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Cervejaria Nacional apresenta cerveja oficial do Pint of Science Brasil

Cervejaria Nacional, primeira entre as microbreweries de São Paulo, apresenta na carta uma parceria de peso. Foi lançada no dia 16 de novembro (e dia 18 no serviço de salão), a cerveja oficial 2020 do Pint of Science Brasil – Origem de espécies. O rótulo de estilo Brazillian Wild (R$ 23 – 330 ml / R$ 33 – 570 ml), foi desenvolvido por cientistas brasileiros e utilizada levedura selvagem diretamente de colmeias de abelha, uma cerveja única no quesito sensorial, e que ainda não existia no território brasileiro.

Idealizadora da cerveja, e doutora em biotecnologia, Ana Carolina de Carvalho teve a ideia de isolar as leveduras de colmeias e descobriu que essas possuíam potencial sensorial e possibilidade de extração do sabor e aroma. Por conta dessas características, decidiu utilizar as leveduras para a fabricação da primeira cerveja oficial do Pint of Science Brasil.

Guilherme Macedo, cervejeiro e sommelier da Cervejaria Nacional, também idealizou o projeto e ressalta a importância da parceria. “O objetivo também é de fomentar a ciência, envolta em um processo de produção de uma cerveja”.

Luiz Almeida, diretor nacional do Pint of Science e um dos participantes do projeto comentou: “Para aproximar ainda mais esses dois mundos, o da cerveja e o da ciência, fizemos essa parceria incrível com a Cervejaria Nacional e o Laboratório de Astrobiologia da Universidade de São Paulo. O resultado foi a “Origem das Espécies”. A produção da cerveja também teve colaboração de Rene Aduan, biólogo e cervejeiro.

Pint of Science Brasil é considerado o maior evento mundial de divulgação científica em bares e restaurantes, com183 cidades cadastradas. O Brasil é o país que concentra o maior números de participantes no mundo. Por conta da pandemia da Covid-19, os eventos presenciais foram cancelados e lives foram realizadas para o público.

A Cerveja Oficial do Pint of Science Brasil está disponível nas plataformas delivery da Cervejaria Nacional (Google Play) e nos aplicativos ifood, Uber Eats e Rappi.

Cientistas refutam conceito de alimentos “ultraprocessados” e revelam inconsistências no Guia Alimentar para a População Brasileira

Especialistas da USP em Engenharia e Ciência de Alimentos contestam a classificação usada no Guia Alimentar e identificam uma série de equívocos sobre processamento de alimentos, que acabam confundindo o consumidor.

Engenheiros de Alimentos e Docentes da Universidade de São Paulo publicaram um artigo com críticas ao sistema de classificação de alimentos NOVA, que consta do Guia Alimentar para a População Brasileira do Ministério da Saúde em 2014. Pesquisadores da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, da Escola Politécnica e do Centro de Pesquisa em Alimentos (Food Research Center – FoRC) apontaram erros no conceito de processamento de alimentos e consideraram algumas informações como “alarmantes” e “descuidadas”.

In natura e minimamente processados

De acordo com o Guia, os alimentos da categoria 1 – in natura ou minimamente processados – são aqueles que não envolvem a adição de sal, açúcar, óleos, gorduras ou outras substâncias ao alimento original. No entanto, os Engenheiros de Alimentos e pesquisadores da USP esclarecem que o processamento mínimo de alimentos – predominantemente de origem vegetal, como frutas e hortaliças – pode sofrer intervenções químicas, como o tratamento com soluções contendo acidulantes, antioxidantes e antimicrobianos. Isso muitas vezes é necessário porque os vegetais submetidos ao descascamento, corte e fatiamento, como ocorre no processamento mínimo, deterioram-se mais rapidamente.

Outro equívoco pode ser observado nos exemplos de alimentos minimamente processados citados pelo Guia. “Leite pasteurizado, leite longa vida, leite em pó e sucos de fruta pasteurizados são submetidos a tratamentos térmicos, cuja intensidade varia de 72ºC a 145ºC. Portanto, todos os exemplos mencionados são de alimentos processados. Os minimamente processados disponíveis no mercado brasileiro não são submetidos a tratamentos térmicos”, informam os pesquisadores.

Ingredientes culinários processados

Em relação aos alimentos da categoria 2 (ingredientes culinários processados), o Guia chama atenção para o consumo excessivo de óleo, gorduras, sal e açúcar, que pode causar problemas de saúde. Os Engenheiros de Alimentos reconhecem a importância dessa informação, mas acreditam que é necessária melhor contextualização sobre os riscos do excesso e os benefícios de uma dieta equilibrada com óleos e gorduras. “Este grupo de alimentos é fonte de ácidos graxos essenciais e exerce papel fundamental no transporte e na absorção de vitaminas lipossolúveis e na síntese de hormônios, por exemplo”.

Processados

Segundo o Guia do Ministério da Saúde, os alimentos processados (categoria 3) são aqueles fabricados pela indústria com adição de sal ou açúcar a alimentos in natura, para torná-los duráveis e mais agradáveis ao paladar, e seu consumo deve ser limitado. O primeiro ponto destacado na análise dos pesquisadores da USP é que nem todos os alimentos processados têm adição de açúcar e/ou sal, como sucos integrais de frutas e hortaliças e leite pasteurizado ou longa vida. Outro fato a salientar é que a Indústria Brasileira de Alimentos vem gradativamente reduzindo os níveis de sal e açúcar em alimentos processados.

O Guia também informa que os métodos usados no processamento de alimentos prejudicam a sua composição nutricional, o que é refutado pelos pesquisadores. “Os nutrientes são substancialmente preservados durante o processamento, especialmente quando métodos não térmicos de estabilização são empregados. O processamento em escala doméstica muitas vezes é mais drástico e exerce um impacto significativamente mais negativo no valor nutricional do alimento comparado ao processo em escala industrial”.

De modo geral, o capítulo 2 do Guia apresenta informações incompletas ou equivocadas sobre o processamento de alimentos. Os Engenheiros de Alimentos e Pesquisadores da USP afirmam que o objetivo do processamento vai muito além de aumentar a duração dos alimentos e torná-los mais agradáveis ao paladar. Envolve tecnologias que proporcionam segurança ao consumidor, eliminando ou reduzindo agentes potencialmente patogênicos a níveis seguros; preservam a qualidade funcional, nutricional e sensorial do alimento por meio da inativação de enzimas e micro-organismos deteriorantes; reduzem desperdícios; favorecem as políticas de segurança alimentar, promovem a sustentabilidade entre muitos outros benefícios.

“Ultraprocessados”

Os autores do artigo questionam também o uso do termo “ultraprocessados” (categoria 4), que não é reconhecido pela Engenharia e Ciência de Alimentos. O termo em questão, concebido na Faculdade de Saúde Pública da USP em 2009, ganhou maior notoriedade com a proposta de classificação NOVA, também publicada pela Food and Agriculture Organization (FAO) da ONU em 2019. A Organização, porém, reforça que o conteúdo é de responsabilidade dos autores e não reflete necessariamente a visão da FAO e nem representa uma validação do sistema NOVA.

Segundo o Guia, os alimentos “ultraprocessados” devem ser evitados e podem ser facilmente identificados pelo elevado número de ingredientes, incluindo sal, açúcar, óleos e gorduras. Contudo, alimentos minimamente processados ou processados moderadamente também podem conter múltiplos ingredientes, como sucos mistos de frutas e hortaliças, saladas e vitaminas de frutas e mix de cereais integrais.

“Evitar o consumo de alguns desses alimentos, como pão integral ou enriquecido, cereais e leites especiais, poderia implicar na diminuição da ingestão de folato, cálcio e fibra alimentar. À luz da Engenharia e Ciência de Alimentos, o prefixo ‘ultra’ remete à intensidade de um determinado tratamento ou processo empregado na conservação do alimento, e não à sua composição”, afirmam os pesquisadores.

O artigo também esclarece que os aditivos (emulsificantes, antioxidantes, acidulantes, conservadores etc.) incorporados aos alimentos industrializados desempenham função tecnológica, algumas vezes relacionada à segurança microbiológica do produto. É o caso da adição de ácido cítrico a conservas de palmito, que impede a síntese da toxina botulínica. Antes de sua aprovação, os aditivos alimentares são submetidos a uma rigorosa série de protocolos de análise toxicológica por agências reconhecidas internacionalmente e sua aprovação pelos órgãos competentes é periodicamente reavaliada de acordo com os avanços da Ciência.

Alimentação saudável

Os cientistas incentivam as práticas alimentares saudáveis, com dietas ricas em fibras (frutas, hortaliças e cereais integrais) e a ingestão de alimentos com baixo teor de sal e açúcar. “Sempre que possível, recomenda-se o preparo dos próprios alimentos, o consumo de produtos orgânicos – industrializados ou não – advindos de produtores locais, bem como o consumo restrito de produtos indulgentes (hot dog, milk-shake etc) que, de maneira geral, são muito calóricos e pouco nutritivos”.

Para os autores, é essencial que o consumidor seja informado corretamente. A saudabilidade de um alimento não está relacionada ao número de ingredientes, intensidade ou número de processos e nem ao local de processamento – cozinha ou grande indústria -, e sim à disponibilidade de seus nutrientes e componentes funcionais.

Para um mundo mais sustentável, é preciso diminuir o consumo de carne

Grupo da Faculdade de Saúde Pública da USP traz dados e dicas sobre como assumir uma alimentação sustentável e acessível

Por Yasmin Oliveira – Editorias: Universidade – Jornal da USP

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O ideal é substituir a carne por leguminosas, ovos e comer mais cereais integrais no dia a dia – Foto: Reprodução Sustentarea

Pelo bem do meio ambiente, você deveria reduzir seu consumo de carne. Pelo menos, é o que recomenda o Manifesto Sustentarea, documento produzido pelo Núcleo de Apoio às Atividades de Cultura e Extensão da USP (Nace) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em São Paulo.

O manifesto traz recomendações de hábitos saudáveis e sustentáveis, além de informações sobre o assunto. O grupo é formado por alunos de graduação, pós-graduação e profissionais da saúde que são responsáveis pela disseminação do conteúdo.

O documento é direto: o maior problema é um alimento comum à mesa. Estudos do grupo revelam que o brasileiro come mais carne vermelha e processada do que deveria – muito mais do que a média recomendada. Também deixa de lado verduras e legumes.

O problema é que a produção de carne bovina tem impactos significativos para o meio ambiente. “Gera gases de efeito estufa, devastação de florestas e consome grande quantidade de água”, comenta a nutricionista Aline Carvalho, coordenadora do grupo. “É o ponto principal, porque representa 50% do impacto ambiental da dieta.”

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Capa do Manifesto Sustentarea – Foto: Reprodução

Na saúde, o consumo exagerado aumenta o risco de câncer, como diz estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS). O ideal é substituir por leguminosas, ovos e comer mais cereais integrais no dia a dia, como pão ou arroz. Para quem não quer abandonar a carne vermelha, o Sustentarea aconselha o consumo de até 500 gramas por semana.

Entretanto, o problema não é apenas a carne processada, mas a maneira que a produzimos e consumimos como um todo. “Se continuarmos consumindo do jeito que fazemos hoje, não haverá recursos suficientes para todos em 2050”, explica Aline, baseada em um artigo produzido em Harvard e publicado na revista The Lancet.equipe-sustentarea

Equipe do projeto de extensão Sustentarea coordenando pela nutricionista Aline Martins de Carvalho – Fotos: Cedidas pela Equipe Sustentarea

Como mudar o hábito e a alimentação?

O grupo reconhece que convencer as pessoas a mudar seus hábitos é um processo lento e difícil. Por isso, o manifesto traz o capítulo “O que você pode fazer?” para aproximar o leitor de uma rotina mais sustentável. As recomendações são simples, como evitar desperdícios ou prestar atenção nos rótulos de alimentos.

O Sustentarea também procura outras medidas práticas, como lançamento de revistas on-line de receitas sazonais, que priorizam pratos sem carne e com motivos para sua recomendação. Para Aline, essa é uma forma prática de disseminar informação de qualidade na mesa do brasileiro.

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Livros de receita e revista ajudam público a mudar hábitos – Foto: Reprodução

Apesar de ser difícil abandonar todos os alimentos industrializados em rotinas cansativas, é possível avaliar o que se compra de uma forma mais crítica, avaliando como foi produzido e o número de químicos na composição. Quanto mais natural, melhor. A nutricionista também recomenda que se cozinhe mais – uma forma de se conectar com o alimento.

“Quando a população se empodera desse conhecimento, tece o caminho para um futuro sustentável”, finaliza.

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Mais informações: FSP – USP

Seis dicas para quem come fora de casa

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o brasileiro gasta atualmente cerca de 25% de sua renda com alimentação fora de casa. Comer fora é mais fácil e rápido, mas é preciso ficar atento para o local escolhido para fazer as refeições, as condições de higiene dos utensílios e a conduta dos funcionários que manipulam o alimento. Isso porque o número de doenças transmitidas por alimentos (DTAs) ainda é alto no Brasil e, segundo especialistas, subnotificado.

A nutricionista e doutoranda em Ciência dos Alimentos pela USP, Jéssica Aragão, ligada ao Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), elenca seis cuidados para quem se alimenta fora de casa:

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• Prefira locais limpos e arejados;
• Verifique o estado de conservação dos utensílios (pratos, talheres, copos) e do ambiente de modo geral.

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• Nos restaurantes com buffet montado, verifique se os pratos quentes estão em balcão térmico e se os pratos frios estão em balcão refrigerado. Os alimentos frios como saladas, molhos caseiros, sushi e queijos devem estar em balcões refrigerados à temperatura abaixo de 10ºC e os alimentos quentes devem estar em balcões aquecidos à temperatura acima de 60ºC.
• Também nos estabelecimentos com buffet montado, repare se há anteparos de vidro sobre os pratos. Eles ajudam a proteger o alimento contra eventuais descuidos de quem está se servindo (espirros, tosses e saliva).
• Verifique a higiene dos funcionários e o cuidado de higiene que os mesmos possuem ao manipular o alimento. Durante o desempenho de suas atividades, os funcionários não devem fumar, falar desnecessariamente, cantar, assobiar, espirrar, cuspir, tossir, comer, manipular dinheiro ou outros atos que possam contaminar o alimento.

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• Observe o prazo de validade de itens como azeite, pimenta e sachês de molhos. Esses produtos, por terem validade longa, costumam ser negligenciados.

Doenças alimentares

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Getty Images

Dados do Ministério da Saúde apontam que em 2017 foram registrados 598 surtos de DTAs com 9.320 doentes e 12 óbitos. Os agentes mais envolvidos nos surtos são as bactérias Salmonella spp., Escherichia coli (espécies patogênicas) e Staphylococcus aureus.

“O número de casos reportados costuma ser muito aquém da realidade devido à subnotificação. O que é mostrado nas estatísticas de DTAs representa apenas a ponta do iceberg, justamente porque temos a noção de que a real dimensão dos casos é muito maior”, afirma Uelinton Pinto, professor da Faculdade de Ciência Farmacêuticas da USP e integrante do FoRC.

“A ingestão de alimentos contaminados com essas bactérias pode levar à ocorrência de gastroenterites, cujos sintomas mais comuns incluem náusea, vômito, febre, diarreia e cólicas abdominais. Em alguns casos, os sintomas podem ser mais graves e até fatais. Vale destacar que, no caso da intoxicação por Staphylococcus aureus, a enfermidade ocorre devido à ingestão de alimentos contaminados com a toxina produzida pela bactéria, durante sua multiplicação nos alimentos”, explica Jéssica.

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Segundo ela, os erros mais frequentes que comprometem a segurança dos alimentos preparados pelos restaurantes e estabelecimentos similares são: manutenção dos alimentos em temperaturas impróprias, presença de vetores e pragas urbanas; alimentos fora do prazo de validade; armazenamento inadequado das matérias-primas; contaminação cruzada; alimentos impróprios para consumo sem procedência e identificação, higiene inadequada do local e dos utensílios e reaproveitamento inadequado dos alimentos.

Sobre o FoRC

Criado em 2013, o FoRC é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Reúne equipes multidisciplinares de diferentes instituições de pesquisa do Estado de São Paulo: USP, UNICAMP, UNESP, Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). Suas linhas de pesquisa estão estruturadas em quatro pilares: Carboidratos, Alimentos e Saúde; Biodiversidade Alimentar, Compostos Bioativos e Saúde; Micróbios nos Alimentos: riscos e benefícios; e Tabela Brasileira de Composição Alimentar. Além de realizar pesquisas e promover a transferência de tecnologias e novos conhecimentos para a sociedade, o FoRC também realiza atividade de difusão do conhecimento científico.

 

 

Estudo da USP mostra como o álcool em dose moderada protege o coração

Karina Toledo | Agência FAPESP

Há pelo menos 20 anos estudos têm mostrado que o consumo moderado de álcool pode ter efeito cardioprotetor em grande parte das pessoas, mas ainda não se sabia ao certo por quê.

Dados de uma pesquisa conduzida no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) indicam que essa proteção pode estar relacionada com a ativação de uma enzima mitocondrial chamada ALDH2 (aldeído desidrogenase-2), que ajuda a eliminar do organismo tanto os subprodutos tóxicos gerados pelo metabolismo do álcool como também um tipo de molécula reativa produzido nas células cardíacas quando estas sofrem um dano importante – como o causado pelo infarto, por exemplo.

“Nossos dados sugerem que a exposição moderada ao etanol causa um pequeno estresse nas células do coração, não suficiente para matá-las. Como consequência, ocorre uma reorganização no sinal intracelular e a célula cardíaca acaba criando uma memória bioquímica contra estresse, também chamada de precondicionamento. Quando a célula é submetida a um estresse maior, já sabe como lidar”, disse Julio Cesar Batista Ferreira, professor do Departamento de Anatomia do ICB-USP e coordenador da pesquisa apoiada pela FAPESP.

O trabalho vem sendo feito em parceria com cientistas da Stanford University, nos Estados Unidos. Resultados recentes, obtidos durante o pós-doutorado de Cintia Bagne Ueta, foram publicados na revista Cardiovascular Research.

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Resultados publicados na Cardiovascular Research indicam que efeito está relacionado com ativação da enzima ALDH2, responsável por livrar o organismo de moléculas tóxicas pertencentes à classe dos aldeídos (ilustração: Marcio Ribeiro)

Para estudar os efeitos cardioprotetores do álcool em nível celular, os pesquisadores simularam uma condição semelhante ao infarto em corações de camundongo mantidos vivos em um sistema artificial. Nesse modelo, chamado ex vivo, o órgão permanece batendo fora do corpo durante várias horas, sendo alimentado por uma solução rica em nutrientes e oxigênio.

Os cientistas então simulam uma condição clínica conhecida como isquemia e reperfusão interrompendo o fluxo nutritivo para o coração durante 30 minutos. Quando a solução nutritiva volta a correr, o órgão recomeça a bater lentamente e, após uma hora, os pesquisadores conseguem avaliar o tamanho do dano. Em média, nesse modelo, cerca de 50% das células cardíacas morrem caso não seja feito nenhum tipo de intervenção.

“Acreditava-se, antigamente, que o dano principal era consequência do período sem oxigênio. Mas estudos mostraram que, durante a isquemia, as células mudam seu metabolismo e entram em uma espécie de estado dormente. Quando a artéria é desobstruída [reperfusão], o tecido recebe uma enxurrada de sangue com nutrientes e oxigênio e acaba ocorrendo um colapso metabólico nas células”, explicou Ferreira.

Em resposta ao estresse, as células cardíacas começam a produzir grandes quantidades de uma molécula reativa conhecida como 4-HNE (4-hydroxy-2-nonenal), pertencente à classe química dos aldeídos. Em excesso, essa substância tóxica começa a destruir estruturas celulares essenciais.

A enzima mitocondrial ALDH2 é a principal responsável por livrar o organismo dos aldeídos acumulados – tanto o 4-HNE das células cardíacas em estresse quanto o acetaldeído resultante da quebra da molécula de etanol no fígado após uma noite de bebedeira.

No entanto, em trabalhos anteriores, o grupo de Ferreira em parceria com pesquisadores de Stanford coordenados por Daria Mochly-Rosen mostraram que, durante o processo de isquemia e reperfusão, a atividade da enzima ALDH2 era significativamente reduzida. Esses achados foram divulgados na revista Science Translational Medicine e no Circulation Journal.

“A quantidade de 4-HNE se torna tão grande dentro da célula cardíaca que a molécula acaba atacando a própria enzima responsável pelo seu metabolismo”, contou Ferreira.

“Em nosso novo estudo, observamos que no coração exposto ao etanol antes do processo de isquemia e reperfusão a atividade da ALDH2 se manteve igual à de um órgão que não sofreu injúria. Acreditamos que o estresse causado pelo etanol em dose moderada deixa uma memória e, assim, a célula aprende a manter a enzima ALDH2 mais ativa”, acrescentou.

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Grupos de estudo

Cinco grupos de estudos foram montados com o objetivo de esmiuçar os mecanismos por trás do efeito protetor observado. No primeiro, considerado como grupo-controle, os corações não sofreram nenhum tipo de dano e não receberam nenhum tratamento ou intervenção. No segundo grupo, os corações foram apenas submetidos à isquemia e reperfusão e, como consequência, perderam em torno de 50% das células.

No terceiro grupo, antes de induzir o dano, os pesquisadores expuseram durante 10 minutos os órgãos extraídos de camundongos machos a uma dose de etanol equivalente a duas latas de cerveja ou duas taças de vinho para um humano médio do sexo masculino. A dose foi ajustada de acordo com a massa dos animais.

“Procuramos seguir a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de até uma dose por dia para mulheres [18 gramas de álcool] e até duas doses para homens. No caso de camundongos, foi algo em torno de 50 milimolar”, explicou Ferreira.

Os órgãos foram depois lavados por outros 10 minutos para retirar o excesso de álcool e, em seguida, tiveram o fluxo nutritivo interrompido, como ocorreu com o grupo dois. Na análise feita cerca de uma hora após a reperfusão, apenas 30% das células haviam morrido, ou seja, o dano foi reduzido em quase 60% na comparação com o grupo dois. Além disso, os cientistas observaram que a atividade de ALDH2 estava duas vezes maior que no grupo não tratado – e em nível equivalente ao do grupo-controle, que não sofreu dano.

No quarto grupo de estudo, além do tratamento com etanol, os corações foram expostos a uma droga capaz de inibir a atividade de ALDH2. Nesse caso, o índice de morte celular subiu de 50% para 80%, confirmando que a proteção promovida pelo etanol de fato é dependente da ação da enzima.

Já no último grupo experimental foram usados corações de camundongos que apresentam uma mutação no gene codificador da ALDH2, que reduz a atividade da enzima em quase 80%. Como explicou Ferreira, os animais são modificados geneticamente para simular essa mutação, que é muito comum na população oriental e afeta quase 600 milhões de pessoas no mundo.

“Nesse grupo, quando expusemos os corações ao etanol, o dano causado pela isquemia e reperfusão foi aumentado. O índice de morte celular passou de 50% para 70%. Porém, quando tratamos os órgãos desse grupo com uma droga experimental capaz de ativar a ALDH2 – conhecida como Alda-1 – o índice de morte celular caiu para 35%”, contou Ferreira.

Segundo o pesquisador, não foi observado benefício ao tratar com a Alda-1 os corações de animais sem a mutação na enzima ALDH2 expostos ao etanol. “Isso sugere que tanto a droga experimental quanto o álcool estão atuando no mesmo mecanismo molecular para ativar ALDH2”, disse.

A molécula Alda-1 já passou pela primeira fase de ensaios clínicos nos Estados Unidos, nos quais se mostrou segura para uso em humanos saudáveis. Deve ter início em breve uma nova fase de testes onde a substância será oferecida a portadores de cardiopatias (leia mais aqui).

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Depende do DNA

Na avaliação de Ferreira, é possível fazer um paralelo entre o consumo regular de pequenas quantidades de álcool por seres humanos e os resultados observados nos corações de camundongos tratados em laboratório com etanol.

“Mas tudo depende do que a pessoa carrega no DNA”, ressaltou. “O acetaldeído resultante do metabolismo do etanol pode ser protetor em pequenas quantidades para a maioria da população, mas também pode maximizar o dano do infarto em um indivíduo com a mutação no gene da ALDH2. Essas pessoas são fáceis de serem identificadas, pois com apenas um copo de cerveja ficam com o rosto vermelho, dor de cabeça e não ganham resistência ao álcool com o tempo”, disse.

O dano ao coração também pode ser agravado caso o álcool seja ingerido em quantidades elevadas, alertou Ferreira, pois isso resulta na produção excessiva de acetaldeído e torna o trabalho de limpeza promovido pela ALDH2 ainda mais difícil.

“O grupo tratado com a droga inibidora da ALDH2 [no qual o índice de morte celular chegou a 80%] mimetiza o que aconteceria em um caso de consumo excessivo de álcool. O difícil é estabelecer a dose segura para cada indivíduo, pois há muitas variáveis que afetam o metabolismo”, disse o pesquisador.

O grupo do ICB-USP tenta agora entender como a presença do acetaldeído resultante do metabolismo do álcool na célula cardíaca cria a memória que mantém a ALDH2 mais ativa. A ideia seria desenvolver uma droga capaz de mimetizar o efeito benéfico do etanol sem expor os indivíduos a riscos – entre eles o desenvolvimento de dependência química.

“A molécula Alda-1 é um possível candidato. Entretanto, é necessário dar continuidade aos estudos de segurança e eficácia em humanos”, comentou Ferreira.

O artigo Cardioprotection induced by a brief exposure to acetaldehyde: role of aldehyde dehydrogenase 2, de Cintia Bagne Ueta, Juliane Cruz Campos, Rudá Prestes e Albuquerque, Vanessa Morais Lima, Marie-Hélène Disatnik, Angélica Bianchini Sanchez, Che-Hong Chen, Marisa Helena Gennari de Medeiros, Wenjin Yang, Daria Mochly-Rosen e Julio Cesar Batista Ferreira, está publicado aqui.

Pesquisadora da USP produz chocolate funcional com probióticos

Alimento com lactobacilos vivos melhora funções intestinais e reduz risco de doenças como o câncer de cólon

Por Ivanir Ferreira – Editorias: Ciências da Saúde

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O chocolate é uma alternativa aos produtos lácteos (iogurte, leite fermentado, sorvetes e cremes) que não podem ser consumidos por pessoas com intolerância à lactose, alérgicos ou com restrição de proteína animal – Foto: Pixabay – CC

Novo chocolate funcional, produzido na USP, contém micro-organismos vivos que conferem mais benefícios à saúde humana. Além das propriedades antioxidantes presentes no cacau, os probióticos melhoram as funções gastrointestinais, reduzem o risco de constipação e a possibilidade de desenvolvimento de várias doenças como o câncer de cólon. A pesquisa, que foi feita na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, traz novas alternativas para o mercado de alimentos. O chocolate meio amargo poderá substituir os produtos lácteos encontrados nos supermercados que não podem ser consumidos por pessoas com intolerância à lactose, alérgicos ou com restrição de proteína animal.

Os probióticos aplicados ao chocolate foram o Lactobacillus acidophilus e Bifidobacterium animalis, semelhantes aos presentes naturalmente no organismo humano, mas que ao longo da vida vão se perdendo pelo consumo de alguns alimentos industrializados que afetam a flora intestinal, como o açúcar, abusos de medicamentos e o estresse. Os micro-organismos têm um papel fundamental no fortalecimento do sistema imunológico e estão associados ao combate de doenças gastrointestinais, redução da biossíntese do colesterol, inibição de células cancerígenas e possuem atividade antimicrobiana contra a Helicobacter pylori e diversos fungos. A ingestão regular e em quantidade adequada de probióticos restaura a flora intestinal e repovoa o organismo de bactérias boas.

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Partículas lipídicas com os probióticos encapsulados – Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora

Os lactobacilos são mais comumente encontrados em iogurte, sucos, sorvetes e cremes porque os produtos lácteos são boas matrizes para veiculação dos micro-organismos. O grande desafio da pesquisa foi encontrar uma forma de incorporar os bioativos em outros produtos que os mantivessem vivos, explica a engenheira de alimentos, Marluci Palazzolli da Silva, autora do mestrado que deu origem ao chocolate funcional.

Em laboratório, Marluci dividiu o processo de incorporação dos probióticos no chocolate meio amargo em duas etapas: na primeira, microencapsulou os probióticos com gordura vegetal por um método chamado spray chilling, onde a mistura de probióticos e a gordura vegetal aquecida foi atomizada a frio produzindo partículas lipídicas. O objetivo foi proteger os micro-organismos do contato com o oxigênio, com a umidade e demais ingredientes do chocolate; na segunda etapa, a pesquisadora preparou amostras de chocolate sem a encapsulamento dos micro-organismos. As amostras de chocolate foram produzidas em parceria com o Centro de Tecnologia de Cereais e Chocolate do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital).

Em ambos os processos, segundo a pesquisadora, tiveram resultados positivos em relação à possibilidade de o chocolate meio amargo ser uma matriz alimentícia aceitável para a incorporação dos probióticos. Porém, a técnica que utilizou spray chilling se mostrou mais eficiente porque a digestão da gordura, que neste caso encapsulou os bioativos, ocorreu no intestino, onde os micro-organismos efetivamente possuem melhor ação. Nos dois processos, os micro-organismos sobreviveram, havendo, inclusive, a manutenção da quantidade de bactérias.

Depois de pronto, o chocolate foi avaliado por cem provadores para comprovar a aceitação do produto que teve nota acima de sete em uma escala de nove pontos. Perguntado aos voluntários se comprariam o chocolate funcional quando estivesse no mercado, cerca de 75% demonstraram intenção de compra.

Segundo a pesquisadora, considerando a boa aceitação do chocolate, a manutenção da viabilidade dos probióticos e o efeito antioxidante pela presença dos compostos fenólicos no cacau, os resultados da pesquisa indicaram o potencial do produto para a diversificação dos alimentos probióticos disponíveis no mercado, conclui.

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Marluci Palazzolli da Silva, autora do estudo que deu origem ao novo chocolate funcional – Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora

A dissertação Desenvolvimento e caracterização de chocolate meio amargo contendo micro-organismo probiótico na forma livre e encapsulada que resultou no chocolate funcional foi defendida por Marluci Palazzolli da Silva, sob orientação da professora Carmem Sílvia Favaro Trindade, na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP.

Fonte: Jornal da USP

 

Pele impressa em 3D substitui animais em teste de cosméticos

Estudo premiado é baseado no desenvolvimento, na USP, de modelo de pele humana reconstituída para testar toxicidade

Por – Editorias: Ciências

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Trabalho premiado teve como base modelo de pele humana reconstruída em laboratório para utilização em testes de toxicidade Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Trabalho premiado teve como base modelo de pele humana reconstruída em laboratório para utilização em testes de toxicidade Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Modelos de pele humana impressos em 3D para substituir animais em testes de cosméticos são o tema do trabalho da pesquisadora Carolina Motter Catarino, que acaba de receber um prêmio internacional. A pesquisa de doutorado realizada no Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy (Estados Unidos), é uma das premiadas pelo The 2017 Lush Prize, destinado a descobertas sobre testes que eliminem o uso de animais. A base do trabalho premiado foi o desenvolvimento de um modelo de pele humana reconstruída in vitro para testar toxicidade, realizado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, com orientação da professora Silvya Stuchi.

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Carolina Motter Catarino, premiada no The 2017 Lush Prize – Foto: Divulgação/Lush Prize 2017

Em alguns países onde o teste de cosméticos usando modelos animais ainda é permitido, são usados animais como coelhos e ratos, entretanto, muitos países baniram essa prática em favor do uso de métodos alternativos. “Por exemplo, em 2009 a União Europeia proibiu o uso de animais para testes de cosméticos e em 2013 proibiu a venda de produtos que tenham sido testados em animais”, relata Carolina. Quanto aos testes em animais no Brasil, um projeto de lei esta tramitando no Senado Federal para proibição efetiva do uso de animais para testes de produtos cosméticos e de higiene pessoal. “Uma série de métodos alternativos foram desenvolvidos nos últimos anos, como os modelos de pele humana reconstruída in vitro.

De acordo com a pesquisadora, os testes com animais apresentam inconveniências. “Primeiramente, os animais são fisiologicamente muito diferente dos seres humanos, como por exemplo, a composição e estrutura das camadas da pele e concentração de folículos capilares”, aponta. “Essas e outras diferenças podem gerar resultados que não são reproduzidos em humanos posteriormente ou até mesmo não antecipar possíveis efeitos adversos”.

Os modelos de pele disponíveis atualmente para testes são fisiologicamente semelhantes a pele humana e foram validados para parâmetros específicos tais como irritação e corrosão, observa Carolina. “No entanto, a maioria destes modelos contém no máximo um ou dois tipos de células dentre os mais de 15 tipos presentes na pele humana e não apresentam vasculatura e apêndices (folículo capilar, glândulas sudorípara e sebácea)”, ressalta. “A falta destes componentes e dos diferentes níveis de complexidade deixa espaço para desenvolvimento de modelos mais completos e que sejam fisiologicamente mais relevantes”.

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Comparação mostra semelhança entre a pele humana produzida na impressora 3D e a pele existente no corpo. Foto: Arquivo / Carolina Motter Catarino

Impressão

A pesquisadora trabalhou com células humanas extraídas a partir de amostras de pele provenientes de cirurgias plásticas ou postectomia (cirurgia para remoção do prepúcio). “Em geral são usadas amostras de prepúcio de cirurgias realizadas em recém-nascidos. Essas células apresentam um melhor potencial para expansão e diferenciação em comparação com células isoladas de amostras de pele de adultos. Após isolar as células, elas são expandidas in vitro, de modo a gerar quantidade suficiente de células para reconstruir a pele”, explica. Para a impressão da pele o primeiro passo é preparar as diferentes bio-inks (tintas biológicas). “Essas tintas são compostas por uma mistura de proteínas presentes na pele humana, tais como o colágeno tipo I, e as células de pele previamente isoladas, como fibroblastos, queratinócitos e melanócitos”.

Os cartuchos de bio-ink são estão colocados na impressora e o processo de impressão é iniciado e controlado por um software. “Depois de impressas, as amostras de pele são mantidas numa incubadora de 12 a 21 dias para a diferenciação das camadas da pele”, descreve Carolina. “Após esse período, a pele apresenta estrutura semelhante a pele humana e que pode ser usada, por exemplo, para avaliar potencial irritante ou corrosivo, entre outros, de substancias aplicadas topicamente”.

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Cartuchos de tinta biológica são colocados na impressora 3D para produzir as amostras de pele humana Foto: Arquivo / Carolina Motter Catarino

A pesquisadora começou a pesquisar modelos de pele in vitro durante o curso de graduação em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando participou do Brafitec, programa de intercambio acadêmico para alunos de Engenharia entra o Brasil e a França. Ela estudou seis meses na Université de Technologie de Compiègne e depois fez estágio de seis meses na empresa L’Óreal, em Paris. “O trabalho na empresa era usar modelos de pele reconstruída para testar uma série de compostos. Esse foi o primeiro contato com o conceito de métodos alternativos aos testes em animais”, conta.

Veja o vídeo com a impressora em funcionamento clicando aqui

Após retornar ao Brasil e se formar na UFPR, Carolina iniciou o mestrado no Laboratório de Biologia da Pele da FCF, orientada pela professora Silvya Stuchi, onde desenvolveu um modelo de epiderme humana reconstruída in vitro para ser usado como plataforma para screening (teste de rastreamento) toxicológico de substâncias. Depois do mestrado, a pesquisadora mudou-se para os Estados Unidos, para realizar doutorado no Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy, no Estado de Nova York, com bolsa integral do programa Ciência sem Fronteiras. “Apesar de todas as etapas anteriores da minha carreira terem sido fundamentais para o meu crescimento como cientista, o projeto desenvolvido nos Estados Unidos, no laboratório do professor Pankaj Karande, rendeu a premiação pela Lush”, destaca.

Fonte: Jornal da USP

USP produz iogurte enriquecido com ômega-3 vegetal

Por Ivanir Ferreira – Editorias: Ciências da Saúde

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Alimento foi enriquecido com ômega-3, fitosteróis e ácido sinápico. Associação de componentes atua na redução dos níveis de colesterol e triglicerídeos e auxilia na prevenção de diabete, alergias e doenças neurodegenerativas – Foto: Pixabay / CC0

Nutriente foi extraído do óleo da semente de echium, planta que tem se mostrado boa alternativa ao ômega-3 de peixes marinhos

A Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP produziu um iogurte de morango enriquecido com óleo de semente de echium. A planta originária da Europa, Ásia e África desponta como excelente alternativa às fontes de ômega-3 de peixes de águas marinhas, que apresenta aroma mais desagradável. Além de manter o sabor e a textura, o novo iogurte tem alto valor nutricional. O ômega-3 associado a outros componentes testados durante a pesquisa (fitosteróis e ácido sinápico) atua na redução dos níveis de colesterol, de triglicerídeos e auxilia na prevenção de diabete, alergias e doenças neurodegenerativas.

Apesar do elevado interesse industrial em alimentos enriquecidos com compostos bioativos, a obtenção do iogurte com ômega-3 só foi possível depois que a engenheira de alimentos Talita Aline Comunian, autora da pesquisa realizada na FZEA, pensou em uma solução tecnológica que permitisse a mistura dos compostos sem que houvesse alteração bioquímica das substâncias. Tanto o óleo de echium – fonte de ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 – quanto os outros compostos (fitosteróis e ácido sinápico) são instáveis e poderiam se oxidar em contato com oxigênio, luz e alta temperatura e perderem suas funções.

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Visão microscópica das microcápsulas – Foto: Talita Aline Comunian

Microencapsulação de substâncias

A solução veio de uma técnica chamada encapsulação por coacervação complexa, que utiliza biopolímeros (neste caso, a gelatina e a goma arábica) como parede das microcápsulas. A microencapsulação consiste na proteção de um ou mais compostos que precisam ser adicionados a produtos alimentícios, como compostos bioativos de probióticos, por exemplo.

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Talita Aline Comunian, autora da pesquisa – Foto: Arquivo pessoal

Resolvida esta questão, foram elaboradas três amostras de iogurte: na primeira, foram adicionados o óleo de echium, os fitosteróis e o ácido sinápico, sem encapsulação. Na segunda amostra, foram adicionadas as mesmas substâncias encapsuladas. A terceira amostra era controle, assim, nada foi acrescentado.

Depois de prontos, os três tipos de iogurtes foram armazenados a uma temperatura de 4 graus Celsius. Em seguida, passaram por diversos testes, entre eles uma análise sensorial com 120 provadores que avaliaram o produto em relação ao aroma, cor, textura, sabor e aceitação global.

Segundo a engenheira de alimentos, as propriedades físico-químicas, reológicas (como viscosidade, por exemplo) e sensoriais do iogurte adicionado de microcápsulas foram semelhantes ao iogurte comum e melhores do que o iogurte adicionado dos compostos bioativos não encapsulados. Assim, Talita pode concluir que a incorporação das microcápsulas de óleo de echium, dos fitosteróis e do ácido sinápico não interferiu na qualidade final do produto.

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Iogurtes enriquecidos com ômega-3, fitosteróis e ácido sinápico – Foto: Cedida pela pesquisadora

Questionada sobre a importação do óleo de echium, que poderia encarecer o iogurte em sua produção final, Talita explica que o investimento valeria pelos benefícios que o óleo proporciona à saúde humana. Sobre os fitosteróis e o ácido sinápico, a engenheira informou que são encontrados com facilidade em frutas e vegetais brasileiros como morango, limão, laranja, tangerina, manga, abacate, brócolis, cebola e alho, além de ervas e especiarias em geral.

A tese Simultaneous encapsulation of echium seed oil (Echium Plantagineum L.), phytosterols and phenolic compounds: characterizatrion and application of microcapsules foi defendida em outubro de 2017 na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, sob orientação da pesquisadora Carmen Silvia Favaro Trindade.

Fonte: Jornal da USP

Baixo custo e pouco valor nutricional são receita de ultraprocessados

Para especialista, conceito de alimentos ultraprocessados confronta a indústria, que insiste em negar seus malefícios à saúde

Por Redação – Editorias: Ciências da Saúde

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Número especial da Public Health Nutrition tem artigos sobre classificação de alimentos desenvolvida por pesquisadores da USP, incluindo a categoria ultraprocessados, de que os biscoitos industrializados são exemplo – Arte sobre fotos / Pixabay – CC

Salgadinhos, refrigerantes e biscoitos: alimentos ultraprocessados feitos com ingredientes de baixo custo e pouco valor nutricional – muito açúcar, sódio, aditivos e sal. Produzidos com o intuito de serem “irresistíveis” e consumidos facilmente, esses alimentos oferecem riscos à saúde ao promover a obesidade, diabete e outras doenças crônicas relacionadas à alimentação.

Estudos sobre esses produtos e sua influência na saúde humana foram apresentados na revista científica Public Health Nutrition (volume 21, 2018), editada pela Sociedade Britânica de Nutrição. O número especial é dedicado à classificação criada pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP sobre o grau de processamento industrial de alimentos.

“É uma proposta metodológica que tem impacto no primeiro mundo”, afirma o professor Carlos Augusto Monteiro da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e membro do Nupens. Para ele, os artigos confirmam a hipótese sobre os ultraprocessados não serem saudáveis. Mais do que isso, o professor acredita que a classificação possui dimensão política, pois confronta a indústria alimentícia, que insiste em negar os malefícios desses alimentos à saúde.

A maioria das embalagens dos ultraprocessados verificados em um estudo na Austrália, por exemplo, trazia declarações nutricionais enganosas e os apresentava como “saudáveis”, apesar da alta prevalência de adição de açúcares adicionados e do questionável valor nutricional. Para a autora do estudo, o grau de declarações inadequadas ou imprecisas presentes é preocupante, particularmente em embalagens destinadas a atrair crianças.

Origem

A classificação denominada “Nova” foi proposta pela primeira vez em um artigo publicado em 2009 pela mesma revista. Desde então, vem sendo utilizada em estudos sobre sistema alimentar, dieta e saúde, em documentos técnicos de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Pan-Americana de Saúde, na orientação de políticas públicas em alimentação e nutrição e na construção de guias nacionais para a promoção da alimentação saudável e sustentável.

O conceito é fruto do projeto temático Consumo de alimentos ultraprocessados, perfil nutricional da dieta e obesidade em sete países e se divide em quatro classificações. A primeira categoria é composta de alimentos in natura, que devem ser a base da alimentação, como frutas e hortaliças. O segundo grupo é formado por ingredientes relativos à preparação culinária, o óleo, sal e açúcar, por exemplo. Já o terceiro são os alimentos preparados com adição de sal, açúcar ou outras substâncias do grupo dois, são eles: queijo, pães, legumes em conserva, entre outros. A última categoria se refere aos ultraprocessados.

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Classificação alimentar apresenta os grupos de alimentos: in natura; ingredientes para preparação culinária; e alimentos com adição de sal, açúcar e outras substâncias, categoria da qual fazem parte como subgrupo os ultraprocessados – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A publicação traz 26 artigos assinados por pesquisadores de universidades e centros acadêmicos de vários países, incluindo Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Inglaterra, México, Nova Zelândia, Líbano e Uruguai.

Os artigos publicados na revista Public Health Nutrition podem ser conferidos no site Cambridge Core.

Com informações da Assessoria de Comunicação da FSP

Fonte: Jornal da USP

Bichos de pelúcia substituem animais de laboratório em aulas na USP

Professora do campus de Ribeirão Preto desenvolveu material para aulas sobre “diabetes mellitus”

Por Rita Stella – Editorias: Universidade

Há cinco anos, uma professora da USP em Ribeirão Preto usa animais de pelúcia em aulas práticas sobre diabetes mellitus. A iniciativa vem poupando sofrimento e morte de cerca de 45 ratos por ano, com benefícios ao aprendizado dos estudantes que perdiam o foco com a dor dos animais.

Responsável pela aula alternativa, cursada por alunos das faculdades de Odontologia (Forp) e de Ciências Farmacêuticas (FCFRP) da USP, a professora Maria José Alves da Rocha conta que as aulas de laboratório da disciplina de Fisiologia sobre diabetes mellitus nunca foram confortáveis. Os alunos sofriam com a coleta de sangue dos animais para dosar a glicemia, pois era necessário um corte no rabo do animal, relata. A professora explica ainda que esses ratos ficavam em estado deplorável e exalavam forte odor causado por diarreia, efeito colateral da droga que induz ao diabete.

Ao buscar uma solução para o problema, Maria José encontrou alguns artigos científicos sobre modelos de aulas de sucesso com animais artificiais e decidiu desenvolver seu próprio material. Aproveitou as gaiolas metabólicas – equipamento onde ratos de verdade ficam e têm suas fezes e urina coletados – já existentes e adquiriu os ratinhos de pelúcia em oferta numa grande loja.

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A responsável pela disciplina, professora Maria José Alves da Rocha, da Forp – Foto: Arquivo pessoal

Com a ajuda do técnico de laboratório Mauro Ferreira da Silva, abriu o abdômen de alguns bichinhos que, a cada aula, são preenchidos com bolas de gude para alcançar pesos diferentes. Para o sangue e urina, que também são artificiais, recebeu a colaboração do então aluno de Farmácia Paulo José Basso. Esses preparados simulam os diferentes níveis de glicemia, ou seja, a quantidade de açúcar no sangue.

As análises, comparando as aulas com animais reais e as que usam métodos alternativos, ofereceram à professora a certeza do caminho certo. “Modelos de ensino que não envolvem experimentos nocivos ou com morte de animais são benéficos à aprendizagem”, garante. Conta que era comum estudantes se distraírem do objetivo principal, a doença, ao se envolverem em discussões sobre a dor e o desconforto que os animais experimentam.

“Questões éticas são importantes e devem ser incorporadas em um curso de fisiologia”, defende a professora. Entre as vantagens das aulas com a substituição dos animais, ela aponta a oportunidade do aluno discutir as diferenças entre a diabete tipo 1 e tipo 2, oferecida pela simulação do rato obeso. Ela afirma que a técnica pode ser facilmente adaptada em todos os cursos das áreas biomédicas que ensinam fisiologia endócrina, mesmo em instituições com menos recursos, já que não requer grande suporte técnico nem equipamentos ou espaços físicos específicos.

Por esse trabalho de ensino, a professora e sua equipe receberam o Prêmio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) de Métodos Alternativos à Experimentação Animal, como o terceiro colocado na categoria Produção Acadêmica. A solenidade de premiação ocorreu em Brasília na semana passada. Um artigo sobre o tema foi publicado na revista Advances in Physiology Education.

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As gaiolas metabólicas utilizadas anteriormente com os animais reais foram aproveitadas nas aulas – Foto: Divulgação

Reprodução fiel de diabetes mellitus experimental

Os grupos de alunos recebem gaiolas metabólicas com três ratos de pelúcia; dois, simulando diabetes mellitus – tipo 1 e tipo 2, e o terceiro é o saudável.

As gaiolas contêm água e alimentos reais, além de recipientes contendo urina artificial para simular amostras coletadas durante um período de 24 horas. Para cada gaiola, também são fornecidos tubos de ensaio com sangue artificial com diferentes níveis de glicemia.

No artificial “diabético”, a urina contém diferentes quantidades de glicose e acetona para simular níveis de glicosúria e cetonúria, que são medidas importantes para avaliar o diabete. Na urina simulada de um rato não diabético, não é adicionada glicose ou acetona à preparação. Para as análises de glicemia, os alunos contam com o sistema Accu-Chek, aparelho que monitora essas medidas no sangue. Para verificar as intensidades de glicosúria e cetonúria na urina, são utilizadas fitas de bioensaio Urocolor.

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Os estudantes devem pesar os animais, quantificar a ingestão de água e alimentos e analisar as amostras de sangue artificial e urina e, ao final, descobrir qual é o diabético tipo 1 e o qual é o tipo 2. Após a discussão em grupo, cada aluno faz um relatório individual e responde às questões formuladas sobre a doença.

Os animais e amostras são preparados antes de cada aula prática. Os alunos não sabem que sangue e urina são artificiais. Conta a professora que tudo é simulado para reproduzir o mais fielmente possível a aula que antes era ministrada com ratos de verdade.

Desta forma, “os alunos ficam conhecendo a gaiola metabólica e como os cientistas fazem para estudar diabetes mellitus experimental”. Com exceção do rato, todo o material utilizado é muito real para o aluno, que não sabe que o peso é dado pelas bolas de gude, nem de que material são feitos o sangue e a urina. Tudo é revelado no final.

Males do diabetes mellitus

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Simulação fiel de estudo experimental ensina diabetes mellitus sem os desconfortos da aula prática com animais reais – Foto: Reprodução

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, hoje o Brasil tem mais de 13 milhões de diabéticos, cerca de 6,9% da população. Trata-se de uma doença crônica na qual o corpo não produz insulina ou não consegue usar adequadamente a insulina que produz.

Hormônio produzido pelo pâncreas, a insulina controla a quantidade de glicose no sangue. Assim, o diabético sofre por não conseguir utilizar adequadamente a glicose obtida pela ingestão de alimentos. Quando o nível de glicose fica alto, temos a hiperglicemia que, se mantida por longos períodos, pode causar sérios danos em órgãos, vasos sanguíneos e nervos.

O mau controle dos níveis de glicemia leva a complicações em diversos tecidos do corpo. Entre as principais estão: o pé diabético (complicação mais frequente, caracterizada por feridas na pele e falta de sensibilidade no pé; casos graves podem necessitar de amputação); a nefropatia diabética (alterações nos vasos sanguíneos dos rins que podem levar à insuficiência renal e à necessidade de hemodiálise); problemas nos olhos (cataratas, glaucoma, edema macular e retinopatia diabética, por exemplo); e doença cardiovascular.

Mais informações: email mjrocha@forp.usp.br

Fonte: Jornal da USP