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Testes em animais estão em baixa no mundo dos cosméticos

Maria Inês Harris, especialista em segurança cosmética, comenta recentes avanços dos testes toxicológicos sem o uso de cobaias animais

Em 10 de setembro, a U.S. Environmental Protection Agency (EPA) anunciou que planeja colocar um fim à necessidade regulatória de testes toxicológicos em mamíferos até 2035. A decisão foi tomada após décadas de manifestação por parte das pessoas e entidades de luta pelos direitos dos animais, que apontam estudos que demonstram que hoje tais testes não são mais necessários para garantir a segurança dos consumidores.

“O mundo caminha na direção da criação de ativos e de produtos cosméticos desenvolvidos sob os mais altos critérios de segurança, sem o uso de testes em animais”, afirma Maria Inês Harris, Diretora Executiva do Instituto Harris e especialista em avaliação de segurança da área cosmética.

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O anúncio da EPA vem na sequência do anúncio do governo holandês de que acabaria com os testes em animais até 2025. De acordo com comunicado distribuído pela organização Peta (People for the Ethical Treatment of Animals), tais anúncios são fortes indícios da tendência mundial de erradicação dos testes em animais, e de que uma nova era de ainda maior segurança nos testes de toxicidade, sem uso de cobaias animais, está se iniciando.

Inovação do Brasil

No Brasil, acaba de ser inaugurado no Rio de Janeiro, em 9 de setembro, o primeiro laboratório de bioengenharia (filial da Episkin, subsidiária da L’Oréal) a produzir amostras de pele humana reconstruída para testes em cosméticos, como alternativa ao uso de cobaias animais. A operação ocorrerá no Centro de Pesquisa e Inovação, no campus do Fundão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trata-se da terceira no mundo, sendo as outras na França e na China.

Fonte: Maria Inês Harris é Diretora Executiva do Instituto Harris, Química com Ph.D. em Química (Unicamp) e Pós-Doutorado em Toxicologia Celular e Molecular de Radicais Livres (Unicamp) e em Lesões de Ácidos Nucleicos (CNRS, França) e é certificada no curso “Avaliação da Segurança dos Cosméticos na UE” (Universidade de Bruxelas, Bélgica). Atuou como gerente técnica de Pesquisa Clínica na Alergia Pesquisa Dermatocosmética, gerente de segurança de produtos da Natura e especialista em métodos HPLC (High Performance Liquid Chromatography) na Alcon Laboratórios. Também foi professora do Curso de Especialização em Cosmetologia das Faculdades Oswaldo Cruz (São Paulo) por 19 anos e coordenadora de Pesquisa Institucional da Universidade Bandeirantes (atual Anhanguera) no Brasil. É autora dos livros “Pele – Estrutura, Propriedades e Envelhecimento” e “Pele – do Nascimento à Maturidade”.

Nota da Redação: a notícia é boa, mas, convenhamos, 2025 me parece tão distante…

 

Conheça alternativas para evitar a utilização de animais em testes de cosméticos

Em 2019 entra em vigor a norma estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que proíbe a comercialização no Brasil de cosméticos e produtos de higiene pessoal que tenham sido testados em animais. “As empresas cosméticas deverão se adequar, dentro do prazo estabelecido, a fim de abolir totalmente os testes em animais. Dessa forma, será necessário que essas empresas se adaptem aos métodos alternativos reconhecidos para comprovar a segurança e eficácia do produto”, afirma Lucas Portilho, consultor e pesquisador em Cosmetologia, farmacêutico e diretor científico da Consulfarma.

Porém, com o final do prazo para adaptação cada vez mais próximo, começam a surgir dúvidas sobre como são realizados estes novos métodos. Segundo o especialista, o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) é o órgão responsável pelo reconhecimento de métodos alternativos, que consistem em eliminar o uso de animais, reduzir a sua necessidade ou diminuir o seu sofrimento.

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“Atualmente, os métodos alternativos para substituir os animais na pesquisa estão cada vez mais viáveis e eficientes. Uma destas metodologias é a tecnologia in vitro, que tem se mostrado uma das alternativas mais acessíveis para evitar o uso de animais em laboratório. Nesta técnica, células e tecidos são criados artificialmente para estudo, manipulação e teste de eficácia”, explica Portilho.

Outros métodos são a criação de pele artificial, que reproduz os mesmos tecidos biológicos da pele humana e pode ser utilizada para avaliar a toxicidade e a eficácia de novos compostos nas indústrias de cosméticos, e a bioimpressão em 3D, que permite a reprodução automatizada de tecidos humanos que imitam a forma e a função dos tecidos originais do organismo.

“Além disso, é importante ressaltar que os testes em animais não são 100% seguros, uma vez que o organismo humano responde de forma semelhante ao dos animais, porém não de forma idêntica. Um exemplo disso é que os camundongos não apresentam resposta imunológica ao níquel, mas esse componente é um dos maiores causadores de alergias em humanos”, alerta o pesquisador.

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Para saber se o produto que você está adquirindo não é testado em animais é importante checar a lista das empresas “cruelty free”, que é disponibilizada por certas ONGs, como o PEA (Projeto Esperança Animal), que indica quais empresas nacionais não promovem testes em animais. Além disso, checar o rótulo e ligar para o SAC da empresa também são métodos que podem ajudar a identificar quais produtos não são testados em animais. “É preciso lembrar que a norma da Anvisa não gera qualquer impacto no desenvolvimento de medicamentos e vacinas, pois se restringe ao teste de cosméticos e produtos de higiene pessoal”, finaliza Portilho.

Fonte: Lucas Portilho é consultor e pesquisador em Cosmetologia, farmacêutico e diretor científico da Consulfarma. Especialista em formulações dermocosméticas e em filtros solares. Diretor das Pós-Graduações do Instituto de Cosmetologia e Ciências da Pele, Hi Nutrition Educacional e Departamento de Desenvolvimento de Formulações do ICosmetologia. Atuou como Coordenador de Desenvolvimento de produtos na Natura Cosméticos e como gerente de P&D na AdaTina Cosméticos. Mestrando na Unicamp em Proteção Solar. Possui 18 anos de experiência na área farmacêutica e cosmética. Professor e Coordenador dos cursos de Pós-Graduação com MBA do Instituto de Cosmetologia e Ciências da Pele Educacional.

Dove é certificada como cruelty free

Selo foi concedido pela Peta e é válido em todos os produtos da marca

Dove anuncia que acaba de conquistar sua certificação global pela Peta – People for the Ethical Treatment of Animals – como sendo uma marca cruelty free, ou seja, que não faz testes em animais em toda a cadeia de fabricação de seus produtos. A partir do início de 2019, o selo de cruelte free passa a fazer parte da comunicação e das embalagens dos produtos Dove.

“Por mais de 30 anos usamos abordagens não-animais para avaliar a segurança de nossos produtos e ingredientes. E, após Dove anunciar uma política que proíbe qualquer teste deste teor em todo o mundo, estamos muito satisfeitos em dizer que nossos produtos agora carregam o selo ‘livre de crueldade’ da PETA. Essa é mais uma forma de garantir aos consumidores que a marca não faz testes em animais”, explica Sophie Galvani, vice-presidente de Dove Global.

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A obtenção do selo cruelty free é um reconhecimento importante do compromisso de Dove em não apenas em cuidar da pele e dos cabelos de mulheres, homens e bebês, mas também em zelar pelo planeta e por todos os envolvidos, incluindo animais.

“Mais do que nunca, as pessoas querem, e merecem, clareza sobre a produção e composição dos produtos que usam e admiram. O selo Peta para Dove é parte disso, além de ser também um passo importante para inspirar outras marcas a atuarem sobre a questão dos testes em animais em toda a indústria de cuidados pessoais e beleza”, diz a Galvani.

De acordo com Kathy Guillermo, vice-presidente sênior da Peta, “a organização tem o prazer de certificar uma marca de cuidados pessoais globalmente reconhecida, como Dove, como livre de teste em animais. Sabemos que os consumidores apreciarão o compromisso de Dove de terminar permanentemente estes testes em todo o mundo e, embora ainda haja muito a ser feito, esperamos que essa conquista inspire outras empresas e marcas de beleza a seguirem o exemplo”.

Essa conquista é só o início de um compromisso ainda maior da Unilever, dona da marca, que confirma apoio à proibição mundial de testes em animais para cosméticos. “Esse método foi proibido na Europa desde 2013, e esperamos que a adoção global acelere a aceitação regulamentar de abordagens alternativas e, assim, remova requisitos para testes em animais para cosméticos em qualquer parte do mundo”, comenta David Blanchard, diretor de P&D da Unilever.

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O trabalho da companhia sobre alternativas a este método e seu objetivo de promover a adoção de cruelty free também foi reconhecido pela Peta, que passa a listar a Unilever como uma “empresa que trabalha para a mudança regulatória”. Ou seja, indica que a companhia não tem a prática de realizar testes em animais para suas demais marcas, exceto em países que seja exigido por lei.

Como parte de seu acordo de apoiar a causa, a Unilever também fará parceria com a Humane Society International (HSI), organização global de proteção animal, para reforçar a iniciativa #BeCrueltyFree, cujo objetivo é divulgar reformas legislativas no mercado de beleza, proibindo testes em animais. Para isso, a Unilever ajudará no desenvolvimento de ferramentas que serão utilizadas em tomadas de decisões sobre segurança de produtos, usando métodos nos quais esses testes não sejam necessários.

“Estamos muito esperançosos de que, por meio da colaboração entre empresas, ONGs e órgãos regulatórios, em breve será possível avaliar a segurança de todos os produtos e cosméticos, sem qualquer necessidade de testes em animais”, concluiu Blanchard.

The Body Shop entrega abaixo assinado contra testes em animais à ONU

A influenciadora e youtuber Nátaly Neri será a representante brasileira da The Body Shop para entregar hoje, 4 de outubro, Dia Mundial do Animal, um documento contendo oito milhões de assinaturas angariadas pela campanha Forever Against Animal Testing (Para Sempre Contra Testes em Animais) à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Dinamarca, Cingapura e Inglaterra também enviarão representantes para a entrega das assinaturas.

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A campanha consiste em um abaixo assinado global, lançado pela marca em 2017, com o objetivo de banir, até 2020, testes em animais com finalidade cosmética em produtos e ingredientes em todo o mundo. O Brasil está entre os 10 países que mais colaboraram com a petição.

A iniciativa tem como objetivo influenciar a legislação dos 189 países signatários da ONU, levando em consideração que 80% do mundo ainda permite testes em animais na indústria cosmética, inclusive o Brasil, onde o processo para banir essa prática ainda está em tramitação.

A companhia espera que, com o documento em mãos, a ONU convoque uma convenção para discutir o tema. Em 2019 a expectativa é de que a organização promova uma aproximação com governos e agências internacionais para criar a lei.

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The Body Shop

Fundada em 1976 em Brighton, Inglaterra, a The Body Shop® é uma marca inglesa de cosméticos naturais que procura fazer a diferença positiva no mundo produzindo produtos para o corpo, rosto e fragrâncias de forma ética e sustentável. A The Body Shop foi pioneira na filosofia de que os negócios podem ser uma força para o bem e essa missão continua sendo a força central da marca. A rede, que nunca realizou testes em animais, conta com 3 mil lojas em 66 países e, junto com a Aesop e a Natura, integra a Natura & Co, grupo de cosméticos global, multicanal e multimarca que se compromete a gerar impacto econômico, social e ambiental positivo em todo o mundo.

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Natura conquista certificação da Cruelty Free International contra testes em animais

Selo Leaping Bunny reforça o compromisso da empresa contra testes em animais

A Natura anuncia que conquistou o selo “The Leaping Bunny” para seus produtos e ingredientes, após concluir o processo de certificação pelo não uso de testes em animais na avaliação da eficácia e segurança de seus produtos. O selo, concedido pela organização de proteção animal Cruelty Free International, uma das mais antigas e respeitadas organizações a trabalhar pelo fim dos testes em animais em todo o mundo, atesta o compromisso da Natura com a causa.

O selo “The Leaping Bunny” é um programa de certificação internacionalmente reconhecido, que permite aos consumidores identificar facilmente produtos que não são testados em animais. Com a certificação, a Natura se junta a mais de mil empresas que também já obtiveram esse reconhecimento, entre elas a The Body Shop, adquirida pela Natura em setembro do ano passado.

Todas as linhas da marca contam agora com a certificação. O portfólio da Natura abrange produtos para corpo, rosto, cabelos, além de perfumaria e maquiagem. Em suas fórmulas, a Natura tem em média 81% de ingredientes vegetais e muitos produtos podem ser considerados veganos, como os sabonetes em barra, cremes, shampoos e hidratantes da linha Ekos.

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“A Natura não realiza testes em animais desde 2006, parte da crença da empresa na valorização da vida. Com essa certificação, tornamos mais clara a comunicação para os consumidores que somos uma marca que defende o fim dos testes em animais na indústria cosmética no Brasil e no mundo. Estamos muito felizes com esse reconhecimento”, afirma Roseli Mello, diretora de Inovação e Segurança do Consumidor da Natura.

“Temos o prazer de conceder a certificação Leaping Bunny à Natura. Queremos parabenizar a Natura por demonstrar que é possível ser uma marca global e inovadora sem infligir sofrimento aos animais. O selo “The Leaping Bunny” torna mais fácil para os clientes tomarem uma decisão ética e informada sobre consumo”, afirma Michelle Thew, CEO da Cruelty Free International.

Desde 2006, a Natura não realiza testes de ingredientes ou produtos finais em animais, sem abrir mão de exigentes critérios de segurança e eficácia dos produtos. De lá para cá, a empresa desenvolveu mais de 67 metodologias alternativas para avaliar a segurança de seus produtos, em parceria com universidades e institutos de pesquisa brasileiros e internacionais.

Entre as principais inovações obtidas no período, destacam-se o uso de ferramentas in silico (softwares capazes de predizer qual o perigo do ingrediente, baseado na estrutura molecular) e modelos 3D de pele e córnea equivalentes, que possibilitam a investigação de irritação e alergia sem uso de testes em animais.

Nos últimos anos, os modelos de pele têm se tornado cada vez mais complexos e apresentado características mais próximas da pele humana em seu estado natural, permitindo avaliar a segurança e eficácia de ingredientes ativos e formulações, além de explorar novos mecanismos biológicos relacionados à saúde da pele e couro cabeludo.

Dando um passo além neste caminho, a Natura, em parceria com a Universidade de São Paulo, está trazendo para o Brasil a tecnologia de impressão 3D de tecidos, chamada de bioimpressora. Com essa tecnologia, é possível produzir modelos de peles com maior complexidade estrutural em condições mais padronizadas, elevando ainda mais a capacidade de análise de segurança e de eficácia dos ingredientes naturais usados pela empresa.

A impressora permite maior automatização do processo de produção da pele 3D com excelente acurácia, alta reprodutibilidade e fácil manuseio, contribuindo para maior disponibilidade de amostras de pele 3D na indústria cosmética.

A Natura também investe em novas técnicas de avaliação gênica em larga escala (OMICS), com uso de biologia computacional, que permite identificar a vocação dos ingredientes. Pelo mapeamento genético de determinado ativo da biodiversidade brasileira, como murumuru ou patauá, é possível, por exemplo, determinar o potencial hidratante ou antissinais daquele ingrediente. Desse modo, a empresa acelera a pesquisa para atestar a eficácia dos ativos usados em suas formulações.

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“Essa é uma causa importante para a Natura. Por isso, apoiamos abertamente a campanha da The Body Shop em parceria com a Cruelty Free International pelo fim dos testes em animais em toda a indústria cosmética”, complementa Roseli Mello. A petição global “Para Sempre Contra Testes em Animais” alcançou a meta de recolher mais de 8 milhões de assinaturas e será levada à Organização das Nações Unidas (ONU) em outubro.

Para encontrar a lista completa das empresas certificadas pelo Leaping Bunny, clique aqui.

Sobre a Cruelty Free International

A Cruelty Free International é uma das mais antigas e respeitadas organizações de protecção dos animais. É vista e reconhecida como uma autoridade no tema “experimentação animal”, sendo frequentemente chamada por governantes, media, empresas e organismos oficiais para aconselhamento e pareceres.

POSTERGADO: The Body Shop realiza ato contra testes em animais no domingo na Paulista

ATUALIZANDO: A The Body Shop posterga caminhada contra testes em animais

Ao considerar a situação atual da greve que afeta milhares de Brasileiros, a The Body Shop irá postergar o ato que seria realizado nesse Domingo na Avenida Paulista. Agradecemos o engajamento de todos, continuaremos com a nossa luta contra testes em animais e em breve divulgaremos uma nova data para o nosso evento.

 

The Body Shop, em parceria com a Ampara Animal, promove um ato público seguido de caminhada na Avenida Paulista, no dia 27 de maio, domingo, a favor da proibição de testes em animais na indústria cosmética.

A concentração do ato será no Masp a partir das 10 horas, e a caminhada, que terá como ponto final o Hotel Ibis na Consolação, está prevista para iniciar às 12 horas.

Ao final do ato, haverá feira de adoção de pets promovida pela Ampara Animal, além de batalha artística (“Battle Art”) com a participação do coletivo feminino de arte urbana Efêmmeras. As pinturas serão leiloadas e o valor arrecadado será direcionado à Ampara Animal.

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Serviço:
Local: Concentração no vão do MASP
Endereço: Av. Paulista, 1578 – Bela Vista
Dia: 27 de maio
Horário: das 10h às 12h30

Lush Prize 2018: prêmio mundialmente pioneiro para alternativas aos testes em animais abre inscrições

Lush Prize, criado a partir da parceria da Lush Cosmetics com a Ethical
Consumer Research Association, é o maior fundo de premiação no setor de
testes toxicológicos em animais. Desde sua primeira edição, em 2012, o prêmio já
investiu £1.8 milhões em projetos que visam alternativas aos testes em animais.

“O prêmio reconhece que, para ter umfuturo de testes químicos mais humanos
e confiáveis, precisamos de maispessoas envolvidas em diversas áreas,
desde campanhas ativistas e treinamentos de cientistas, até tecnologias alternativas de ponta e lobbying”, afirma Rob Harrison, diretor do Lush Prize.

Jovens cientistas que desenvolvem pesquisas de tecnologia de ponta têm se
destacado nas listas de vencedores nas últimas edições do Lush Prize. Na edição
passada, a vencedora da categoria Ciência foi uma professora de bioimpressão da
Harvard University e na categoria Public Awareness, a organização chilena Te protejo.

Também tivemos ganhadores brasileiros pela 4ª vez consecutiva e entre eles está a
brasileira Carolina M. Catarino. O projeto Modelos de pele humana usando tecnologia
de bioimpressora 3D, que ganhou £10.000, tem como objetivo criar, em laboratório,
novos modelos de pele humana in vitro para serem usados no lugar de animais em
testes de cosméticos e medicamentos.

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Ainda em 2017 outro vencedor brasileiro foi o Dr. Renato Ivan de Ávila Marcelino, da
Universidade Federal de Goiás, com o projeto Aplicabilidade da associação de micro-
DPRA e foto-micro-DPRA para identificar potencial de fotosensibilidade em misturas
reais, que tem como objetivo propor novas estratégias de testes de alergia que não
precisem de animais como cobaias.

Róber Bachinski, ganhador do Lush Prize 2016 na categoria Lobbying, com o Instituto
1R de Promoção e Pesquisa para Substituição da Experimentação Animal não tem
fins lucrativos e reúne pesquisadores e especialistas em diversas áreas que possuem
como objetivo final, substituir o uso de animais na ciência e na educação. O biólogo
também estava entre os vencedores da edição de 2014 como Jovem Pesquisador.

Única representante latino-americana na edição de 2015, Bianca Marigliani, especialista em biologia molecular, ganhou a premiação na categoria Jovem Pesquisador. Seu projeto envolvia, principalmente, a preocupação com a utilização de produtos de origem animal em testes alternativos. Bianca também é membro fundador do Instituto 1R.

O prêmio se divide em seis categorias diferentes:

Ciências: pelo desenvolvimento de testes que substituem testes em animais;
Treinamento: pesquisas de treinamento em testes que não utilizam animais;
Consciência pública: aumento da conscientização pública de testes que ocorrem em animais;

Lobbying: intervenções políticas que promovem a utilização de substitutos;
Jovem pesquisador: para pesquisadores abaixo de 35 anos especializados em pesquisa de reposição;

Black Box: por um avanço em pesquisa de caminhos humanos de toxicologia.
As inscrições para o prêmio podem ser feitas online pelo site Lush Prize a partir do dia 4 de abril e encerram no dia 4 de julho. Um painel de juízes de todo o mundo se reunirá em setembro para avaliar os candidatos e os vencedores serão anunciados em uma cerimônia de premiação em Londres, em novembro.

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Sobre Ethical Consumer Research Association: organização sem fundos lucrativos e consultoria para cooperativas especializada em pesquisas independentes pelo bem-estar dos animais e questões ambientais.

 

 

The Body Shop lança campanha mundial para acabar com testes em animais

A marca inglesa de cosméticos The Body Shop convidou a imprensa ontem (8) para falar de sua nova campanha mundial: Para Sempre Contra Testes em Animais. A empresa foi criada em Brighton, em 1976, pela ativista Anita Roddick, se tornando uma das pioneiras na questão dos direitos animais.

A intenção da campanha é proibir os testes em animais no mundo todo, tanto em produtos quanto para ingredientes cosméticos, para sempre. A estimativa é de que cerca de 500 mil animais sejam usados por ano para testes cosméticos. Na União Europeia, vale lembrar, os testes já foram banidos, mas em 80% dos países, inclusive o Brasil, ainda não há leis que os proíbam.

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E vamos falar claramente, este tipo de teste é algo ultrapassado, caro e ineficiente. E o melhor: há alternativas confiáveis, mais baratas e precisas, como análises computadorizada, pele produzida em laboratório e até mesmo teste de contato em seres humanos, mas os animais continuam a sofrer. Vale se questiona o porquê.

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Assim, a The Body Shop lançou uma petição que pode ser assinada online, clicando aqui. A partir do dia 13 de junho, terça-feira, quem quiser também pode ir até uma loja e assinar pessoalmente.

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Fernanda Lima ao lado da diretora de marketing da marca Karina Meyer

E pela primeira vez no Brasil, a empresa elegeu uma personalidade para ser sua embaixadora em uma campanha, a apresentadora Fernanda Lima. Durante o encontro com a imprensa e blogueiras, ela contou que não prestava muita atenção quando comprava um produto sobre como ele havia sido produzido, mas após o convite, começou a pesquisar e até mesmo a assistir os vídeos mostrando alguns métodos de testagem, o que a deixou com mais vontade de investir nessa luta.

“Eu sempre prestava atenção, na moda, em relação ao trabalho escravo, uso de crianças, mas não pesquisava sobre os produtos de beleza”, admite. Ela conta que viu um vídeo sobre o uso de penas em fantasias de Carnaval, e que desde então, faz questão de não usá-las. “Fui vegetariana por anos, quando engravidei, não sei o motivo, mas acabei voltando a comer. Em casa, um dos meninos não come mais, mas o outro, sim. Então, tiramos a carne dois dias por semana. São pequenas coisas que vamos fazendo, mas que farão diferença”.

Fernanda ficou ao lado da diretora de marketing da The Body Shop no Brasil, Karina Meyer, que elogiou a apresentadora que foi escolhida para representar a campanha por sua imagem e postura.

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Alguns dos produtos da marca, maravilhosos, não testados em animais, veganos e feitos com ingredientes orgânicos

Vale lembrar que a The Body Shop tem cinco pilares:  é contra testes em animais, apoia o comércio justo, incentiva a autoestima das mulheres, defende os direitos humanos e a proteção do planeta.

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A Campanha

No Brasil, a campanha acontecerá nos 115 pontos de venda em todos Brasil, no site e nas redes sociais da marca, convidando os clientes a assinarem a petição. A meta é coletar 8 milhões de assinaturas globalmente. Os consumidores serão estimulados a usar a hashtag da campanha, #ForeverAgainstAnimalTesting #ContraTesteEmAnimais, nas mídias sociais para aumentar a conscientização sobre o assunto.

“A The Body Shop acredita que testes com animais em produtos e ingredientes são antiquados, cruéis e desnecessários. Por isso, estamos à frente da mais ambiciosa campanha da marca para buscar a proibição global do uso de animais para testar produtos e ingredientes com finalidade cosmética. Nossa expectativa é coletar mais de 200 mil assinaturas no Brasil”, explica Karina Meyer, Diretora de marketing da The Body Shop Brasil.

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Para Sempre Contra Testes em Animais tem parceria com a Cruelty Free International e terá duração de quase três anos. Nesse ano, o foco é conscientizar e derrubar mitos em torno dos testes em animais e das alternativas disponíveis. Em 2018, a meta é atingir os 8 milhões de assinaturas e apresentar o documento às Nações Unidas, para que seja convocada uma convenção internacional sobre a proibição de teste com finalidade cosmética em animais. Finalmente, em 2019, com a ajuda da ONU, o objetivo é promover aproximação com governos e agências internacionais para criar a lei.

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Por favor, assine a petição aqui.

Lush Prize: Instituição Brasileira vence prêmio pioneiro contra testes em animais

Cientistas, defensores e ativistas de diferentes lugares do mundo, que lutam contra testes em animais, receberam na última sexta-feira (11), o Lush Prize, em Londres. O prêmio – que é uma colaboração entre a Lush Cosmetics e a Ethical Consumer Research Association – é o maior fundo de premiação global no setor de alternativas ao uso de animais em testes científicos. Ao total são £250 mil libras, divididas em diferentes categorias.

Em sua quinta edição o Lush Prize já disponibilizou mais de £1.5 milhão para projetos estratégicos em 27 países. Este ano, 12 projetos de oito países receberam seus prêmios em Londres, além dos oito Jovens Pesquisadores que foram premiados no Canadá e na Coréia do Sul. As categorias premiadas foram: Ciência, Treinamento, Jovens Pesquisadores, Lobbying e Conscientização Pública.

Há dois anos consecutivos, temos brasileiros vencedores na premiação e este ano não foi diferente: Róber Bachinski, um dos fundadores do Instituto 1R, venceu a categoria Lobbying. E essa não foi a estreia do biólogo, que foi o primeiro brasileiro a ganhar o Lush Prize, em 2014, na categoria Jovem Pesquisador.

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Róber Bachinski, em 2014, ao ganhar seu primeiro prêmio

O Instituto de Promoção e Pesquisa para a Substituição da Experimentação Animal é uma organização sem fins lucrativos de pesquisadores e especialistas em toxicologia, bioquímica, biologia celular, biotecnologia, fisiologia, saúde pública, educação científica, direito e ética aplicada, que atuam na pesquisa e desenvolvimento de métodos alternativos. Eles possuem como objetivo final, substituir o uso de animais na ciência e na educação, assim como Bianca Marigliani, também vencedora do Lush Prize, na categoria Jovem Pesquisador, em 2015.

Entre os outros vencedores deste ano estão os primeiros ganhadores do Lush Prize da China e do Irã, por criarem consciência sobre os testes e estarem treinando cientistas para métodos de pesquisa que não incluam animais. Ainda na categoria Lobbying, foram premiadas organizações na Índia, cientistas do Reino Unido, Cingapura, Alemanha e Luxemburgo.

“O Lush Prize tem conquistado mais força com o tempo. Em cinco anos temos sido capazes de fornecer £1.5 milhões de libras para acabar com testes de animais através da ciência, conscientização pública e lobby para mudanças legislativas. O lançamento dos prêmios adicionais para Jovens Pesquisadores faz parte do nosso plano de apoiar a próxima geração de cientistas que podem avançar na progressão na pesquisa não animal e garantir a aceitação regulamentar desses testes, tanto para afastar-se do uso antiético de animais e fornecer métodos de pesquisa que são diretamente relevantes para a saúde humana”, afirma o porta-voz do Lush Prize, Craig Redmond.

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As inscrições para o Lush Prize 2017 serão abertas em abril, neste site.

Lush Prize

Lush Prize é uma parceria entre Lush e Ethical Consumers para apoiar toxicologia livre de animais e é designado a premiar grupos ou indivíduos que trabalham no campo de pesquisas cientificas livres de crueldade, conscientização pública e lobbying para ajudar a acabar com testes em animais.

O que já era o maior prêmio no setor de testes não-animal (£ 250.000), e o único a se concentrar exclusivamente na substituição de testes em animais, cresceu este ano para um total de £ 342.000.

Pele de laboratório

Pesquisadores brasileiros criam modelos de tecido humano para estudar doenças e substituir testes de cosméticos e medicamentos em animais

YURI VASCONCELOS | REVISTA FAPESP – ED. 245 | JULHO 2016

 Pele artificial no Laboratório de Biologia da Pele da USP: reconstruída a partir de células humanas

A três anos de entrar em vigor uma resolução do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) que obriga fabricantes de cosméticos e laboratórios farmacêuticos a adotarem métodos alternativos ao uso de animais em pesquisa, o Brasil fez avanços significativos no desenvolvimento de pele reconstruída em laboratório. Esse material biológico é chamado também de pele artificial, 3D ou equivalente, e tem morfologia e fisiologia similares ao tecido humano. Poderá ser usado em testes de avaliação de novos cosméticos e produtos de higiene pessoal em substituição a animais, no estudo de doenças, como melanoma e câncer de colo uterino, e no tratamento de úlceras dermatológicas crônicas e queimaduras. Empresas, institutos de pesquisa e universidades do país correm contra o tempo para desenvolver modelos nacionais de pele humana in vitro.

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Pele artificial no Laboratório de Biologia da Pele da USP: reconstruída a partir de células humanas – @LÉO RAMOS

A pele artificial é reconstruída a partir de células humanas e demora de 10 a 30 dias para ser desenvolvida (ver infográfico). O tecido dura por volta de sete a 10 dias, período em que está pronto para ser usado. No caso dos testes de cosméticos, a nova substância deve ser aplicada sobre a pele. Em creme ou pó, o material é espalhado com auxílio de uma espátula ou uma haste flexível; se for um líquido, é pingado sobre o tecido. Depois de algumas horas, a pele in vitro é lavada para remoção da substância. No dia seguinte, os pesquisadores fazem em laboratório a contagem da quantidade de células vivas e mortas a fim de verificar o potencial corrosivo irritante do novo produto. Cada fragmento de pele reconstruída, com 1,5 centímetro (cm) a 3 cm de diâmetro, só pode ser usado uma vez.

Atualmente, o mercado de pele artificial é liderado pela multinacional francesa L’Oréal, uma das gigantes do setor de cosméticos. A empresa é proprietária dos modelos Episkin e Skinethic, distribuídos em países da Europa em kits formados por 24 unidades de tecidos de pele artificial humana reconstruídos em laboratório. Além da pele completa, formada pela epiderme (camada externa) e a derme (camada logo abaixo da epiderme), a L’Oréal comercializa no exterior outros seis modelos de tecidos, entre eles uma epiderme humana reconstruída, uma epiderme pigmentada, mimetizando diferentes cores de pele, e vários tipos de epitélio, como os que compõem as mucosas da boca, gengiva, vagina e córnea. Outra grande participante desse mercado é a norte-americana MatTek, que vende vários modelos de pele equivalente, não muito distintos dos feitos pela L’Oréal. Os preços nas empresas, de amostras individuais, variam de US$ 50 a US$ 80. Na Alemanha, o Instituto Fraunhofer IGB criou um sistema automatizado capaz de produzir 12 mil fragmentos de pele a partir de uma única amostra de tecido humano. Desde 2014, o instituto alemão vende o sistema às empresas que querem certificar-se de que seus produtos de beleza não causam alergia ou irritação.

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Preparação de amostra de pele desenvolvida pela professora Silvya Maria-Engler, da USP – @LÉO RAMOS

Embora a legislação brasileira permita a importação de pele artificial fabricada no exterior, isso nem sempre é viável – daí a importância do desenvolvimento do tecido no país. “Por ser material vivo e, portanto, perecível, os fragmentos de pele contidos nos kits têm validade de poucos dias. É muito comum enfrentarmos problemas na alfândega, o que na prática inviabiliza a importação”, diz a bióloga Silvya Stuchi Maria-Engler, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), referência nas pesquisas envolvendo pele equivalente. “Com a proibição do uso de animais em testes de cosméticos e insumos a partir de 2019, é muito importante que os kits passem a ser produzidos no país.”

No fim de 2015, o Grupo Boticário, controlador das unidades de negócio O Boticário, Eudora e Quem disse, Berenice?, anunciou ter conseguido criar um material equivalente à pele humana no seu Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, em São José dos Pinhais, no Paraná. O tecido é empregado em testes de matérias-primas e produtos acabados, como maquiagens, loções e cremes, e em ensaios de segurança e toxicidade, no lugar de animais. “Para fazer nossa pele 3D, usamos células isoladas de tecidos cutâneos descartados de cirurgias plásticas, com o consentimento dos doadores e a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa de nosso Centro de P&D”, informa Márcio Lorencini, gerente de Pesquisa Biomolecular da companhia. Em laboratório, o novo tecido é formado célula a célula, camada por camada, tal como a pele humana. O resultado é um fragmento de até 3 centímetros de diâmetro pronto para realização de testes.

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Na recriação in vitro, a epiderme, a camada mais externa da pele, é obtida por meio da cultura de queratinócitos, células que realizam a síntese da queratina e respondem pelos fatores de barreira e proteção, e dos melanócitos, responsáveis pela produção de melanina, que confere pigmentação à pele. A derme é reconstituída a partir da cultura de fibroblastos humanos cultivados em gel de colágeno. Os fibroblastos são responsáveis pela produção de proteínas capazes de sintetizar fibras de colágeno e elastina.

Pele 3D

Todas essas estruturas celulares produzidas em laboratório têm características de crescimento muito similares à pele humana, o que aumenta a uniformidade e a reprodutibilidade dos testes. E guardam muito mais semelhança com a pele humana do que a dos camundongos normalmente usados na avaliação de novos produtos. A pele completa formada por derme e epiderme é ideal para o estudo de doenças e a avaliação de novos medicamentos, enquanto a estrutura formada apenas pela epiderme é suficiente para ensaios de corrosão e irritação feitos pela indústria de cosméticos.

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Teste de cosmético líquido sobre pele artificial na USP. Cada fragmento só pode ser usado uma vez @LÉO RAMOS

A tecnologia do Grupo Boticário, segundo Márcio Lorencini, começou a ser desenvolvida em 2009. Com ela é possível realizar vários testes em uma mesma unidade de pele reconstituída. “A pele 3D permite maior amplitude e assertividade nos testes, por ser elaborada a partir de um conjunto de células de vários indivíduos [prática comum nas técnicas atuais de todos os grupos que pesquisam e produzem peles artificiais]. Utilizando um pool de células diminuímos a variabilidade individual. Caso empregássemos células derivadas de uma única pessoa poderíamos ter respostas variáveis de um indivíduo para outro, o que não é ideal para avaliação de parâmetros toxicológicos e de eficácia de produtos e matérias-primas cosméticas”, afirma Lorencini. Além dos ensaios de toxicidade, corrosão e irritação cutânea, a empresa usa a pele artificial para avaliação de eficácia da produção de melanina, análise de expressão gênica e proteica de diversos marcadores teciduais, como colágenos, elastinas e queratinas, e estudo de citocinas, que são biomarcadores de inflamação.

O Grupo Boticário desenvolveu o modelo com recursos próprios, sem o auxílio de parceiros na academia, mas contou em sua equipe com a participação da bióloga Carla Abdo Brohem, que fez sua formação no Laboratório de Biologia da Pele da USP, com bolsa de doutorado da FAPESP. Também com auxílio da Fundação, Carla realizou um pós-doutorado entre 2010 e 2011, ocasião em que estagiou no laboratório da pesquisadora australiana Pritinder Kaur, do Peter MacCallum Cancer Centre, instituição médica de Melbourne especializada na pesquisa e no tratamento de câncer. Pritinder é considerada uma grande especialista no estudo de células-tronco epiteliais e colabora com o grupo da professora Silvya Maria-Engler. Atualmente, Carla coordena o Núcleo de Avaliação de Segurança e Eficácia do Centro de P&D da companhia.

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A primeira amostra de pele humana reconstruída na USP foi finalizada em 2006 – @LÉO RAMOS

Em São Paulo, Silvya, coordenadora do Laboratório de Biologia da Pele da USP, finalizou seu primeiro modelo de pele humana reconstruída in vitro em 2006. Entre os trabalhos mais recentes, destacam-se o desenvolvimento de uma pele envelhecida para uso em testes de cosméticos antienvelhecimento, a criação de uma epiderme semelhante aos modelos comerciais e a produção de uma pele 3D voltada a estudos sobre câncer de pele. Essa linha de pesquisa já rendeu 45 artigos científicos publicados pelo grupo de Silvya.desenvolveu o modelo com recursos próprios, sem o auxílio de parceiros na academia, mas contou em sua equipe com a participação da bióloga Carla Abdo Brohem, que fez sua formação no Laboratório de Biologia da Pele da USP, com bolsa de doutorado da FAPESP. Também com auxílio da Fundação, Carla realizou um pós-doutorado entre 2010 e 2011, ocasião em que estagiou no laboratório da pesquisadora australiana Pritinder Kaur, do Peter MacCallum Cancer Centre, instituição médica de Melbourne especializada na pesquisa e no tratamento de câncer. Pritinder é considerada uma grande especialista no estudo de células-tronco epiteliais e colabora com o grupo da professora Silvya Maria-Engler. Atualmente, Carla coordena o Núcleo de Avaliação de Segurança e Eficácia do Centro de P&D da companhia.

“É fundamental que o Brasil domine a tecnologia de produção de pele humana reconstruída, ganhando autonomia nesse campo de pesquisa”, afirma a cientista. “Os modelos de pele completa e epiderme que criamos são idênticos aos produzidos no exterior. Estamos transferindo esse conhecimento para a sociedade por meio da Fundação Instituto de Pesquisas Farmacêuticas da USP, a FipFarma. Já fomos procurados por vários fabricantes de cosméticos interessados em receber treinamento para aprender a construir esses tecidos em laboratório”, diz ela.

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Microscopia de infecção por papiloma vírus (HPV)…

A primeira empresa a fazer o curso de capacitação da USP foi a OneSkin Technologies, startup de biotecnologia especializada em engenharia de tecidos criada por três pesquisadoras brasileiras e sediada em São Francisco, na Califórnia. “Com o treinamento recebido na USP, conseguimos construir nosso modelo de epiderme humana in vitro. Agora, estamos trabalhando no desenvolvimento da pele completa”, conta a bioquímica Carolina Reis de Oliveira, sócia-fundadora da OneSkin. Incubada desde março deste ano na IndieBio, uma das maiores aceleradoras de biotecnologia dos Estados Unidos, a OneSkin quer dominar a tecnologia de construção de pele 3D para atuar no mercado de cosméticos antienvelhecimento. “Nosso próximo desafio é desenvolver um tipo de pele envelhecida que nos permita estudar mecanismos para prevenir o envelhecimento”, diz Carolina. Quando este objetivo for atingido, a OneSkin vai se dedicar à busca de moléculas com potencial antienvelhecimento. “Nossa ideia é licenciar moléculas relevantes ou produzir novos cosméticos com elas.” A OneSkin foi convidada a instalar-se na IndieBio após participar de um evento para startups no Brasil e chamar a atenção de investidores estrangeiros.

No Laboratório de Biologia da Pele da USP, a bióloga Paula Comune Pennacchi trabalha em uma linha de pesquisa similar à da OneSkin. Ela criou um modelo de pele humana que simula o envelhecimento cutâneo fisiológico e as alterações de pele observadas em pacientes diabéticos. O trabalho foi sua tese de doutorado, defendida em fevereiro deste ano. “Recriamos um modelo capaz de responder à ação de cosméticos e fármacos com ação sobre o envelhecimento cutâneo. Nossa pele reconstruída também contribuiu para o entendimento de fenômenos relacionados à deficiência de cicatrização e maior intensidade inflamatória em pele de pacientes diabéticos”, explica a pesquisadora.

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…e a pele artificial normal, em experimentos no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) – Fotos: ENRIQUE BOCCARDO/USP

Aguarda regulamentação

O Grupo Boticário não vai compartilhar a pele 3D construída em seus laboratórios enquanto não existir no Brasil a validação para esse tipo de produto. A francesa L’Oréal tomou a decisão de investir no Brasil nessa área e também aguarda a regulamentação para poder disponibilizar no país tecidos da linha Episkin, como já ocorre na Europa e na Ásia. “Enquanto não houver regulamentação clara para a distribuição dos tecidos, estamos no Brasil somente para fins de pesquisa. Por ano, produzimos na França aproximadamente 150 mil unidades de pele reconstruída, enquanto na China fabricamos outros 30 mil tecidos de pele pigmentada”, conta Rodrigo De Vecchi, gerente de Pesquisa Avançada da L’Oréal no Brasil. A princípio, a empresa implementa aqui apenas o modelo de epiderme humana reconstruída, conhecido pela sigla RHE, que usa em sua constituição queratinócitos humanos, o principal tipo celular epitelial. O RHE é um tecido aprovado pelo Comitê Europeu para Validação de Métodos Alternativos (Ecvam), para aplicação em testes de segurança em produtos cosméticos em substituição aos testes em animais. “Quando o modelo RHE estiver disponível no Brasil, contaremos com uma ferramenta para uso em cosméticos e também em áreas de pesquisa, como biomedicina, medicina regenerativa e avaliação toxicológica”, afirma De Vecchi.

Com a finalidade de refinar seu modelo de epiderme reconstruída, a L’Oréal fechou recentemente uma parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Educação (IDor), do Rio de Janeiro. “Nossa proposta é reinervar o modelo de epiderme humana reconstruída com neurônios criados por nós, aproximando-a ainda mais da pele humana original”, conta o neurocientista Stevens Rehen, coordenador de pesquisas do IDor. Trata-se de uma pesquisa com enorme potencial biotecnológico, segundo o pesquisador, que também é professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB-UFRJ). A área de interesse de Rehen é o estudo da biologia de células-tronco reprogramadas. “Desde 2014 firmamos a parceria com a L’Oréal voltada ao uso de células-tronco para a criação de modelos celulares humanos em laboratório”, diz. “Acreditamos que ao inervar a epiderme humana reconstruída com neurônios iremos aumentar a capacidade preditiva do modelo.”

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Pele reconstruída da L’Oréal: pesquisas avançam para inserir neurônios no produto – Foto: L’Óreal

Além de poder ser usada como plataforma para testes de cosméticos e produtos de higiene pessoal, a pele cultivada também é uma ferramenta para validação de novos medicamentos e estudo de doenças, entre elas papilomavírus humano (HPV) e melanoma. Na USP, estudos nessa linha são desenvolvidos no laboratório da professora Silvya e no Instituto de Ciências Biomédicas. Lá, o professor Enrique Boccardo desenvolveu um modelo de pele humana in vitro para investigar os mecanismos de transformação celular associados ao HPV e aprofundar pesquisas sobre o câncer de colo uterino causado pelo microrganismo. “Com apoio da FAPESP, eu trouxe essa tecnologia dos Estados Unidos em 2001, quando trabalhava no Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo”, conta Boccardo.

“Para estudar a fundo a biologia do vírus, introduzimos no Brasil um sistema de cultura de células in vitro que permite reproduzir o ambiente no qual o microrganismo cumpre seu ciclo. Esse tecido, semelhante à pele, é composto por queratinócitos humanos, colágeno e fibroblastos”, explica Boccardo. “Temos utilizado o modelo para analisar os mecanismos moleculares empregados pelo vírus para escapar da resposta imune do organismo e entender como o HPV manipula a célula a fim de sintetizar seu material genético e reproduzir novas partículas virais.”

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Produção de pele no Boticário: testes para toxicidade, corrosão e irritação cutânea – Foto: GUILHERME PUPO

Na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, a pesquisadora pós-doutoranda Fernanda Faião Flores recorre ao tecido artificial desenvolvido pelo grupo da professora Silvya Maria-Engler para estudar os mecanismos de resistência ao melanoma, a forma mais letal de câncer de pele. “Utilizamos linhagens celulares, amostras de pacientes e um modelo de pele humana reconstituída in vitro que mimetize a invasão e a disseminação das células de melanoma”, conta. “Com isso, testamos compostos e conseguimos caracterizar o fenômeno de resistência a um medicamento, chamado vemurafenibe, que inibe a atividade proliferativa do tumor.” A pele reconstruída com melanoma serviu para avaliar o composto como possível agente quimioterápico.

Tratamento de queimados

Na área médica, outra opção é o emprego de pele humana reconstituída e terapia celular com transplante de células cutâneas para o tratamento de úlceras de pele e queimaduras em pacientes. Em Campinas, a dermatologista Maria Beatriz Puzzi, coordenadora do Laboratório de Cultura de Células de Pele da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), estuda a recriação do tecido celular em laboratório para enxerto feito a partir de células isoladas do próprio paciente, o que faz com que ambos os tecidos – a pele natural e a reconstituída – tenham estrutura muito semelhante, possibilitando a realização de transplantes autólogos (em que se utiliza tecido de um mesmo indivíduo) com menor risco de rejeição. “O problema dessa metodologia é que a recriação de pele em laboratório leva em torno de 45 a 60 dias – e os pacientes queimados precisam do tratamento imediatamente”, explica Maria Beatriz.

Para contornar esse problema, no lugar do implante da pele reconstruída, o grupo decidiu empregar a terapia celular com células da pele. “Tiramos um pedacinho da pele do paciente, isolamos os queratinócitos e os fibroblastos e fazemos o cultivo dessas células em laboratório. Em 15 dias, elas são misturadas a um gel e aplicadas no paciente. Em pouco tempo, espalham-se nas lesões reconstruindo a pele”, conta. “Temos resultados muito positivos com essa rota, que acelera a cicatrização, encurta o tempo de hospitalização e reduz a morbidade dos pacientes.”

Métodos alternativos à experimentação animal

Uso de tecidos reconstruídos no Brasil depende de um custoso processo de validação

O Brasil é o quarto maior mercado global de produtos de beleza, superado por Estados Unidos, China e Japão. As cerca de 2,5 mil empresas do segmento faturaram R$ 42,6 bilhões em 2015, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). A partir de 2019, qualquer novo produto de beleza deverá obrigatoriamente passar por testes dermatológicos em peles humanas reconstruídas, no Brasil ou no exterior. “Não existem estudos que apontem o tamanho do mercado de pele equivalente no Brasil, mas teoricamente ele deve ser expressivo, já que muitos lançamentos de cosméticos ocorrem todos os anos”, afirma a professora Silvya Maria-Engler, da USP, que integra o Conselho Científico da Abihpec.

A obrigatoriedade de substituição de testes em animais por modelos de pele equivalente foi determinada há dois anos pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), órgão integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), responsável por estabelecer normas para experimentação animal no Brasil. A entidade reconheceu 17 métodos alternativos ao uso de animais em atividades de pesquisa, dos quais dois preveem o uso de epiderme humana equivalente para validação de cosméticos. “Um destina-se à verificação do potencial de irritação dos novos produtos e o outro serve para avaliação da corrosão das substâncias testadas”, destaca o ex-coordenador do Concea, José Mauro Granjeiro. Esses dois métodos alternativos foram referendados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), entidade que aprovou os métodos empregados na Europa e que serviram de base para elaboração da norma brasileira.

“A pele 3D que desenvolvemos na USP foi criada para estudos científicos, mas pode ser usada comercialmente, desde que passe por um processo de validação”, conta Silvya. Nesse processo, amostras da pele cultivada in vitro devem ser submetidas a uma extensa bateria de testes, a um custo aproximado de R$ 1 milhão. Em geral, de um a três laboratórios independentes participam da validação, que é coordenada pelo Centro Brasileiro para Validação de Métodos Alternativos (Bracvam) com apoio da Rede Nacional de Métodos Alternativos (Renama), criada em 2012 pelo governo federal. “Por causa do alto custo, ele só é viável com apoio de empresas e laboratórios privados”, ressalta a farmacêutica-bioquímica Silvia Berlanga Barros, professora da FCF-USP. Ela participou da criação da pele artificial no grupo de Silvya Engler.

Projetos
1. Desenvolvimento de pele artificial contendo equivalente dérmico glicado na avaliação da eficácia e toxicidade de compostos antiglicação (nº 2011/14327-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Silvya Stuchi Maria-Engler (USP); Investimento R$ 85.925,35.
2. Geração de peles artificiais humanas e melanomas invasivos como plataforma para testes farmacológicos (nº 2008/58817-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Silvya Stuchi Maria-Engler (USP); Investimento R$ 165.075,55.
3. Impacto da expressão de reck no controle da invasão de melanoma: Estudo em monocamadas e pele artificial (nº 2010/50157-5); Modalidade Bolsa no País – Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Silvya Stuchi Maria-Engler (USP); Bolsista Carla Abdo Brohem (USP); Investimento R$ 32.690,51.
4. Estudo da possível implicação de p53 nos efeitos do fator de necrose tumoral-alfa (TNF-alfa) sobre células imortalizadas por papilomavírus humano (HPV) (nº 1998/07087-2); Modalidade Bolsa no País – Regular; Pesquisadora responsável Luisa Lina Villa/USP; Bolsista Enrique Mario Boccardo Pierulivo (USP); Investimento R$ 104.861,71.
5. Análise da expressão de proteínas de polaridade em processos neoplásicos associados ao papilomavírus humano utilizando culturas organotípicas. (FAPESP-Conicet) (nº 2012/51017-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Enrique Mario Boccardo Pierulivo (USP); Investimento R$ 22.988,33.

FONTE: REVISTA FAPESP