ficou surpresa em perceber que os porcos que ouviram música tiveram o mesmo ganho de peso consumindo uma quantidade menor de ração. Ela ressalta a importância dessa descoberta para o produtor de suínos: “50% do custo da produção de suínos é a ração. A melhora de 1% disso faz uma diferença muito grande para produtores de animais, que ganham em centavos.”

50% do custo da produção de suínos é a ração. A melhora de 1% disso faz uma diferença muito grande para produtores de animais, que ganham em centavos.

O estudo buscou validar o uso em campo aberto do método conhecido como enriquecimento sonoro. Em ambiente fechado, essa técnica já é melhor pesquisada e oferece a possibilidade de controlar fatores como temperatura e umidade. Em um campo aberto, esses fatores podem apenas ser monitorados. A música foi escolhida com base em referencial teórico, o que era necessário por ser validação de um novo método. “Como eu estava validando uma metodologia em instalações abertas, eu tinha que seguir alguma coisa que já existia na literatura. Pesquisei sobre rock, pagode, mas não encontrei nada. Por mim, eu colocaria”, comenta a pesquisadora.

A pesquisa foi feita com os porcos divididos em duas baias, que ficavam lado a lado, separadas por uma parede. A baia tratamento ouvia música, enquanto a baia controle não. A intensidade e a frequência do som foram monitoradas e a temperatura dos animais também, para garantir que não estavam com nenhuma doença. Os suínos ouviram a música durante um mês e a pesquisadora coletava dados a cada hora.

Segundo a zootecnista, para entender o mecanismo que levou a música a influenciar no consumo de ração e consequente ganho de peso dos animais, seria necessária uma pesquisa multidisciplinar, com psicólogos e neurocientistas. “Nós sabemos como é que a música influencia os seres humanos. Mas como influencia os animais? Será que ativa as mesmas regiões cerebrais que ativa em nós? Não há pesquisas sobre isso.”

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Porcos que ouviram música tiveram o mesmo ganho de peso consumindo uma quantidade menor de ração. Essa é uma importante descoberta para os produtores de suínos – Foto: Alexas_Fotos/CC0 Creative Commons via Flickr

Érica comenta que o estudo é apenas parte de um quebra-cabeça, pois além de faltar entender como a música afeta os animais, há também a possibilidade de se testar outros gêneros musicais e avaliar se possuem o mesmo efeito. Ela pretende continuar pesquisando, mas ressalta que provavelmente será mais difícil agora, por ser bolsista da Capes (Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que, no início deste mês anunciou uma possível suspensão no pagamento de bolsas e a interrupção de programas de fomento à pós-graduação no País. “É um pouco difícil, ainda mais agora, com os problemas de bolsa e financiamento. Então os recursos vão ser prioritários para a área de saúde, para o que é ‘considerado importante’. Eu sei que vai ficar mais difícil agora, mas o intuito é continuar”, avalia a pesquisadora.

A aplicação direta da pesquisa seria para os produtores de animais, que podem utilizar a música, um recurso barato, ao qual todo mundo tem acesso, e se mostrou eficiente. Para além disso, fica a reflexão para a sociedade: “É muito fácil alguém que é leigo no assunto ter um cachorro ou um gato de estimação e entender que aquele animal sofre, sente fome, precisa de carinho e tem sentimentos. Mas é muito difícil ainda, para a grande maioria das pessoas, entender que a vaca que dá leite, o porco que dá carne, a galinha que dá ovo, também têm esses mesmos sentimentos”, afirma Érica. Sendo assim, nada mais justo do que buscar situações que proporcionem aos bichos viverem, se reproduzirem e crescerem de maneira agradável e de forma ética.

Você pode ter acesso à versão simplificada da tese Enriquecimento sensorial do ambiente buscando o bem-estar de suínos clicando aqui.

Mais informações: e-mail ericaito@usp.br com Érica Harue Ito

Fonte: Jornal da USP

 

Falta de sono pode prejudicar controle dos movimentos do corpo

“Jetlag social” causado por privação de sono no dia a dia pode provocar problemas de atenção em tarefas simples

Por Júlio Bernardes – Editorias: Ciências/Jornal da USP

 

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Obrigações sociais reduzem os períodos de sono, o que pode levar a problemas de atenção e concentração, além de mudanças abruptas nos horários de dormir e sonolência, fenômeno que é conhecido como “jetlag social”- Foto: Faisal Akram via Wikimedia Commons/CC 

A falta de sono no dia a dia também pode causar problemas de atenção e concentração em pessoas aparentemente saudáveis, fenômeno conhecido como “jetlag social”, comprova pesquisa com participação da Escola Politécnica (Poli) da USP. Em testes realizados com estudantes, o desempenho em tarefas simples que exigem controle dos movimentos do corpo era melhor às segundas-feiras, após as horas de sono compensadas no final de semana. A descoberta pode ajudar a entender quais as áreas do cérebro são afetadas pela privação de sono, comprometendo o controle corporal.

O professor Arturo Forner Cordero, que coordenou a pesquisa, conta que o Laboratório de Biomecatrônica da Poli estuda a modelagem do controle motor humano para a aplicação em robôs e exoesqueletos. “Para isso, são realizadas experiências de controle motor, como, por exemplo, simular tarefas de aprendizado, controle dos movimentos das mãos, em caminhadas e de postura”, diz. “Esses testes costumam ser realizados com alunos de graduação. Em determinados períodos, como no final dos semestres letivos, porém, o desempenho dos estudantes era ruim e não havia ideia do motivo.”

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Um dos experimentos realizados em pessoas com restrição de sono realizados na Poli é um teste de aprendizagem no qual é preciso apontar alvos projetados por um computador com o dedo – Foto: Cedida pelo pesquisador

Os pesquisadores realizaram um experimento com alunos do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais, em Barbacena. “Os estudantes utilizaram durante nove dias um actímetro, um relógio de pulso que mede a atividade física e distingue os períodos de sono, repouso, vigília e atividade, os quais são registrados em um gráfico”, explica o pesquisador Guilherme Umemura, que integrou o grupo de estudos. “Também foram aplicados questionários sobre hábitos diários, para complementar a avaliação sobre restrições de sono.”

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Na sequência acima, etapas da realização do teste de aprendizagem realizado no Laboratório de Biomecatrônica da Poli – Foto: Cedida pelo pesquisador

Nas sextas e segundas-feiras foram realizados testes de controle postural. “Os participantes eram instruídos a ficarem em cima de uma plataforma e eram submetidos a vários desafios estáticos e dinâmicos, como abrir e fechar os olhos”, diz Umemura. “O corpo humano, quando está em pé, nunca está totalmente parado, ele se movimenta em várias direções, e isso envolve mecanismos de controle do cérebro, como os da visão e da audição, por isso é importante o controle postural”, explica o professor.

“Jetlag” social

Os experimentos mostraram que o desempenho no controle postural era melhor na segunda-feira, depois do final de semana. “Acredita-se que as obrigações sociais reduzem os períodos de sono, o que pode levar a problemas de atenção e concentração, além de mudanças abruptas nos horários de dormir e sonolência. Esse fenômeno é chamado de ‘jetlag social’”, aponta Umemura.

“Nos finais de semana, em geral há uma compensação das horas de sono e, coincidentemente, o desempenho nos testes era melhor”, ressalta o pesquisador. “As comparações entre as respostas dos questionários e os gráficos de atividade e repouso revelaram uma diferença de aproximadamente duas horas entre o tempo de sono considerado ideal pelos alunos e a quantidade de sono apurada nos gráficos.”

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Actímetro (à esquerda), aparelho em formato de relógio de pulso que registra os períodos de sono, repouso, vigília e atividade ao longo do dia, os quais são mostrados em um gráfico (à direita) – Imagem: Cedida pelo pesquisador

De acordo com o professor, a hipótese para explicar o problema é que as áreas do cérebro mais sensíveis à privação do sono são as responsáveis pela cognição e pela integração sensorial. “Essas áreas são o córtex pré-frontal, responsável pela cognição e o planejamento motor; o tálamo, que da integração sensorial, que teria sua atividade diminuída”, descreve, “e o cerebelo, que faz o controle em tempo real do movimento; em resumo, todos esses processos possivelmente estão envolvidos no déficit motor.”

Forner Cordero alerta que é surpreendente encontrar problemas de controle postural em pessoas jovens e saudáveis, mas que não percebem a privação de sono. “Este não foi um estudo em que as pessoas ficam sem dormir, elas pensam que estão dormindo bem, mas a diferença no controle postural é significativa”, ressalta. “Também não são pessoas com restrições declaradas de sono, como trabalhadores de turnos. O estresse na qualidade e na quantidade do sono possivelmente traz malefícios ainda piores, como o aumento do risco de quedas, acidentes laborais e de trânsito.”

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Equipamento utilizado em testes de controle postural – Foto: Cedida pelo pesquisador

O estudo é descrito no artigo Social jetlag impairs balance control. Escrito por Guilherme Silva Umemura, João Pedro Pinho, Bruno da Silva Brandão Gonçalves, Fabianne Furtado e Arturo Forner Cordero, o texto foi publicado na revista Scientific Reports em 21 de junho. Além dos testes relatados no estudos, outros experimentos para avaliar desempenho motor e aprendizagem em pessoas com restrições de sono estão em andamento.

Fonte: Jornal da USP

 

Mulheres que vivem relacionamentos abusivos não seguem padrão

Estudo que buscou o porquê de mulheres permanecerem nessas relações concluiu a impossibilidade de classificá-las

Por Ane Cristina

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Em 2014, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou erroneamente um dos resultados da pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres. Na época, o órgão federal informou que 65% dos entrevistados concordavam com a afirmação “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

A veiculação da notícia gerou uma série de protestos nas redes sociais que denunciavam o machismo na sociedade brasileira, dentre eles a campanha Eu não mereço ser estuprada. Na semana seguinte o Ipea corrigiu o dado, informando que a porcentagem de 65% se referia à afirmação “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. A correção não gerou a mesma repercussão que a afirmação incorreta causou, mostrando o “pouco espanto” em relação à violência contra a mulher nas relações de conjugalidade.

Fabiana de Andrade pesquisou durante quatro anos o que faziam as mulheres que sofriam violência doméstica permanecerem ou saírem de uma relação violenta. Dentre suas conclusões, está a similaridade das narrativas de violência, a impossibilidade de classificar essas mulheres e a formulação de Pedagogias do Cuidado de Si, ferramentas de mudança de pensamento e de conduta.

Autora da tese de doutorado Mas vou até o fim: narrativas femininas sobre experiências de amor, sofrimento e dor em relacionamentos violentos e destrutivos, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ela acompanhou e conversou com mulheres que passavam ou tinham passado por relacionamentos destrutivos em três locais diferentes. Ela esteve no Mulheres que Amam Demais (Mada), em Campinas, grupo de autoajuda formado por mulheres que sofrem por amar demais. O espaço existe há muito tempo e segue os moldes do Alcoólicos Anônimos (AA).

Também em Campinas, a pesquisadora conheceu o Centro de Referência e Apoio à Mulher (Ceamo), serviço fornecido pelo município que tem o objetivo “de acolher e prestar atendimento psicológico, social e orientação jurídica à mulher em situação de violência de gênero no âmbito doméstico, visando romper o ciclo da violência através de atendimento individual, familiar ou em grupo”. Ela também foi a Paris, onde seu objeto de estudo foi a associação francesa Libres Terres des Femmes (LTDF), que assim como o Ceamo acolhia mulheres em situação de violência, mas não fazia parte de uma política pública, sendo dependente de outras verbas.

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Pedagogias do Cuidado de Si

Fabiana selecionou as quatro principais ferramentas discutidas nos grupos que visavam à mudança de pensamento e de conduta, chamando-as de Pedagogias do Cuidado de Si. “Eu chamei dessa maneira porque entendi que esses grupos funcionavam como espaços pedagógicos de produção de um outro olhar sobre estar no mundo, de produção de desejos, de coisas que as mulheres queriam na vida delas, porque eu observei que nesses espaços muitas das mulheres tinham uma forma de viver e de estar no mundo que era voltado para o bem-estar do outro”, conta a pesquisadora.

Questionamento das normas de gênero e sexualidade

No Ceamo e no LTDF falava-se muito sobre a existência de papéis diferentes para homens e mulheres, que pode tornar aceitável uma situação de violência para a mulher. No Mada eram apresentadas as normas do homem como “príncipe encantado” e “provedor da casa”.

Controlar excessos

Principalmente no Mada existia a ideia de que o “excesso” de controle da conduta do outro era muito perigoso: querer saber onde o outro está, o que ele pensa, querer provas de amor, ligá-lo compulsivamente. “A ideia do controle dos excessos era começar a criar formas de aprender a estar sozinha, saber que o sucesso amoroso não depende que o casal seja uma pessoa só, a importância da liberdade do outro e delas” explica Fabiana.

Uma mulher empoderada empodera outra mulher

No Ceamo e no LTDF, o termo “sororidade” era muito utilizado, ressaltando a importância de que mulheres entendam que não são inimigas. No Mada, o termo usado era “irmandade”. Os três grupos tentavam passar a ideia de que mulheres não devem competir entre si, uma vez que tal competição é mais um resultado da cultura machista.

Autoconhecimento

As mulheres buscavam o autoconhecimento para entender qual seu lugar numa cultura machista e poder questionar essa cultura. Nos grupos, elas percebiam que não sabiam sequer do que gostavam de fazer, por não se conhecerem. O autoconhecimento produziria uma outra maneira de olhar para si mesmas e de estar no mundo.

Fonte: Jornal da USP

 

Suco de laranja tem potencial para equilibrar a microbiota intestinal

Ingestão de suco das variedades baía e cara-cara aumentou o número de bactérias benéficas ao organismo

Por Redação Jornal da USP – Editorias: Ciências da Saúde

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Laranja cara-cara: mudanças na composição da microbiota intestinal – Foto: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/Embrapa

O primeiro estudo mundial sobre os efeitos do suco de laranja das variedades baía e cara-cara no intestino humano foi conduzido por uma pesquisadora italiana no Brasil, a bióloga Elisa Brasili, ligada ao Centro de Pesquisa em Alimentos (Food Research Center – FoRC), sediado na USP. E os resultados são animadores: a ingestão desses sucos produz mudanças benéficas na composição da microbiota intestinal.

A pesquisa, fruto de seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, é assunto de artigo que está em avaliação por periódicos internacionais influentes. A ideia foi entender como uma intervenção dietética incluindo o alimento altera a microbiota.

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Ingestão de suco aumentou quantidade de bactérias benéficas ao organismo humano – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Após a ingestão do suco de laranja baía foi observado um aumento das famílias de bactérias Veillonellaceae e Ruminococcaceae que possuem diversas funções benéficas ao organismo humano, incluindo a redução das patologias inflamatórias intestinais”, conta a pesquisadora. “O que posso afirmar é que o aumento destas famílias de bactérias, que pertencem à classe Clostridia, é um bom resultado”, acrescenta. Hoje se sabe que a classe Clostridia não é composta apenas de bactérias patogênicas, como aquela que causa o botulismo. Algumas têm efeitos positivos no intestino, auxiliando na manutenção de suas funções e em seu equilíbrio.

Já após a ingestão do suco de laranja cara-cara foi observado um aumento significativo nas famílias das bactérias Mogibacteriaceae e Tissierellaceae, cuja abundância relativa se encontra alterada em várias doenças, tais como a doença de Parkinson. A pesquisadora conta que apesar da cara-cara ainda não ser uma variedade comercializada, há empresas investindo na produção do suco para que se conheça melhor sua composição.

“A laranja cara-cara tem um conteúdo muito grande de licopeno, um carotenoide não muito comum nas laranjas. A presença de elevada quantidade de licopeno nos fez pensar que a utilização dessa laranja poderia surtir um efeito diferente das outras. E a mudança que ela operou na microbiota dos voluntários demonstrou isso”.

O licopeno é muito comum em outras frutas, como os tomates, e apresenta atividades anticâncer e anti-inflamatória. Segundo Elisa, em pessoas com câncer ou com obesidade a presença dessas bactérias na microbiota é menor.

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Estudo avaliou também efeitos do suco da laranja do tipo baía – Foto: Brandizii/Wikimedia Commons

Para chegar a esses resultados, Elisa Brasili trabalhou com 21 voluntários, todos saudáveis, com idade entre 20 e 43 anos, homens e mulheres. Primeiro ela caracterizou a microbiota intestinal de cada um e depois ministrou os sucos em diferentes períodos, de forma randomizada, analisando a microbiota após uma semana de ingestão de cada uma das bebidas. Cada usuário ingeriu 500 mililitros (ml) de suco diariamente.

Os sucos de laranjas são ricos em substâncias que trazem efeitos muito positivos à saúde humana, entre eles a hespiridina, um antioxidante. Elisa decidiu analisar a microbiota intestinal porque é onde os compostos bioativos são metabolizados.

A pesquisadora destaca, porém, que a mudança operada na microbiota com a ingestão dos sucos de laranjas baía e cara-cara é transitória. Quando o indivíduo muda de novo seu padrão de dieta, a microbiota se altera novamente. “É como tomar probióticos. Quando você ingere, há benefícios. Quando para de tomar, os benefícios diminuem.”

Segundo ela, o passo seguinte é investigar, nos próximos anos, a possibilidade de indicar o consumo de suco de laranja para ajudar a equilibrar a microbiota de populações ou indivíduos que tenham a composição da sua microbiota intestinal alterada, como os que sofrem de doenças inflamatórias intestinais crônicas e os obesos.

Com informações da Assessoria de Comunicação do Forc

Cães lambem a própria boca diante de emoções negativas, diz estudo

Quando esse comportamento ocorre longe da alimentação, é sinal de que o cão está percebendo uma emoção negativa

Por Valéria Dias – Editorias: Ciências Biológicas / Jornal da USP

É muito comum cães apresentarem o comportamento de lamber a própria boca (mouth-licking, em inglês). Se isso ocorre quando o cão está prestes a ser alimentado ou diante de um alimento, trata-se de algo ligado à salivação e ao desejo de comer. Entretanto, muitos cães apresentam esse mesmo comportamento em situações não associadas ao ato de alimentar-se. Um artigo publicado por pesquisadores do Instituto de Psicologia (IP) da USP na revista Behavioural Processes ajuda a entender por que isso ocorre.

“Nosso estudo constatou que quando os cães percebem algo negativo que afeta o próprio estado emocional deles (possivelmente também de forma negativa), eles apresentam um sinal visual, que é o ato de lamber a própria boca”, revela a autora do estudo, a bióloga Natalia de Souza Albuquerque, que está desenvolvendo a pesquisa para seu doutorado.

“Quando nós, seres humanos, vemos alguém com um rosto fechado, com uma cara de bravo, isso pode mudar nosso estado interno. Com os cães parece ocorrer algo semelhante.”

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Foto mostra a captura de um vídeo gravado anteriormente por Natalia, onde um cão lambe a própria boca. O vídeo foi gravado durante o mestrado da pesquisadora pela Universidade de Lincoln, no Reino Unido. O estudo avaliou o reconhecimento de emoções faciais por cães – Foto: Cedida por Natalia de Souza Albuquerque

O estudo contatou que os cães lambem a própria boca a partir de um contato visual com uma expressão negativa seja de um homem, de uma mulher ou de um outro cão. Entretanto, nos estudos realizados pela bióloga, o mouth-licking ocorreu predominantemente a partir da visualização de uma imagem de expressão negativa de um ser humano (homem ou mulher), mas independentemente da emissão de algum som indicativo de emoção. Veja aqui vídeo mostrando a reação de um cão diante da imagem de uma mulher brava.

“O fato de expressar mais esse comportamento para seres humanos e estar relacionado apenas com o visual e não auditivo nos faz acreditar que esse comportamento foi selecionado durante a domesticação, ao longo do processo de evolução, para facilitar a comunicação entre cães e pessoas”, destaca a pesquisadora. Entretanto, Natalia faz uma ressalva: ainda não há informações comprovando que os cães fazem isso de forma intencional, ou seja, com a intenção de comunicarem o que sentem aos seres humanos. “Talvez em estudos futuros nós consigamos desvendar, mas, por enquanto, não temos essa informação e não podemos falar a respeito.”

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Na pesquisa de mestrado, os cães foram expostos a imagens de homens, mulheres e cães com expressões faciais de raiva e de alegria, além de sons que poderiam ser positivos, negativos ou neutros. A pesquisadora constatou que os cães reconheciam o conteúdo emocional desses estímulos – Foto: Cedida por Natalia de Souza Albuquerque

Segundo a bióloga, existe uma literatura que associa o mouth-licking a respostas ao estresse no cão. Mas esse comportamento nunca havia sido avaliado sistematicamente por meio de estudos científicos. Natalia destaca que há muitas informações circulando sobre comportamento de cães sem real fundamentação teórica.

Como exemplo, a pesquisadora cita um desses mitos: o de que, ao balançar o rabo, o cão está sinalizando amizade e que podemos nos aproximar dele. “Atualmente, estudos têm mostrando que balançar o rabo pode sinalizar diversas coisas, como agressividade, frustração e felicidade.”

“Isso mostra que não é algo tão simples e não compreender verdadeiramente esses comportamentos pode até ser perigoso, pois o cão pode balançar o rabo por se sentir acuado e estar sinalizando que não quer uma aproximação”, alerta a pesquisadora.

Cães reconhecem expressões faciais

Para chegar à conclusão de que o mouth-licking expressa uma reação do cão a emoções negativas, Natalia analisou vídeos que ela havia gravado anteriormente durante uma pesquisa sobre reconhecimento de emoções faciais por cães, em seu mestrado pela Universidade de Lincoln, no Reino Unido. Os testes foram realizados com 17 animais e as filmagens resultaram em 34 horas de vídeos, que foram analisados quadro-a-quadro. (Leia aqui o artigo publicado sobre este estudo.)

Neste estudo anterior, os cães foram expostos a imagens de homens, mulheres e cães com expressões faciais de raiva e de alegria. No momento da exposição era tocado um som (vozes de humanos e latidos de cachorros), durante 5 segundos (mesmo tempo de apresentação das imagens), e que poderia ser positivo, negativo ou ser um som neutro.

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Agora, em seu doutorado, Natalia analisou os vídeos novamente e percebeu que o mouth-licking está relacionado à percepção que os cães têm de emoções negativas de seres humanos – Foto: Cedida por Natalia de Souza Albuquerque

A pesquisadora analisou o comportamento dos cães, observando o movimento dos olhos e da cabeça dos animais. Ela constatou que eles reconheciam o conteúdo emocional do estímulo. Diante de um som positivo, os cães passavam mais tempo olhando para a imagem correspondente a essa emoção. E o mesmo acontecia para estímulos negativos. (Leia aqui reportagem publicada sobre esta pesquisa.)

Ao fazer uma codificação detalhada dos vídeos, Natalia percebeu que era comum os cães apresentarem o comportamento de mouth-licking. As análises atuais, então, mostraram que o mouth-licking está relacionado à percepção de emoções negativas, de seres humanos, transmitidas pelo canal visual. Esses novos dados dessa nova análise fazem parte da tese de doutoramento em desenvolvimento pela pesquisadora no Instituto de Psicologia (IP) da USP. A orientação do trabalho é da professora Briseida Dôgo de Resende, além da colaboração do grupo de pesquisadores da Universidade de Lincoln. A previsão de defesa é 2019.

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Mais informações: natalia.ethology@gmail.com, com a bióloga Natalia de Souza Albuquerque

Fonte: Jornal da USP

 

 

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Presença de árvores reduz casos de câncer de pulmão em idosos

Estudo observou a relação entre arborização, material particulado e casos de câncer de pulmão em São Paulo

Por Larissa Lopes – Editoria: Ciências Ambientais

Pesquisas feitas no exterior já têm mostrado como as árvores urbanas afetam a qualidade do ar. Um estudo da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, por exemplo, concluiu que prédios cobertos por plantas poderiam diminuir em até 30% a poluição de uma cidade.

Agora a bióloga Bruna Lara de Arantes mostra, em seu mestrado, defendido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, a relação entre arborização, material particulado e casos de câncer de pulmão em idosos na cidade de São Paulo.

O estudo aponta que a presença de árvores diminui a quantidade de material particulado no ar. Em consequência disso, foi observada também uma redução nos casos de doenças respiratórias.

Para chegar a esse resultado, a pesquisadora cruzou dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), através de um convênio firmado com a professora Thaís Mauad e a médica Tiana Lopes.

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Regiões mais centrais da cidade são mais ocupadas por construções, enquanto que regiões mais afastadas têm mais árvores – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Basicamente nós escolhemos as estações de monitoramento do ar da Cetesb que estavam medindo material particulado em 2010”, explica Bruna. “O material particulado é um dos poluentes que mais afetam a respiração humana e também um dos mais absorvidos pelas plantas. Isso acontece porque ele tem um tamanho microscópico, de 10 microgramas por centímetro cúbico (µg/cm³), o que permite que ele passe pela nossa respiração sem ser filtrado.”

Além dos dados coletados pela Cetesb, Bruna passou a analisar como o entorno das estações de monitoramento é ocupado. Verificou se havia mais asfalto, construções, árvores ou gramado, identificando as espécies de plantas que habitam um raio de 100 metros da estação.

Em seguida, Bruna usou programas estatísticos para observar como as mortes por câncer de pulmão em idosos estavam distribuídas pela cidade e se tinham alguma relação com os dados atmosféricos encontrados pela Cetesb.

Mortes pela poluição

“Os dados apontam que a forma como você ocupa o solo na cidade influencia em 17% os casos de morte por câncer de pulmão em idosos”, afirma Bruna. Outros fatores de risco que devem ser considerados são a genética e o estilo de vida dos idosos.

O estudo também encontrou uma relação entre a ocupação da cidade por relvado ou asfalto e a região no município. Regiões mais centrais são mais ocupadas por construções, enquanto que regiões mais afastadas têm mais árvores. “Esse padrão já era observado na literatura da área, mas não havia dados quantitativos como os desta pesquisa”, ressalta.

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O material particulado é um dos poluentes que mais afetam a respiração humana e também um dos mais absorvidos pelas plantas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Com os dados, foi possível concluir também que quanto mais afastado do centro da cidade e quanto maior for a quantidade de plantas no local, menos casos de câncer de pulmão são encontrados. “A saúde dessa população é favorecida”, pontua Bruna.

Ainda sim, a pesquisadora lembra que, pelo caráter exploratório da pesquisa, são necessários novos estudos sobre o assunto para afirmações mais concretas.

Segundo uma pesquisa publicada pela revista The Lancet, a poluição do ar foi responsável por mais de 70 mil mortes no Brasil.

Soluções

Além da importância acadêmica, o estudo também é de interesse da gestão pública. “Esses dados nos trazem evidências que, ao aumentar as áreas urbanas de gramados e árvores, há uma diminuição significativa da poluição do ar por material particulado”, defende a pesquisadora.

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O estudo encontrou uma relação entre a ocupação da cidade por relvado ou asfalto e a região no município – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Segundo o estudo, o aumento de 1% de gramado na cidade é capaz de diminuir 0.45 μg/cm³ de material particulado. Já o aumento de um metro quadrado de copa de árvore reduz 0.29 μg/cm³.

“A ação dos gramados está relacionada à possibilidade de maior circulação do ar, levando em conta que essas partículas são muito leves e facilmente dispersas”, explica. “Já as árvores agem como filtros de captação e absorção.”

A bióloga ainda destaca que regiões com muitas construções verticais ou bosques fechados podem ter pouca ventilação. Nesse caso, é interessante a substituição de prédios inutilizados pela construção de áreas de gramado, como parques, jardins e canteiros.

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Árvores diminuem a quantidade de material particulado no ar pois agem como filtros de captação e absorção – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mais informações: Bruna Lara de Arantes, e-mail blarantes@usp.br

Fonte: Jornal da USP